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Entrevista: Daniel
Barenboim "Podemos viver juntos" O
maestro e intelectual judeu fala de sua experiência à frente
de uma orquestra que reúne jovens músicos de todo o Oriente
Médio 
Sérgio Martins
| Roberto Setton  | "Na
Europa e nos Estados Unidos, uma hora de violino é uma hora de estudo.
Na Palestina, significa uma hora longe da violência e do fundamentalismo" |
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O argentino naturalizado israelense Daniel Barenboim,
de 62 anos, é um dos maiores nomes da música erudita atual. Nascido
em Buenos Aires, ele se lançou na carreira de concertista aos 7 anos de
idade. Na década de 60, assumiu também a função de
maestro. Regeu grupos importantes, como a Filarmônica de Berlim, a Sinfônica
de Chicago e a Ópera Estatal de Berlim nas duas últimas,
acumulou o cargo de diretor artístico. Seu repertório de regência
é vasto: vai de clássicos como Beethoven sua gravação
das sinfonias do alemão é tida como essencial aos compositores
contemporâneos. Barenboim é também um agudo polemista. Uma
de suas brigas é em defesa da obra do alemão Richard Wagner (1813-1883),
famoso pelo anti-semitismo. "Ele foi um ser humano execrável e um compositor
genial", diz. Em 1999, ao lado do intelectual palestino Edward Said, Barenboim
criou a West-Eastern Divan Orchestra, que reúne jovens músicos judeus
e árabes. A orquestra atualmente está sediada em Sevilha, onde é
sustentada por uma verba anual de 2,5 milhões de euros. Nesta entrevista,
Barenboim fala de música e dá seu ponto de vista sobre o conflito
no Oriente Médio. Veja
O senhor está à frente de uma das iniciativas mais
celebradas do mundo da música erudita, a West-Eastern Divan Orchestra,
que reúne jovens árabes e judeus. O que o levou a fundar a orquestra?
Barenboim A West-Eastern Divan é, antes de mais nada,
uma experiência de integração social. Era isso que eu e meu
parceiro, o intelectual palestino Edward Said, tínhamos em mente ao dar
início a esse projeto. Queríamos mostrar aos dois lados de um conflito
sangrento que é possível criar ambientes em que árabes e
judeus vivem e trabalham juntos. Cada vez que a orquestra ensaia ou se apresenta,
essa mensagem é passada adiante. Demonstramos isso há duas semanas
ao tocar em Ramallah, na Cisjordânia, um dos lugares onde os conflitos entre
judeus e palestinos estão mais à flor da pele.
Veja Musicalmente, o senhor está satisfeito com os resultados
do grupo? Barenboim A West-Eastern Divan foi idealizada
para ter grande rotatividade em seus quadros. Nossos jovens músicos vêm
de diversos países para temporadas de trabalho que duram em média
dois meses. Apesar de o período ser curto, conseguimos revelar artistas
talentosos. Cito o caso de Tamar, flautista libanesa. Ela mal tinha saído
do conservatório quando chegou aqui. Hoje, desempenha um papel importantíssimo
nas nossas execuções da Primeira Sinfonia de Mahler. Alguns
músicos saem daqui para atuar nos principais grupos sinfônicos do
mundo. Outros voltam para casa com um nível de execução muito
melhor. Said morreu em 2003. Gostaria de poder encontrá-lo e dizer: "Veja,
amigo, como nosso sonho se transformou nessa beleza de orquestra".
Veja Quais são os desafios apresentados pelo dia-a-dia
da orquestra? Barenboim No começo, houve dificuldades.
As tensões entre Israel e a Palestina tinham se agravado em 1999, quando
inauguramos o projeto, e o clima era pesado. Havia preconceitos a vencer. Alguns
músicos judeus mostravam descrédito diante da idéia de instrumentistas
árabes. Mas as barreiras caíram nos ensaios. Quando uma orquestra
está em ação, ninguém consegue diferenciar etnias.
Todos são iguais diante de Beethoven. A partir daí, nasceram vínculos
pessoais. Os músicos perceberam que tinham gostos e costumes em comum.
A orquestra tem uma oboísta israelense chamada Meirav Kadichevski. A melhor
amiga dela é uma violinista palestina. Outro oboísta, Mohamed Saleh,
veio do Egito e é muçulmano. Ele mora em Berlim e divide o apartamento
com dois instrumentistas judeus. Os novos membros da orquestra se deixam contagiar
por esse clima e acabam fazendo amizades. Os maiores desafios, hoje em dia, vêm
de fora. Músicos sírios e egípcios muitas vezes desafiaram
o governo de suas nações para tocar conosco. Músicos judeus
também sabem que podem sofrer represálias. Todos mostram uma dose
de heroísmo para fazer aquilo em que acreditam.
Veja Em paralelo às atividades na orquestra, o senhor
também mantém uma escola de música em Ramallah. Qual a importância
dela? Barenboim Acredita-se que a música está
sempre ao alcance de todos, mas há certos lugares do mundo carentes de
informação e de espaços onde as pessoas possam usufruir a
música. Ramallah é um desses lugares. Eu o visitei pela primeira
vez em 1995, levado por Edward Said, e lá senti na pele o desespero e a
raiva de muitos jovens palestinos. Com a escola de música, quis dar aos
habitantes de Ramallah a oportunidade de estudar e enriquecer sua bagagem cultural.
Mas também tinha em mente outra coisa. Na Europa ou nos Estados Unidos,
uma hora ao violino é apenas uma hora de estudo. Na Palestina, significa
também uma hora longe da violência e do fundamentalismo.
Veja O governo de Israel
promoveu a retirada dos assentamentos judeus da Faixa de Gaza. Qual o alcance
desse gesto? Barenboim A devolução dessa
terra aos palestinos é um acontecimento histórico e uma iniciativa
muito importante, mas devemos ser cautelosos. Israel tem de ir adiante e desmontar
outros assentamentos, na Cisjordânia. Depois disso, é preciso reconhecer
que não há outro caminho para a paz senão compartilhar a
casa. Tanto judeus quanto palestinos não conseguem aceitar que ambos os
povos têm uma relação especial com aquele pedaço de
terra, uma relação baseada na história, na filosofia, na
religião. Essa cegueira deliberada já custou demais, é necessário
encerrá-la. Mas sou otimista. Diria que passamos por um período
de transformação que lembra uma obra de Schubert: tem passagens
complicadas, às vezes você não sabe para onde a melodia vai
mas no fim tudo se resolve.
Veja Depois dos atentados em Londres, em julho, o governo inglês
anunciou que vai endurecer suas leis de imigração. O que o senhor,
que vem de uma família de imigrantes, acha desse tipo de medida?
Barenboim O imigrante precisa entender que o país que o recebe
tem regras que devem ser obedecidas. Se eu convidasse alguém para morar
na minha casa e dissesse que o almoço será sempre servido às
2 da tarde, nunca aceitaria que o sujeito assaltasse minha geladeira a qualquer
hora. A contrapartida disso é o esforço de cada país para
integrar as pessoas que chegam. Cito como um bom exemplo a imigração
ocorrida na Argentina no século XIX. Vieram judeus, russos, sírios,
e o governo os acolheu. Todos estudaram nas mesmas escolas e tiveram oportunidades
semelhantes para progredir. A Europa, por outro lado, tem falhado tragicamente
nessa tarefa de acolher os de fora. Os autores do atentado em Londres não
saíram do Afeganistão para cometer aquela monstruosidade. Eles eram
muçulmanos ingleses que se sentiam tratados como cidadãos de segunda
classe. Não estou justificando o ato deles, mas qualquer ação
contra o terrorismo terá de levar em conta esse fator da integração.
Veja O holocausto
foi o fato central na história dos judeus no século XX. Como filho
de judeus russos, como ele o atingiu? Barenboim Minha família
imigrou para a Argentina muito antes da II Guerra. Eu mesmo nasci em 1942. Assim,
tudo o que sei do nazismo e do holocausto aprendi depois. Lembro-me de ver, ainda
criança, moradores da cidade de Bariloche fazer a saudação
nazista. O país abrigou muitos militares alemães depois da derrota
de Hitler. Costumamos achar que não existiu nada mais terrível do
que o nazismo. Para ser sincero, tendo a crer que a principal diferença
está no senso de organização dos alemães. Eles criaram
uma máquina de matar extremamente eficiente. Mas a capacidade do ser humano
de ser cruel é infinita. Veja
O senhor entrou em contato com dois regentes associados ao nazismo:
Wilhelm Furtwängler e Herbert von Karajan. Chegou a conversar com eles a
respeito disso? Barenboim Conheci Furtwängler quando
estava com 11 anos de idade. Não tinha coragem e muito menos o entendimento
para conversar com ele sobre esse assunto. Mas acredito que ele nunca se identificou
realmente com aquele horror. Com Karajan foi diferente. Eu o interpelei e ele
me disse: "Eu tinha ambições artísticas, queria trabalhar
na Alemanha e para isso tinha de me associar ao partido nazista. Foi o que fiz".
Veja Em 2001, o
senhor causou uma grande polêmica ao reger Richard Wagner em Israel. Por
que tomou essa decisão? Barenboim Temos de ter muito
cuidado ao abordar o "tabu Wagner". Wagner nasceu na Alemanha em 1813 e morreu
em 1883. Foi um grande artista e um ser humano horroroso. Nos dias de hoje, iria
para a cadeia por causa de seus escritos anti-semitas. Os nazistas o transformaram
num ícone cultural e usaram sua música como símbolo. Na West-Eastern
Divan Orchestra temos uma menina cuja família foi dizimada em campos de
concentração ao som das obras de Wagner. Ou seja, existe um problema
real, uma ligação horrível entre a música do compositor
e a morte de milhões de judeus. Mas não acredito em censura. Richard
Wagner traz péssimas lembranças a você? Tudo bem, fique em
casa e não ouça. Mas por que um morador de Tel-Aviv, que não
tem nada a ver com o holocausto, deve ser proibido de ouvir essas composições?
Existe muita hipocrisia em relação ao tabu Wagner. Não podemos
tocar as obras dele em Israel, mas você pode comprar um CD de Wagner em
qualquer loja de discos de Tel-Aviv. Os celulares tocam A Cavalgada das Valquírias
e ninguém reclama. E muita gente anda de Mercedes, que era um dos carros
prediletos de Adolf Hitler. Veja
O senhor também regeu a abertura de Tristão e
Isolda, de Wagner, em alguns concertos da West-Eastern Divan Orchestra. Como
os músicos israelenses se sentem ao executar essa obra? Barenboim
Alguns dos instrumentistas judeus da orquestra me pediram para incluir
Wagner no programa. Eu disse que eles deveriam fazer uma votação
entre os israelenses para ver se todos concordavam em tocar. A maioria votou pela
inclusão de Tristão e Isolda. Os outros podem sair do palco
se não se sentirem confortáveis.
Veja O senhor regeu as principais orquestras do mundo. Existe
algum segredo para lidar com músicos temperamentais? Barenboim
O papel do regente mudou muito. Antigamente, as orquestras precisavam
de maestro para ensiná-las a tocar peças complicadas. Hoje, os músicos
sabem executar qualquer coisa e precisam de alguém que lhes dê uma
outra leitura de obras que estão acostumados a tocar. O segredo é
que sei fazer isso muito bem. Veja
O senhor está deixando o posto de diretor artístico
da Sinfônica de Chicago. Pretende pleitear esse cargo numa outra orquestra?
Barenboim Eu regi a Sinfônica de Chicago, por que me preocuparia
em procurar outra orquestra? Em qual delas encontraria músicos tão
bons quanto os que trabalharam sob a minha direção? Na verdade,
pretendo me dedicar mais à carreira de solista. Também vou dar aulas
de música em Harvard, nos Estados Unidos, e fazer programas especiais para
a BBC. Além da West-Eastern Divan, é claro, que me dá bastante
trabalho. Veja Uma
das razões da sua saída de Chicago foi o fato de não concordar
em atrair mais anunciantes. Poderia explicar melhor essa decisão?
Barenboim As principais orquestras dos Estados Unidos trabalham
como se fossem uma grande corporação. Nesse esquema de trabalho,
o regente tem de angariar mais dinheiro. Isso não está certo. A
função do maestro é fazer música e desenvolver uma
sonoridade única para seu grupo. Mas os diretores de Chicago pediam anunciantes,
achavam que os músicos estavam ganhando muito... Eu faço música
há 55 anos e me dou o direito de não ter mais preocupações
dessa categoria. Veja Um
de seus filhos faz hip hop. Isso lhe agrada? Barenboim David
leva o seu trabalho a sério, e isso me basta, muito embora o tipo de música
que ele faz não me atraia muito. Além disso, tenho outro filho que
trabalha comigo. Ele é primeiro-violino da West-Eastern Divan Orchestra.
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