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Carta ao leitor Passo
no rumo certo Nilton
Fukuda/AE
 | | Lula,
em discurso em Uberlândia: "A crise é extremamente grave" |
Na
semana passada, a claque convocada para a inauguração de um aeroporto
na cidade mineira de Uberlândia ouviu de Lula a seguinte frase: "Quero dizer
que a crise é extremamente grave. Em horas de crise é preciso ter
muita paciência para não tomar decisão precipitada, não
se deixar levar pelo estado emocional, mas, sim, pela razão". Embora o
presidente já tenha se manifestado a respeito da difícil situação
política em diversas ocasiões (não raro para negar a sua
realidade, como se tudo não passasse de uma alucinação coletiva
promovida por prestidigitadores da elite, mas deixemos isso de lado), foi a primeira
vez que ele uniu à palavra "crise" um advérbio de intensidade, "extremamente",
e um adjetivo grandiloqüente, "grave". O encadeamento de tais termos permite
supor que Lula finalmente (no que pode ser considerado um advérbio de alívio)
reconheceu a existência da fissura ética, política e criminosa
que há mais de 100 dias se aprofunda mais e mais, levando o governo de
cambulhada. Nessa hipótese, e não
se quer aqui evocar o doutor Pangloss, aquele personagem de Voltaire para quem
todos vivíamos no melhor dos mundos, é uma ótima notícia
o presidente ter admitido que o horizonte anda carregado. Pelo simples motivo
de que, para sanar um problema, qualquer que seja ele, é preciso antes
de mais nada reconhecer sua existência. Caberia agora a Lula contribuir
para que a resolução da crise seja efetiva, não deixando
margem à impressão olfativa de que tudo terminará em pizza.
O presidente volta e meia afirma que não tem como interferir no andamento
das investigações e das punições. Não é
verdade. Pelo peso de seu cargo, e sem extrapolar suas atribuições
constitucionais, Lula pode, sim, proceder a que corrompidos e corrompedores, no
Legislativo e no Executivo, sintam na carne e na biografia que não sairão
impunes dos crimes de desvio de dinheiro público, formação
de quadrilha e tráfico de influência. Ao empenhar-se com afinco nesse
objetivo, movido pela razão e sem emocionalismos, o presidente prestaria
ao mesmo tempo um grande serviço ao Brasil e a si próprio. |