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A
engenharia do maratonista
Nike
e Fila financiam programas
para criar em laboratório o
supermaratonista americano
Daniel Hessel Teich

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A
cada vez que uma maratona é disputada, os olhos da multidão
voltam-se para o cronômetro instalado junto à faixa de chegada.
O que mais fascina nesse tipo de prova é a possibilidade de um
recorde mundial ser quebrado. Essa é uma tarefa que exige esforço
colossal dos corredores na prova, eles percorrem 42 195 metros,
e cada centésimo de segundo economizado vale muito. O atual recordista
mundial, Khalid Khannouchi, um marroquino naturalizado americano, demorou
três anos para superar a marca anterior, cravada por ele mesmo em
1999. O avanço entre os dois recordes foi de apenas quatro segundos.
Não se chegou em nenhum esporte a uma conclusão definitiva
sobre as condições ideais para produzir um campeão.
Entre os maratonistas, o enigma é mais profundo, pois o arsenal
tecnológico do Primeiro Mundo não parece fazer diferença.
Muitos recordistas vêm de países pobres da África,
sobretudo o Quênia, e começaram a carreira com treinamento
primitivo. No momento, dois projetos milionários tentam criar em
laboratório um supermaratonista. O objetivo de ambos é formar
um atleta americano capaz de obter uma medalha de ouro e um recorde nas
Olimpíadas de Atenas, em 2004.
A base desses dois programas é a teoria de que treinamento em grandes
altitudes produz corredores capazes de apresentar melhor desempenho. O
primeiro é patrocinado pela fábrica italiana de artigos
esportivos Fila e tenta criar nos Estados Unidos um ambiente de treinamento
com características semelhantes às que existem no Quênia.
Esse país da África oriental detém 57 dos 200 melhores
tempos obtidos em maratonas do mundo, enquanto os Estados Unidos têm
apenas três. O segundo é bancado pela Nike, gigante americana
do vestuário esportivo, e tenta criar em laboratório as
condições que produzam um organismo perfeito para disputar
esse esporte de alta resistência. Foi batizado de Projeto Oregon
por estar sediado no Estado americano com esse nome. O fundamento para
os treinamentos de altitude é a constatação de que
o ar rarefeito ensina o organismo a absorver e a processar melhor o oxigênio.
Nessas situações, o corpo produz mais glóbulos vermelhos
e com isso aumenta o transporte de oxigênio para os músculos.
Os técnicos acreditam que, em disputas realizadas no nível
do mar, a dose extra dessas substâncias melhore drasticamente o
rendimento dos atletas. Tal mecanismo metabólico seria uma das
explicações para o sucesso dos quenianos, na maioria nascidos
e criados em regiões altas. Nos Estados Unidos, a Fila patrocina
nove atletas e os treina em um campo localizado na Califórnia,
a 2.400 metros de altitude. Uma vez por ano, eles vão para a cidade
de Eldoret, no Quênia, correr com os atletas africanos patrocinados
pela empresa italiana. Em 2000, a equipe de quenianos mantida pela Fila
venceu 23 maratonas.
A abordagem da Nike é mais radical e abusa da tecnologia num projeto
de vários milhões de dólares. Os seis atletas que
participam do Projeto Oregon ficam confinados em uma casa hermeticamente
fechada. Parte do oxigênio existente no ar dentro do recinto é
retirada por aparelhos, criando uma atmosfera semelhante à de uma
região montanhosa numa casa construída no nível do
mar. Os corredores só deixam o ambiente controlado para treinar.
Computadores avaliam a condição física do atleta
e sugerem o ritmo do treinamento a ser seguido. Outra máquina da
casa é uma plataforma em que o corredor se posiciona como se estivesse
sobre uma esteira de corrida. O equipamento chacoalha de forma imperceptível
e se propõe a aumentar os impulsos nervosos que partem do cérebro
até os membros. Com isso, acredita-se que sejam estimuladas fibras
musculares não exercitadas nos treinamentos comuns.
Alguns resultados já começam a aparecer. Em cinco meses,
um dos corredores do Projeto Oregon, Dan Browne, conseguiu reduzir em
31 segundos seu recorde para provas de 10.000 metros. "A idéia
não é vencer os quenianos, mas nos tornarmos competitivos",
diz Alberto Salazar, idealizador e técnico do Projeto Oregon e
três vezes vencedor da Maratona de Nova York nos anos 80. A vitória
de uma maratona é mais que uma questão de orgulho nacional.
É um grande negócio. A cada prova, um atleta de primeiro
time pode receber 250.000 dólares. Estima-se que uma medalha de
ouro nas Olimpíadas renda 10 milhões de dólares para
o atleta e seus patrocinadores.
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