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risco na selva
Alerta sobre Aids entre os índios trata da
adesão de ianomâmis ao homossexualismo
Leonardo Coutinho
Um estudo que será divulgado pelo Ministério da Saúde
neste mês confirma que os índios ianomâmis do extremo
norte do país praticam cada vez mais um tipo de relacionamento
que parece ter sido inusual antes do contato com o homem branco: o homossexualismo
masculino. Com o trabalho, pretende-se que estudiosos se dediquem com
mais afinco à análise dos hábitos sexuais entre os
índios, um assunto que é tabu para a maioria dos pesquisadores.
É a primeira vez que o homossexualismo entre os ianomâmis
aparecerá num documento oficial, mas especialistas já polemizam
sobre o tema há algum tempo. Há cerca de 400 aldeias ianomâmis,
com 11.500 índios. O homossexualismo foi detectado em pelo menos
dez comunidades. No livro Trevas no Eldorado: como Cientistas e Jornalistas
Devastaram a Amazônia, publicado neste ano, o jornalista americano
Patrick Tierney explica que o hábito foi levado até os índios
principalmente pelo antropólogo francês Jacques Lizot, que
viveu mais de três décadas na região.
Sabe-se que relações homossexuais foram comuns em algumas
comunidades isoladas, como testemunham desenhos rupestres encontrados
na Serra da Capivara, no Piauí, por exemplo. Mas a análise
do caso ianomâmi demonstra que a sodomia tem ares de novidade. Até
a década de 80, os pesquisadores não faziam menção
ao homossexualismo. Mais recentemente, o historiador Victor Leonardi,
da Universidade de Brasília, registrou o surgimento da prática
em suas pesquisas. Liderado pelo sociólogo Ivo Brito, o trabalho
mais recente trata também de outros grupos em que a prática
se disseminou. Em 1974, o sertanista Ezequias Paulo Heringer denunciou
o colega Antônio de Souza Campinas por ter se envolvido sexualmente
com homens das tribos dos panarás, no Mato Grosso. O próprio
Heringer foi assediado pelos índios. O caso foi apurado e Campinas,
afastado das atividades.
O homossexualismo no meio dos índios não tem o mesmo significado
cultural que se conhece no mundo urbano. Não representa, por exemplo,
mudança na orientação sexual do índio. "A
prática pode ter um sentido mágico ou esportivo", explica
Ivo Brito. Para o etnólogo e professor de pós-graduação
Mauro Cherobim, da Universidade Estadual Paulista, esses índios
só seriam considerados gays se a própria comunidade passasse
a entender, como os brancos, que há no meio dela os homens, as
mulheres e os que têm uma orientação sexual diversa
da desses dois grupos. Isso já foi visto em outras tribos. Num
caso descrito pelo pesquisador francês Pierre Clastres, dois índios
guaiaquis, do Paraguai, considerados incompetentes para a caça,
foram trabalhar em atividades femininas, como a coleta de frutos. Um deles
passou a se comportar como mulher, transformando-se em parceiro sexual
de outros índios.
No meio dos navajos, nos Estados Unidos, os colonizadores europeus encontraram
homens que desempenhavam os mesmos papéis das mulheres, vestindo-se
como elas. Para os outros integrantes da comunidade, eles eram mulheres,
não homossexuais. Ninguém se arrisca a opinar sobre como
a situação evoluirá entre os ianomâmis. "Só
eles mesmos poderão dizer, no futuro, que definição
cabe a seu comportamento", conclui a professora de antropologia da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro Maria Luiza Heilborn. Para o Ministério
da Saúde, o importante é que eles pelo menos não
se transformem em novas vítimas da Aids.
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