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Edição 1 763 - 7 de agosto de 2002
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Preocupadas em só vestir quem
está em forma, as marcas badaladas
reduzem o tamanho do P, do M e do G

Bel Moherdaui

Atire o primeiro cabide a mulher que nunca entrou em um provador e se sentiu a última das mortais ao perceber que só cabe em um número duas vezes maior do que o que costumava usar ou, pior, não cabe em nenhum tamanho existente na loja. A calça 42, que sempre caiu tão bem, não fecha. A camiseta M, que antes servia, empaca no meio do caminho. Não se trata de um processo de aumento de peso coletivo – são as roupas que estão encolhendo. Como não existe padrão de tamanho único e completo no país, cada grife cria e usa sua própria tabela, adaptada ao público que deseja atingir. Infelizmente para as cheinhas, esse público cada vez mais se restringe a esguias em ótima forma. "As grifes, para serem modernas, querem atingir um público muito jovem. Por isso, a mulher de 30 anos, que tem mais corpo, enfrenta dificuldade na hora de comprar roupa. Muitas marcas aboliram de vez o tamanho 46, que algum tempo atrás era o início do G", confirma Emerson Otsuka, professor de modelagem da Universidade Anhembi Morumbi.

Esse encolhimento faz parte de uma estratégia para valorizar as grifes, baseada no princípio de que é melhor não vender uma calça de cintura baixa do que vendê-la a alguém que tem dobras na barriga. Segundo esse raciocínio, ter a roupa exposta em quem não a valoriza pega mal para a imagem da marca. O resultado é que os tamanhos maiores vão sumindo e os que ficam são reduzidos. Pegue-se o exemplo da atriz Vera Fischer, que vestia manequim 42 há cinco anos, fez dieta, exercícios e conseguiu emagrecer 5 quilos nesse período. Agora veste o quê? Manequim 42. Priscila Fantin, a Maria da novela Esperança, mais roliça do que o padrão global habitual, encaixa-se vagamente no tamanho 40, mas já se acostumou: a calça comprida que lhe serve na coxa sobra na cintura, e vice-versa. "É raro eu sair da loja carregando a roupa nova. Normalmente, precisa ajustar alguma coisa", suspira.

A única tabela nacional (não obrigatória) de referência para medidas de roupas, composta pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), traz apenas definições de cintura e busto, e pouca gente sabe de sua existência. Dispondo de tamanha liberdade de criação, na rede de lojas populares Riachuelo, por exemplo, a etiqueta 42 pode corresponder a três tamanhos diferentes, dependendo do estilo da coleção (jovem, clássica ou contemporânea). A ABNT e outros órgãos planejam há anos realizar o Censo Antropométrico Brasileiro, para conferir as medidas de pessoas de todas as regiões do país e, a partir daí, elaborar uma tabela-padrão nacional. Mas o projeto se encontra praticamente na estaca zero. Enquanto isso, as confecções estabelecem tamanhos do jeito que lhes encomendam as grifes. A maioria dos estilistas resiste a confessar que só faz roupa para magros – os outros, sim, é que discriminam. "Minha roupa é um pouco mais democrática que a das confecções em geral, porque tenho um público variado", declara o moderninho Marcelo Sommer. Democracia, na sua visão, é vestir mulheres com quadris de 91 a 112 centímetros, o que equivale aos tamanhos 36 a 44 em sua grife.

Uma justificativa comum no meio para a exigüidade dos manequins é a mudança de estilos na moda. Os estilistas alegam que as roupas largas de alguns anos atrás deram lugar a peças mais justas, mais difíceis de ser adaptadas em qualquer corpo. Daí a necessidade de caírem perfeitamente, sem sobras. "Às vezes, a própria estética da peça estabelece o limite: ela só vai vestir bem a pessoa que tiver as proporções adequadas. Quem tiver medidas desproporcionais vai acabar depreciando a roupa e a si mesmo", afirma Renato Kherlakian, dono da Zoomp. E completa: "Determinados modelos e estilos se adaptam melhor a uma gama de expansões limitada". Traduzindo: algumas roupas não caem bem em quem não está em forma, e não tem choro. Se quiser vesti-las, emagreça.

 
Antonio Milena


Você é assim?

A paranaense Elisa Barboza, 25 anos, 1,76 metro, 59 quilos, passa o dia experimentando roupa. Ela é "modelo de prova" de grifes badaladas, o que significa que tem o corpo da média das mulheres que as marcas voltadas para o público jovem querem como clientes. No momento, trabalha para a Sommer: experimenta todas as peças da coleção, para checar se tamanho e caimento estão adequados. Confira suas medidas:

busto: 88 cm
cintura: 65 cm
quadril: 92 cm
coxa: 54 cm



   
 
   
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