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Um falso problema
no ar
Para reagir
nas pesquisas, Serra aparece
com FHC e provoca um debate bizantino:
"colar" ou não sua imagem à do presidente

Alexandre
Oltramari
Marcia Gouthier/Folha Imagem
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| Rita,
Ruth, o presidente e o candidato: só um factóide para produzir manchetes
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Na semana
passada, como acontece há um mês, o candidato José
Serra, do PSDB, continuava a cair nas pesquisas de intenção
de voto. De acordo com os dados do Instituto Vox Populi, liberados para
divulgação no sábado, Serra está com 13% das
intenções, apenas 3 pontos porcentuais à frente de
Anthony Garotinho. Os dois estão tecnicamente empatados. A mesma
pesquisa mostra que Ciro Gomes continua a subir e chegou ao patamar
de 30%. Para tentar reverter o cenário desagradável, os
estrategistas de Serra resolveram criar um acontecimento fotografável
para recolocar Serra nas manchetes. A idéia foi levar o candidato
e sua vice, a deputada Rita Camata, para um almoço no domingo com
o presidente Fernando Henrique e a primeira-dama, dona Ruth, no Alvorada.
Ao final do almoço, os quatro atravessaram os jardins do palácio
para falar com jornalistas e, sobretudo, encontrar fotógrafos e
cinegrafistas. Pronto. Estava feita a imagem que a campanha tucana queria
para chamar a atenção da platéia.
Bastou essa
cena, porém, para que se produzisse uma análise equivocada
e fartamente divulgada de que os tucanos deram uma guinada em sua
estratégia e resolveram antecipar a idéia de "colar" a imagem
de Serra à de Fernando Henrique. É uma interpretação
apressada, que se limita a avaliar apenas o retrato do momento, como um
almoço em palácio, desconsiderando os dados anteriores.
Há dois meses, quando Serra foi escolhido candidato oficial, o
presidente estava a seu lado e festejou sua indicação em
poses típicas de palanque. Em outras ocasiões, com a discrição
que o cargo lhe impõe, manifestou opiniões favoráveis
ao candidato. Mais recentemente, noutra demonstração de
que é o candidato do governo, e não da oposição,
Serra teve um almoço com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, que,
mais tarde, pela primeira vez, declarou publicamente votar no tucano,
num movimento que contou com a participação discreta mas
incisiva de FHC. Ou seja: o presidente tem estado tão próximo
de Serra quanto parece necessário aos comandantes da campanha do
candidato oficial.
Marcia Gouthier/Folha Imagem
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| O
presidente no palácio: declarações contrapõem imagem de Serra e Ciro
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Além disso, não houve antecipação na tática
de associar Serra mais fortemente a FHC. "Só amadores podem achar
que uma estratégia se muda assim de repente e com tanto improviso",
avisa um estrategista da campanha tucana. O comitê mantém
a diretriz de fazer essa associação de maneira mais enfática
a partir de 20 de agosto, quando começa o horário eleitoral
gratuito na televisão e está seguro de que não
é apenas uma foto de fim de semana que fará o serviço.
Fernando Henrique vai participar do programa de estréia e deve
voltar a ele quando for necessário. É com a propaganda eleitoral
que os marqueteiros pretendem captar os votos do eleitorado, cerca de
25%, que aprova o governo Fernando Henrique e não está,
até agora, apoiando maciçamente Serra. Durante o horário
eleitoral gratuito, no qual Serra terá um tempo de exposição
muitíssimo superior ao dos adversários, os marqueteiros
do tucano acham que esses eleitores acabarão naturalmente se inclinando
pela candidatura oficial. "A idéia segue a mesma de antes: ficar
perto de Fernando Henrique para pegar o que ele tem de bom e longe para
evitar o que ele tem de ruim", diz o estrategista.
Nos jardins
do Palácio da Alvorada, o presidente cumpriu o papel que o momento
lhe reservava. Fez elogios ao candidato. "Serra é um homem confiável,
experiente, tem capacidade administrativa demonstrada e conhecimento da
situação internacional", disse. As palavras do presidente
foram escolhidas a dedo e o endereço era o candidato Ciro
Gomes, que ultrapassou Serra nas pesquisas com uma larga vantagem e, na
sondagem divulgada pelo Vox Populi na sexta-feira passada, aparece 17
pontos à sua frente. Ciro subiu 3 pontos em relação
à pesquisa anterior e já está tecnicamente empatado
com Lula. Outro levantamento recente, também do Vox Populi, informa
que uma parte significativa do eleitorado considera Ciro um candidato
"mais confiável" e "mais preparado" que os demais. Foi para desconstruir
essa imagem de Ciro, ou para construí-la em favor de Serra, que
o presidente foi orientado a falar, justamente, de confiabilidade e de
preparo, num momento em que a campanha tucana precisava de maior exposição
pública.
Como política
não é ciência exata, ao equívoco de que a campanha
mudara de estratégia sucedeu-se um debate falso, segundo o qual
o comitê tucano estaria dividido de um lado, os defensores
de "colar" a imagem de Serra à do presidente e, de outro, os adversários
dessa aproximação. Na verdade, há duas fileiras,
sim. Em geral, os políticos defendem a colagem imediata e intensa,
pois julgam que assim Serra seria rapidamente brindado com os votos dos
eleitores que apóiam o governo. Já os marqueteiros e estrategistas,
que estão habituados a se debruçar sobre pesquisas, acham
que Serra deve manter uma distância prudente do presidente. Acontece
que essa divisão interna existe apenas no plano teórico,
e não virou um debate interno, com duas alas antagônicas
em luta para definir um vitorioso. Os integrantes de cada fileira, sempre
que questionados sobre o assunto, dizem o que pensam e tal opinião,
se tomada sem levar em conta o devido contexto, acaba por gerar a falsa
impressão de que existe uma divisão incontornável
sobre o tema.
"Colar ou
não colar é uma discussão bizantina. Ainda que o
Serra não quisesse ter a imagem associada ao Fernando Henrique,
isso não seria possível. O que o Serra não pode ser
é apenas isso. Ao demonstrar personalidade e projetos novos, ele
mostra que não é mera continuação do governo",
diz o sociólogo e especialista em pesquisas Antônio Lavareda,
que integra o time do candidato do governo. "O canal pode ser o mesmo,
mas a novela tem de ser outra", resume outro especialista em pesquisas
eleitorais. A "discussão bizantina" a que se refere Antônio
Lavareda, na verdade, tem origem numa certa dificuldade de lidar com a
ambigüidade da candidatura de Serra. O tucano caminha sobre o fio
da navalha, ora se identificando com o governo, ora dele se distanciando,
mas precisa fazer tais movimentos pendulares sem passar a impressão
de que resultam de um comportamento oportunista, meramente eleitoreiro.
É um desafio para o candidato equilibrar-se nesse cenário
matizado e também um desafio para quem analisa a cena política.
Para quem ignora que está diante de um quadro fluido e mutante,
as conclusões tendem a sair um pouco do foco.
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