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Edição 1 763 - 7 de agosto de 2002
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Um falso problema no ar

Para reagir nas pesquisas, Serra aparece
com FHC e provoca um debate bizantino:
"colar" ou não sua imagem à do presidente

Alexandre Oltramari


Marcia Gouthier/Folha Imagem
Rita, Ruth, o presidente e o candidato: só um factóide para produzir manchetes

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Na semana passada, como acontece há um mês, o candidato José Serra, do PSDB, continuava a cair nas pesquisas de intenção de voto. De acordo com os dados do Instituto Vox Populi, liberados para divulgação no sábado, Serra está com 13% das intenções, apenas 3 pontos porcentuais à frente de Anthony Garotinho. Os dois estão tecnicamente empatados. A mesma pesquisa mostra que Ciro Gomes continua a subir – e chegou ao patamar de 30%. Para tentar reverter o cenário desagradável, os estrategistas de Serra resolveram criar um acontecimento fotografável para recolocar Serra nas manchetes. A idéia foi levar o candidato e sua vice, a deputada Rita Camata, para um almoço no domingo com o presidente Fernando Henrique e a primeira-dama, dona Ruth, no Alvorada. Ao final do almoço, os quatro atravessaram os jardins do palácio para falar com jornalistas e, sobretudo, encontrar fotógrafos e cinegrafistas. Pronto. Estava feita a imagem que a campanha tucana queria para chamar a atenção da platéia.

Bastou essa cena, porém, para que se produzisse uma análise equivocada e fartamente divulgada – de que os tucanos deram uma guinada em sua estratégia e resolveram antecipar a idéia de "colar" a imagem de Serra à de Fernando Henrique. É uma interpretação apressada, que se limita a avaliar apenas o retrato do momento, como um almoço em palácio, desconsiderando os dados anteriores. Há dois meses, quando Serra foi escolhido candidato oficial, o presidente estava a seu lado e festejou sua indicação em poses típicas de palanque. Em outras ocasiões, com a discrição que o cargo lhe impõe, manifestou opiniões favoráveis ao candidato. Mais recentemente, noutra demonstração de que é o candidato do governo, e não da oposição, Serra teve um almoço com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, que, mais tarde, pela primeira vez, declarou publicamente votar no tucano, num movimento que contou com a participação discreta mas incisiva de FHC. Ou seja: o presidente tem estado tão próximo de Serra quanto parece necessário aos comandantes da campanha do candidato oficial.

Marcia Gouthier/Folha Imagem
O presidente no palácio: declarações contrapõem imagem de Serra e Ciro


Além disso, não houve antecipação na tática de associar Serra mais fortemente a FHC. "Só amadores podem achar que uma estratégia se muda assim de repente e com tanto improviso", avisa um estrategista da campanha tucana. O comitê mantém a diretriz de fazer essa associação de maneira mais enfática a partir de 20 de agosto, quando começa o horário eleitoral gratuito na televisão – e está seguro de que não é apenas uma foto de fim de semana que fará o serviço. Fernando Henrique vai participar do programa de estréia e deve voltar a ele quando for necessário. É com a propaganda eleitoral que os marqueteiros pretendem captar os votos do eleitorado, cerca de 25%, que aprova o governo Fernando Henrique e não está, até agora, apoiando maciçamente Serra. Durante o horário eleitoral gratuito, no qual Serra terá um tempo de exposição muitíssimo superior ao dos adversários, os marqueteiros do tucano acham que esses eleitores acabarão naturalmente se inclinando pela candidatura oficial. "A idéia segue a mesma de antes: ficar perto de Fernando Henrique para pegar o que ele tem de bom e longe para evitar o que ele tem de ruim", diz o estrategista.

Nos jardins do Palácio da Alvorada, o presidente cumpriu o papel que o momento lhe reservava. Fez elogios ao candidato. "Serra é um homem confiável, experiente, tem capacidade administrativa demonstrada e conhecimento da situação internacional", disse. As palavras do presidente foram escolhidas a dedo – e o endereço era o candidato Ciro Gomes, que ultrapassou Serra nas pesquisas com uma larga vantagem e, na sondagem divulgada pelo Vox Populi na sexta-feira passada, aparece 17 pontos à sua frente. Ciro subiu 3 pontos em relação à pesquisa anterior e já está tecnicamente empatado com Lula. Outro levantamento recente, também do Vox Populi, informa que uma parte significativa do eleitorado considera Ciro um candidato "mais confiável" e "mais preparado" que os demais. Foi para desconstruir essa imagem de Ciro, ou para construí-la em favor de Serra, que o presidente foi orientado a falar, justamente, de confiabilidade e de preparo, num momento em que a campanha tucana precisava de maior exposição pública.

Como política não é ciência exata, ao equívoco de que a campanha mudara de estratégia sucedeu-se um debate falso, segundo o qual o comitê tucano estaria dividido – de um lado, os defensores de "colar" a imagem de Serra à do presidente e, de outro, os adversários dessa aproximação. Na verdade, há duas fileiras, sim. Em geral, os políticos defendem a colagem imediata e intensa, pois julgam que assim Serra seria rapidamente brindado com os votos dos eleitores que apóiam o governo. Já os marqueteiros e estrategistas, que estão habituados a se debruçar sobre pesquisas, acham que Serra deve manter uma distância prudente do presidente. Acontece que essa divisão interna existe apenas no plano teórico, e não virou um debate interno, com duas alas antagônicas em luta para definir um vitorioso. Os integrantes de cada fileira, sempre que questionados sobre o assunto, dizem o que pensam – e tal opinião, se tomada sem levar em conta o devido contexto, acaba por gerar a falsa impressão de que existe uma divisão incontornável sobre o tema.

"Colar ou não colar é uma discussão bizantina. Ainda que o Serra não quisesse ter a imagem associada ao Fernando Henrique, isso não seria possível. O que o Serra não pode ser é apenas isso. Ao demonstrar personalidade e projetos novos, ele mostra que não é mera continuação do governo", diz o sociólogo e especialista em pesquisas Antônio Lavareda, que integra o time do candidato do governo. "O canal pode ser o mesmo, mas a novela tem de ser outra", resume outro especialista em pesquisas eleitorais. A "discussão bizantina" a que se refere Antônio Lavareda, na verdade, tem origem numa certa dificuldade de lidar com a ambigüidade da candidatura de Serra. O tucano caminha sobre o fio da navalha, ora se identificando com o governo, ora dele se distanciando, mas precisa fazer tais movimentos pendulares sem passar a impressão de que resultam de um comportamento oportunista, meramente eleitoreiro. É um desafio para o candidato equilibrar-se nesse cenário matizado – e também um desafio para quem analisa a cena política. Para quem ignora que está diante de um quadro fluido e mutante, as conclusões tendem a sair um pouco do foco.


 


 
 
   
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