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Edição 1 763 - 7 de agosto de 2002
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Foto Antonio Milena
Ciro, o candidato: as pesquisas só lhe trazem boas notícias, mas seus aliados só trazem dor de cabeça  

Policarpo Junior

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Ciro Gomes está em lua-de-mel com a opinião pública, há mais de um mês vem crescendo nas pesquisas de intenção de voto, o eleitorado lhe atribui as características essenciais para ser presidente da República – mas há duas pedras no meio do caminho. Ciro está enfrentando dificuldades com seus aliados, e não se trata de problema político. É problema ético. Um é Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, que deixou o comando da Força Sindical para candidatar-se a vice ao lado de Ciro. O outro é o deputado José Carlos Martinez, presidente do PTB, que exercia a função de coordenador nacional da campanha presidencial até a semana passada. Os dois são aliados de primeira hora de Ciro. Apostaram em sua candidatura quando ela patinava nos estratos inferiores das pesquisas, sem perspectiva real de sucesso. De lá para cá, Ciro ganhou músculos e suas chances de chegar ao Planalto tornaram-se tão robustas quanto as de Luís Inácio Lula da Silva, do PT. E, exatamente neste bom momento, a dupla Paulinho e Martinez virou alvo de denúncias, numa maré que chegou ao ponto de ebulição na semana passada.


Divulgação
Robson Fernandjes/AE
Martinez, que renunciou ao comando da campanha, e Paulinho: maré de suspeitas

O vice está sendo alvejado por suspeitas que, até agora, se mostraram inconclusivas, extremamente vagas e frágeis, quase beirando a leviandade – mas que já se transformaram em fato político. Em vez de mergulhar na campanha, apresentando propostas e conquistando eleitores, Paulinho tem sido obrigado a dar explicações diárias à imprensa. O desgaste já está levando até aliados a discutir sua substituição na chapa. O caso de Martinez, cuja fortuna, segundo um processo, cresceu de 100 000 reais em 1990 para 30 milhões no ano seguinte, é muito mais cabeludo. Sua renúncia ao comando da campanha de Ciro aconteceu depois da exposição pública de suas obscuras relações financeiras com Paulo Cesar Farias, o PC, célebre tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor. Há três semanas, VEJA publicou uma reportagem mostrando detalhes de uma investigação feita pela Receita Federal. A investigação concluiu que Martinez forjou ter recebido um empréstimo de cerca de 10 milhões de dólares de PC Farias para comprar a TV Corcovado, em 1991 – e também forjou a venda de uma fazenda na Amazônia para simular que havia saldado o empréstimo. A revelação provocou suspeitas de que Martinez, na verdade, era sócio oculto de PC. De lá para cá, começaram as pressões para que o deputado abandonasse a coordenação da campanha. Na segunda-feira da semana passada, Martinez deu novas explicações sobre o tal empréstimo, foi pouquíssimo convincente e, três dias depois, renunciou ao cargo de coordenador. Ficou a impressão de que o rolo do empréstimo é a única ligação de Martinez com PC Farias. A história da relação financeira de ambos é mais profunda e mais constrangedora. O caso ajudou a empurrá-lo para fora da campanha de Ciro, mas a parte rombuda do iceberg ficou escondida abaixo da linha-d'água.


Eduardo Knapp/Folha Imagem
Ciro Gomes, com ACM: sua candidatura cresce nas pesquisas e ganha musculatura

Na semana passada, VEJA teve acesso a um conjunto de documentos – depoimentos, cheques, bilhetes – mostrando que as relações de Martinez com PC Farias, estreitadas no início dos anos 90, foram muito além de um empréstimo fraudado e desaguaram numa rede de negócios nebulosos. O mais contundente é um depoimento tomado por auditores da Receita Federal em abril de 1994. O depoente é Carlos Augusto de Oliveira, produtor artístico que trabalhou como superintendente do grupo de comunicação de Martinez entre fevereiro e outubro de 1992. O depoimento de Guga, como é conhecido no meio televisivo, foi resumido pelos fiscais da Receita e traz afirmações incisivas. Numa delas, diz que PC Farias "era sócio oculto de José Carlos Martinez na rede de televisão OM", conglomerado que, mais tarde, seria rebatizado de CNT. Diz o depoimento que "PC Farias representava o presidente da República na época, Fernando Collor". Em seguida, detalha as cotas de cada um: "O porcentual de participação na rede de televisão de PC era de 70% e o de Martinez era de 30%. Essa participação foi feita através de contrato particular entre as partes".

A afirmação do ex-superintendente do grupo televisivo de Martinez coincide com uma especulação corriqueira que circulava durante o governo Collor segundo a qual Martinez e PC estavam empenhados em construir um império de comunicação destinado a dar sustentação política à turma de Alagoas, que tinha lá seus planos de se eternizar no poder em Brasília. É um despropósito imaginar que um político com tais ligações se mantivesse como coordenador nacional da campanha de Ciro Gomes, se todos os detalhes da história fossem do conhecimento do candidato. Mas também é preciso reconhecer que uma parte do envolvimento de Martinez com PC Farias já era sabida quando o deputado ganhou o cargo. O episódio deixa a impressão de que, para a Frente Trabalhista de Ciro, não importava tanto a biografia de Martinez. Ao que parece, o problema estaria muito mais na divulgação dessa biografia. Há mais: Martinez saiu do comando central da campanha, mas até a última sexta-feira permanecia atrelado ao grupo criado em torno da campanha de Ciro, embora mais distante dos holofotes. De agora em diante, o presidente do PTB, o primeiro partido a se aliar ao PPS de Ciro Gomes, terá suas atividades restritas ao Paraná. Mas, como é presidente de um dos partidos da aliança que apóia Ciro, continua participando do jogo, agora sem a faixa de capitão da equipe.


Claudio Rossi
Cinchetto, que diz ter recebido uma proposta de suborno, e o anúncio cifrado que mandou publicar: uma pândega em que todos se acusam

Foi intensa a negociação para a saída de Martinez. Após três dias de discussões, o deputado paranaense acabou vencido pelas evidências. Ocorre que a ligação de Martinez com PC Farias já começara a aparecer de forma negativa nas pesquisas qualitativas que o instituto Vox Populi vinha fazendo para Ciro. Marcos Coimbra, um dos donos do Vox Populi, informou assessores do candidato de que a dobradinha Martinez-PC dava os primeiros sinais de que poderia prejudicar a campanha do presidenciável. Há duas semanas, a assessoria de Ciro encomendara pesquisas qualitativas para avaliar o peso dessas denúncias. Após reunir grupos de eleitores em capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, o Vox Populi concluiu que a tentativa de vinculação de Ciro à imagem do ex-presidente Fernando Collor, feita pelo tucanato, não estava afetando a credibilidade do candidato. No entanto, a ligação de PC com Martinez, que é desconhecido na maior parte do Brasil, poderia vir a se revelar bombástica. As novas histórias despertavam nos entrevistados as lembranças de que PC coordenava a corrupção no governo Collor.

Por gratidão ao apoio que recebeu de Martinez desde a primeira hora de sua candidatura, Ciro se sentia impedido de exigir o afastamento do presidente do PTB. Quando surgiram as primeiras denúncias, Martinez ensaiou uma tentativa de se afastar, mas sem maior insistência. Como sua presença ainda não havia acendido o sinal vermelho nas pesquisas qualitativas, acabou mantido no comando da campanha. Mas, na segunda-feira da semana passada, o relatório do Vox Populi foi apresentado ao pessoal de Ciro, em São Paulo. No dia seguinte, o grupo do candidato acionou Marcos Coimbra para informar Martinez sobre o resultado dos levantamentos realizados pelo instituto. A reação do deputado não tardou: pediu à equipe de Ciro que lhe preparasse uma saída honrosa. Na noite de quarta-feira, Martinez viajou para São José do Rio Preto, interior de São Paulo, para falar pessoalmente com o candidato. Disse que sairia da campanha porque não queria prejudicá-lo. Dessa vez, Ciro aceitou a retirada. Na tarde do dia seguinte, o deputado passou quatro horas reunido com assessores de Ciro num hotel em São Paulo para definir os termos da carta em que anunciaria sua renúncia. Por trás de tudo, continuava a existir uma história mal contada, cujos detalhes ainda não tinham sido revelados.

O depoimento do ex-superintendente do grupo televisivo de Martinez, Carlos Augusto de Oliveira, não fala apenas de sociedade de Martinez com PC Farias. Traz outras acusações. Em sua conversa com os auditores da Receita Federal, Guga diz que PC e Martinez trabalhavam juntos na intermediação de verba pública. PC, com sua monumental influência sobre órgãos públicos, conseguiria as verbas oficiais. Martinez as intermediaria – embolsando comissão. Guga cita um caso concreto. Aconteceu com o SBT, o grupo do empresário Silvio Santos. Em 1992, Martinez ofereceu ao SBT um contrato de publicidade da então estatal telefônica Telebrás. Em troca, cobrou do grupo televisivo uma comissão de 25% sobre a verba publicitária.


Orlando Brito
Antonio Milena

Em depoimento a fiscais da Receita Federal, um ex-superintendente do grupo de Martinez, Carlos Augusto de Oliveira, afirma que o deputado tinha uma sociedade com PC Farias. Nessa sociedade oculta, Martinez possuía 30% e PC ficava com 70%, na condição de representante do ex-presidente Fernando Collor

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Como indício de que a transação foi realizada, Guga exibiu um bilhete redigido em março de 1992. O bilhete é assinado por Mário Tadani Seo, então responsável pela contabilidade do SBT, e endereçado a Guilherme Stoliar, na época vice-presidente do grupo. No bilhete, Seo comunica que a Telebrás pagara 3,5 milhões de reais, em valores de hoje, e informa que a parcela de 25% corresponderia a 875 000 reais, em valores atuais. É uma forte sugestão de que a verba da Telebrás se desdobrou no pagamento de uma comissão. Comissões pagas em contratos publicitários são uma rotina. Da mesma forma que corretores de imóveis recebem um porcentual pela venda de casas ou apartamentos, há recompensa financeira pela colocação de anúncios no mercado publicitário. O problema aqui, no entanto, é duplo: nem PC Farias tinha mandato para aplicar verbas de órgãos federais, já que nem funcionário público era, nem Martinez trabalhava como agente publicitário do governo.

No mesmo depoimento, o produtor artístico Guga de Oliveira apresentou cópia de um cheque do Banco Panamericano, que pertence até hoje ao grupo empresarial de Silvio Santos. O cheque, de 274.000 reais, em valores atualizados, é dirigido ao conglomerado de comunicação de Martinez, a Televisão OM Brasil, que mais tarde viraria CNT. No depoimento, Guga esclarece que esse cheque do Banco Panamericano saldou uma parte da comissão de 25%. Ele informa, ainda, que, para resolver o problema do registro na contabilidade, Martinez emitia notas fiscais frias como se tivesse prestado "serviços de merchandising" ou "venda de arquivos". Sobre isso, o produtor não exibiu nenhuma prova, mas é certo que sua posição de superintendente na empresa de Martinez lhe permitia ter acesso a esse tipo de informação. Na semana passada, procurado por VEJA, Guga não quis manifestar-se sobre o assunto. "Prefiro não falar sobre isso que, para mim, é caso encerrado", disse ele.

Luizinho Coruja
O produtor artístico Carlos Augusto de Oliveira, o Guga, que trabalhou oito meses como superintendente do grupo de Martinez, prestou um depoimento explosivo à Receita Federal: sociedade e traficâncias com verba pública


As investigações sobre as relações de Martinez com PC Farias começaram no início dos anos 90, logo que estourou o escândalo envolvendo o então presidente Fernando Collor e seu tesoureiro. O primeiro sinal surgiu quando uma investigação revelou que Martinez comprara a TV Corcovado usando cheques emitidos pelo esquema de PC Farias. Na época, os cheques eram assinados por "fantasmas" criados por PC. Tratava-se de correntistas fictícios, que não existiam na vida real, cujos nomes eram usados em cheques que movimentavam grandes somas de dinheiro sem deixar rastro. Quando se descobriu que os fantasmas pagaram uma parte do preço da TV Corcovado, Martinez saiu-se com a história do tal empréstimo que teria recebido de PC Farias. Ele, no entanto, nunca conseguiu provar que o empréstimo realmente existiu, pois não havia contrato nem registro em cartório. Também não conseguiu convencer os fiscais da Receita Federal de que o empréstimo foi saldado. Martinez informou que vendera uma fazenda no município de Silves, no Amazonas, mas os fiscais descobriram que o negócio nunca existiu – e que o imóvel permanecia como propriedade de Martinez.

Juntando todas as pontas – cheques fantasmas, empréstimo fraudado, intermediação de verba pública –, constata-se que Martinez tinha uma relação muito mais intrincada com PC Farias. E há sinais de que havia outras conexões. Na semana passada, VEJA teve acesso a gravações de conversas telefônicas mantidas entre três altos executivos do grupo de Martinez durante um breve período de 1995. Todos trabalhavam no Paraná. Pelo conteúdo dos diálogos, fica-se com a impressão de que Martinez também participou da famosa Operação Uruguai, farsa montada pelo ex-presidente Fernando Collor para justificar a existência de 5 milhões de dólares. Um dos executivos, quando indagado por um colega sobre se poderia dar detalhes da participação de Martinez na operação, demonstra muito receio em falar sobre o caso. "Não, esse não dá", responde ele. "Envolve muita gente, envolve morte. Nego manda matar. Envolve gente de Brasília, é muito pesado." Perguntado sobre se conhece outras irregularidades cometidas por Martinez, além da Operação Uruguai, o executivo afirma: "Tenho muitas coisas. Tem 500.000 coisas". A conversa, em si, não prova nada contra o deputado, mas aumenta a névoa de suspeita que paira em torno dele.


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Martinez tinha duas contas não declaradas à Receita no exterior. Ele admite só uma e que, nela, o saldo era de apenas 3.000 dólares. O cheque mostra que a conta era mais farta que isso

Além do envolvimento com PC Farias, a própria biografia financeira de Martinez traz passagens complicadas. No rastro das investigações promovidas pela Receita Federal, descobriu-se que o deputado tinha duas contas bancárias no exterior, que não apareciam em suas declarações de renda. Uma delas fora aberta no Manufactor Hannover-Banco Bamerindus, em Nova York, e outra no National Bank of Florida, em Miami. No depoimento à Receita Federal, o produtor Carlos Augusto de Oliveira diz que a conta de Nova York era utilizada para realizar transações internacionais da empresa de Martinez. Consultado por VEJA, Martinez confirmou a existência de apenas uma conta no exterior – a de Miami. "Esqueci de declarar porque era coisa pouca. Tinha lá uns 3.000 dólares que eu usava para pagar despesas de cartão de crédito internacional", disse Martinez. Um único cheque localizado pela Receita mostra que a conta de Miami era mais farta do que o deputado admite. Em novembro de 1991, ele emitiu um cheque de 20.000 dólares.


Claudio Versiani
Marcos Issa
Rogério Magri (à esq.), um sindicalista que chegou a ser ministro e caiu sob uma nuvem de suspeitas. Paulinho, o vice, durante suas atividades sindicais: no papel de candidato a vice responde a denúncias

Esse é o homem que durante tanto tempo atuou como coordenador nacional da campanha de Ciro Gomes. Na campanha presidencial de Fernando Collor, Martinez desempenhou função de menor relevo, mas semelhante. Na época, ele pertencia ao partido de Collor, o PRN. Foi no Paraná, como coordenador estadual de Collor, que Martinez começou a construir o sonho de eleger um aliado para o Palácio do Planalto. E foi o próprio Martinez que, sem querer, deu início à destruição de tal sonho. A derrocada de Collor começou quando PC comprou o título A Tribuna de Alagoas para montar um jornal que concorreria com o diário comandado por Pedro Collor, A Gazeta de Alagoas. Irado com a audácia de PC em tornar-se seu concorrente em Maceió, a gota d'água numa seqüência de desentendimentos com Fernando Collor e PC Farias, Pedro desatou as denúncias que acabariam por derrubar o irmão da Presidência. E quem vendeu A Tribuna de Alagoas a PC? Ele mesmo: José Carlos Martinez. Na companhia de um grupo de amigos, o paranaense havia comprado o título do jornal, com o maquinário, em 1986. Em 1991, sem interesse pela exploração do negócio, Martinez vendeu o jornal a PC pelo valor simbólico de 100 cruzeiros, o equivalente a 1 real.

Ao terremoto Martinez vêm juntar-se agora as dificuldades enfrentadas pelo vice, Paulo Pereira da Silva, homem saído do meio sindical, um universo que já produziu Rogério Magri, que chegou a ser ministro do Trabalho no governo Collor, e Luiz Antonio de Medeiros, hoje deputado, antecessor de Paulinho no comando da Força Sindical. Na semana passada, Paulinho foi chamado a prestar depoimento ao Ministério Público Federal, em São Paulo, sob a suspeita de que, durante sua gestão, a Força Sindical teria comprado uma fazenda com sobrepreço de 1 milhão de reais. O vice também foi acusado de ter usado um testa-de-ferro na compra de um sítio, por 65.000 reais, no interior de São Paulo. São suspeitas extremamente aéreas, mas, na semana passada, deixaram de ser as únicas. A ministra Anadyr Rodrigues, da Controladoria-Geral da União, enviou ao sindicalista um documento de trinta páginas pedindo esclarecimentos sobre o destino de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). O dinheiro do FAT, repassado pelo governo a entidades sindicais, deve ser empregado em cursos de qualificação de mão-de-obra. Só no ano passado a Força Sindical recebeu 38 milhões de reais para treinar 250.000 trabalhadores. A suspeita – igualmente vaga – é de que a central sindical tenha qualificado menos gente e embolsado a diferença.

 
Paulo Pinto/AE
José Serra: "Toda vez que Ciro Gomes abre a boca, o dólar sobe e uma fábrica fecha"

Há mais. Na semana passada, um ex-assessor da Força Sindical, Wagner Cinchetto, que coleciona denúncias de irregularidades na central sindical, contou ter recebido uma proposta de suborno do pessoal de Paulinho. Cinchetto afirma que teve dois encontros com Marcos Cará, um ex-assessor sindical de Luiz Antonio de Medeiros, que lhe ofereceu 3 milhões de reais em troca de seu silêncio. Chegou até a publicar isso em anúncios cifrados em jornais. Diz que o ex-assessor se apresentou em nome de Paulinho. "É coisa para 3 milhas", teria falado o ex-assessor. Marcos Cará, por sua vez, alega o contrário. Conta que foi procurado por Cinchetto, que estava interessado em leiloar seu silêncio. Nos dois encontros, Cinchetto teria relatado que estava trabalhando para tucanos e petistas – mas que, caso Paulinho pagasse mais, se disporia a mudar de lado. Cará afirma que, diante disso, resolveu sondar Paulinho sobre o assunto. Consultado por VEJA, Paulinho mandou dizer, por intermédio de sua assessoria, que ouviu a história de Cará, porém se recusou a pagar qualquer suborno. Mas não tomou a precaução de chamar a polícia. Ficou, assim, à mercê do acusador, porque seu único argumento é sua palavra contra a do outro. O caso se assemelha a uma tremenda patuscada, em que todos se acusam de bandidagem com ares de indignação. Só faltava uma história rocambolesca como essa ter acontecido num restaurante popular de esfihas ou numa engordurada pastelaria de São Paulo. Pois foi exatamente isso que ocorreu. Um encontro de Cará e Cinchetto deu-se num restaurante árabe, pertinho da zona do meretrício, no centro de São Paulo. O outro foi numa pastelaria japonesa, cuja decoração inclui paredes espelhadas. E pensar que esses personagens transitaram ou transitam nos círculos freqüentados por um candidato a vice-presidente da República. Só faltava essa.

 

Com reportagem de Felipe Patury,
Sandra Brasil e Alexandre Oltramari

 
 
   
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