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Não
adianta espernear
"É
desagradável ser pobre.
Se some
um relógio da gaveta do criado-mudo,
você logo desconfia da empregada.
Foi mais ou menos o que fez Paul O'Neill
com o Brasil, quando nos acusou de
remeter o dinheiro do FMI para a Suíça"
O Brasil é pobre. E de pobre a gente entende. Pegue o exemplo de
sua empregada doméstica. O máximo a que o Brasil pode aspirar
é ser igual a ela. Ou seja, ganhar a vida modestamente, fazendo
as tarefas que os mais ricos se recusam a fazer: lavar, passar, cozinhar,
costurar. Imagino que sua empregada tenha um quartinho sem janelas dentro
da área de serviço, um chuveiro elétrico que dá
choque e um rádio de pilha sintonizado num programa popular. É
paciente com o cachorro e, ocasionalmente, estraga suas camisas. Dependendo
de sua boa vontade, pode contar com carteira assinada e 13º salário.
Se desaparece um relógio da gaveta do criado-mudo, você logo
desconfia dela. Foi mais ou menos o que fez o secretário do Tesouro
americano Paul O'Neill com o Brasil, quando nos acusou de remeter o dinheiro
do FMI para a Suíça. Ele se baseou no fato de que em todos
os escândalos nacionais sempre surge uma conta bancária no
exterior. Alguns comentaristas indignados recordaram os escândalos
financeiros em que o próprio governo de Paul O'Neill anda metido.
Outros indicaram o gigantesco déficit público americano
para demonstrar a incompetência do secretário do Tesouro.
Dois pontos incontrovertíveis. O problema é que somos nós
que precisamos dele, assim como sua empregada precisa de você para
sustentar o filho no interior de Minas Gerais. Diante da suspeita de que
roubou o relógio, ela pode sentir-se injustiçada e espernear
quanto quiser em seu quartinho sem janelas, mas depois vai ter de voltar
à cozinha para terminar de lavar as panelas.
Um pobre também pode pedir esmolas. É uma atividade digna.
Paul O'Neill é desses motoristas com adesivo do Maluf que fecham
o vidro elétrico na cara do mendigo. O mendigo diz: "É melhor
pedir esmolas ou roubar?". Paul O'Neill acha que o mendigo pede esmolas
de dia e rouba à noite. Porque, como bem sabemos, existem pobres
que roubam. É uma das opções a trabalhar em casas
de família ou pedir esmolas. Como país, o Brasil até
poderia tentar esse caminho fora da lei, confiscando as propriedades dos
estrangeiros. Mas nossa experiência cotidiana ensina que bandido
pobre geralmente acaba preso ou com uma bala na cabeça. Se é
para ser bandido, melhor ser bandido rico, que manda dinheiro do FMI para
a Suíça. Outra saída seria o Brasil se fechar para
o mundo e voltar para o campo, vivendo de agricultura de subsistência,
como nossos miseráveis trabalhadores rurais. Uma escolha honrada,
mas carente de proteínas, e farta de doenças.
A maior esperança de um pobre é que seu filho seja estudioso
e consiga um bom emprego. E que o filho de seu filho seja igualmente estudioso
e consiga vencer na vida, vingando os esforços de seus antepassados.
Essa é a melhor perspectiva para o Brasil: triste, lenta, banal,
ingloriosa, de longo prazo e pouquíssimo segura, porque tem tudo
para dar errado. Basta ver a maioria dos pobres brasileiros, que, geração
após geração, permanecem tão pobres quanto
antes. Mesmo que o Brasil tenha muita sorte e, dentro de um século,
enriqueça, será tarde demais para esbanjar nosso sucesso
na cara de Paul O'Neill, porque ele já estará morto. E nós
também. No meio-tempo, só nos resta lavar suas panelas com
esmero. É desagradável ser pobre. Conformemo-nos.
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