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"Não
existe uma hierarquia do sofrimento e da tragédia. Para a vítima,
seja do Sudão, do Timor ou de Kosovo, o sofrimento é idêntico" |
Aos 54 anos, Sérgio Vieira de Mello chegou ao posto mais alto já alcançado por um brasileiro na Organização das Nações Unidas: será empossado em setembro na função de alto comissário de direitos humanos, um dos cargos mais atuantes e polêmicos da instituição. O desafio não assusta esse carioca que há 33 anos trabalha na ONU. Ele já esteve em missões de paz em lugares perigosos, como a Bósnia e Kosovo, ambos na ex-Iugoslávia, em Moçambique, no Vietnã e em Bangladesh. Sua tarefa mais recente foi administrar a transformação do Timor Leste em país soberano. Vieira de Mello viajou para o exterior pela primeira vez com 25 dias de vida, para morar com o pai, diplomata em Buenos Aires. Aos 18 anos, foi estudar na Universidade de Paris, Sorbonne, onde fez doutorado em filosofia e ciências sociais. Revoltado com a cassação do pai pelo AI-5, em 1969, trocou o projeto de entrar para o Itamaraty pela carreira na ONU. Casado com uma francesa, tem dois filhos. Todos os anos Vieira de Mello volta ao Rio para visitar a mãe e a irmã. Ele conversou com VEJA por telefone de seu escritório em Nova York.
Veja Por que fazer carreira na ONU, e não na diplomacia
brasileira?
Vieira
de Mello
Não poderia entrar para um ministério, o Itamaraty, que
havia recentemente vitimado meu pai, em 1969. O mais parecido era a carreira
internacional na ONU. Meu trabalho nas Nações Unidas é
muito gratificante. Poder estar em áreas de conflitos virou um
bônus. Há uma dimensão de aventura, de desafio, que
me fascina. Logo no começo passei um ano e meio num escritório
da ONU em Genebra e pedi para ser transferido para o então Paquistão
Oriental, hoje Bangladesh. Aquele lugar vivia então uma situação
dramática que, poucos meses depois, se tornou o motivo de uma guerra
entre Paquistão e Índia.
Veja Em sua primeira missão o senhor se via como alguém
com vocação de pacificador?
Vieira
de Mello Eu
tinha 23 anos na época e não podia ter a pretensão
de contribuir tanto assim. O que desejava era entender melhor a dinâmica
de um tipo de conflito, a luta pela independência e pela afirmação
da identidade nacional, que se tornou freqüente nos anos 70, 80 e
90. Por outro lado, queria viver diretamente situações sobre
as quais eu tinha lido muito.
Veja O senhor estudava na Sorbonne quando os estudantes tomaram
as ruas de Paris, em maio de 1968. Qual foi sua participação
nos protestos?
Vieira
de Mello Nossa
geração de estudantes era mais politizada e talvez mais
sonhadora que a de hoje. Tínhamos a convicção e a
ilusão de que podíamos ter influência direta e relevante
sobre o curso da história. Eu estive no Maio de 68 em Paris, e
como... Participei de protestos e passeatas e fui expulso da França
por uma medida administrativa, no mesmo ano. Fui para a Suíça
e só voltei à capital francesa seis meses depois, condicionalmente.
Eu tinha de me apresentar toda semana à polícia de Paris.
Só fui anistiado no ano seguinte. Terminei o curso e fui para Genebra
em novembro de 1969.
Veja O senhor não sente medo de trabalhar em locais
de conflitos armados?
Vieira
de Mello
Não senti medo em Bangladesh porque eu era bastante irresponsável
nessa época. Depois, sim, percebi os riscos. Eu estava em Beirute
quando as tropas israelenses cercaram a cidade, em 1982. Havia combates
ferozes e senti que a coisa estava ficando brava. Na Bósnia, em
1993 e 1994, houve instantes em que eu me perguntei se não havia
chegado ao fim. Digo, ao fim da minha vida. Um vôo em um helicóptero
francês do enclave de Gorazde até Sarajevo, a capital, vai
ficar gravado em minha memória para sempre. Demorou apenas meia
hora, mas levamos muitos tiros e aí eu pensei: "Aqui acaba a saga
da minha vida". Mas foram poucas as ocasiões em que me senti assim.
Mesmo no inverno de 1994, no meio dos bombardeios da artilharia sérvia
a Sarajevo, eu não tive medo.
Veja Quando parece impossível impor bom senso aos
beligerantes, não dá vontade de ir embora?
Vieira
de Mello
Pelo contrário. Você fica solidário com os outros.
Quando saí da Bósnia, em dezembro de 1994, não pretendia
ir embora. Mas meu chefe queria que eu voltasse para trabalhar em Genebra.
Foi doloroso deixar meus colegas e amigos. E aquele povo, que nós
tentávamos proteger, apesar das nossas insuficiências e das
falhas daquelas resoluções do Conselho de Segurança
da ONU. Fiquei envergonhado de voltar para um ambiente tranqüilo,
enquanto tanta coisa dolorosa acontecia na Bósnia.
Veja O senhor passou suas últimas férias no
Vietnã. Foi atrás de aventura?
Vieira
de Mello
Depois do Timor Leste, decidi tirar férias longas pela primeira
vez na vida. Optei por rever países que conhecia profissionalmente,
mas que não visitava fazia muito tempo. Durante seis semanas andei
pelo Vietnã, Laos, Camboja, Mianmar e Tailândia. Fique impressionado
com o progresso e a abertura nesses lugares. Há uma grande quantidade
de edifícios novos em Hanói, capital do Vietnã. São
prédios de quinze andares, o que para os padrões locais
equivale a arranha-céus. Encontrei um número expressivo
de turistas americanos por lá, muito bem recebidos pela população
vietnamita, que não parece guardar rancor pelo que aconteceu durante
a guerra.
Veja Em que lugar o senhor ficou mais chocado com as atrocidades
cometidas?
Vieira
de Mello Não
gosto dessa comparação. Não existe uma hierarquia
do sofrimento ou da tragédia. Para a vítima, seja do Sudão,
do Timor Leste ou de Kosovo, o sofrimento é idêntico. Todas
essas experiências são um trauma também para mim.
Todas são revoltantes.
Veja No Timor Leste, o senhor teve a responsabilidade de
construir um Estado a partir do zero. Criar leis, o Congresso, o Poder
Judiciário e até a estação de televisão.
Qual tarefa foi mais difícil?
Vieira
de Mello
Quando você se defronta com um país devastado, onde tudo,
sem exceção, está por fazer, é difícil
dizer o que é mais difícil. Tudo é prioritário.
A falta de luz, de água, de polícia, de cadeia, de comida,
de Justiça, de serviço público, de transporte, de
Parlamento, tudo é urgente. É enlouquecedor. Não
dava para priorizar nas primeiras semanas umas áreas e deixar outras
de lado. Vamos deixar as escolas de lado? Uma pesquisa encomendada por
Xanana Gusmão, que hoje é o presidente, mostrou que 73%
dos timorenses consideravam a educação prioridade maior
que a criação de empregos. Foi uma experiência única.
Veja Como recebeu sua nomeação ao cargo de
comissário de direitos humanos?
Vieira
de Mello
Foi motivo de orgulho e satisfação, mas também uma
advertência para manter vivo o sentimento de humildade. Para não
me deixar influenciar demais pela importância do cargo, de ponderar
todos os desafios que ele traz. Meus dois últimos antecessores
demonstraram que é possível atuar em muitas áreas.
Podemos oferecer cooperação técnica e dar apoio aos
países em desenvolvimento para que implementem políticas
e leis sobre os direitos humanos. Também há possibilidade
de contribuir na busca de soluções e na implementação
de acordos de paz.
Veja Como ficam a autonomia e a eficácia dos organismos
multilaterais diante do poder de veto e das atitudes unilaterais dos Estados
Unidos? Dá para ter independência de ação?
Vieira
de Mello
Continuo acreditando e zelando pelos princípios, que são
muito importantes para mim, de independência e integridade dos organismos
internacionais. Eles não devem obedecer a nenhuma interferência
ou ao ditado de países-membros, e sim servir à comunidade
das nações. O secretário-geral Kofi Annan tem demonstrado
a independência do cargo e da organização. O que ele
fala, faz, diz ou escreve nem sempre agrada aos cinco membros permanentes
e com direito a veto no Conselho de Segurança da ONU, que são
os Estados Unidos, a Rússia, a França, a Inglaterra e a
China. Mas todos sabem e entendem que uma organização independente
é essencial à viabilidade do sistema moderno de relações
internacionais. Só assim é possível contribuir para
a solução e, quem sabe, até para a prevenção
de crises.
Veja Por ser estrangeiro, o senhor sofreu algum tipo de crítica
por impor conceitos alheios à cultura dos habitantes do Timor Leste?
Vieira
de Mello
Recebi críticas de alguns observadores internacionais. É
de praxe criticar a ONU com o argumento de que nós tentamos impor
modelos, o que é uma asneira. Minha política era trabalhar
com os líderes timorenses e refletir na administração
transitória as aspirações daquela sociedade. Não
se pode chamar isso de modelo neocolonialista.
Veja As mulheres não tinham o menor espaço
na sociedade timorense. Hoje, um terço do Parlamento é feminino.
Como o senhor conseguiu isso?
Vieira
de Mello
Não foi difícil convencer os líderes locais. O presidente
Xanana Gusmão casou-se com uma australiana que é militante
da causa feminina e luta pela igualdade entre os sexos. Para o povo, era
novidade. A mulher timorense era e continua, até certo ponto, sendo
tratada como cidadã de segunda classe. Quando você incentiva,
as mulheres têm qualidades e valor superiores aos do homem. Minha
experiência é que mulheres e crianças são as
primeiras vítimas nos conflitos. Mas também são fatores
de estabilidade, racionalidade e contenção nas crises. Elas
sentem mais o valor da paz social e a importância do desenvolvimento
econômico.
Veja O senhor já declarou que, para seu novo cargo,
ser brasileiro ajuda. Por quê?
Vieira
de Mello
O Brasil é visto acertadamente como país neutro e desinteressado.
A única vez que a nacionalidade não me facilitou a vida
foi em Angola, em 1993. O líder guerrilheiro Jonas Savimbi vetou
meu nome porque ele identificava o Brasil com o governo angolano. Foi
a única ocasião em que minha nacionalidade não foi
bem recebida por uma das partes do conflito. Normalmente ela é
bem-aceita pela maioria dos países.
Veja Dá para resolver as grandes questões de
direitos humanos sem eliminar primeiro a pobreza?
Vieira
de Mello
A possibilidade de exercitar os direitos humanos depende obviamente do
nível de vida econômico e social da pessoa. Um miserável
não usufrui nenhum direito. O direito mais fundamental, que é
viver em condições decentes, lhe é negado. Direitos
políticos, civis, culturais e religiosos são um luxo enquanto
milhões de pessoas vivem em condições infra-humanas.
Veja Muitas ditaduras, como a de Cuba, usam como justificativa
o conceito de que o importante não são os direitos humanos
e a democracia, mas a educação e a alimentação
da maioria. O que o senhor acha disso?
Vieira
de Mello
Essa idéia está superada. O bloco socialista colocava ênfase
em direitos coletivos em detrimento dos individuais. Essa dualidade está
superada. Qualquer pessoa razoável reconhece que falar em direitos
individuais é absurdo enquanto direitos fundamentais e elementares,
como alimentação, educação, saúde,
não forem realizados. Mas, por essenciais e vitais que sejam, não
adianta se esse bem-estar econômico e social não gera liberdade
individual.
Veja Nos países muçulmanos as mulheres ainda
são cidadãs de segunda classe e homossexuais são
enforcados. Como levar o conceito ocidental de direitos humanos a lugares
onde a religião parece negá-los?
Vieira
de Mello
Valores e princípios são universais, mas sua aplicação
e interpretação variam em função da cultura,
da religião, da história. Seria ingênuo acreditar
que certas sociedades vão adaptar-se a moldes que para nós
são os mais adequados. Temos de nos esforçar para entender
o histórico cultural e as razões pelas quais essas sociedades
evoluíram de forma diferente da nossa. Com isso podemos determinar
de que maneira progressos podem ser realizados para emancipar a mulher,
sem desrespeitar o contexto histórico e religioso. Se você
chegar como um dom Quixote armado de boas intenções, não
terá nenhum impacto na realidade.
Veja A globalização servirá para internacionalizar
os conceitos de direitos humanos que, às vezes, parecem só
existir no Ocidente?
Vieira
de Mello
A globalização não leva à universalização
dos valores ou do pensamento ocidental. Aliás, nada prova que nossa
tábua de valores e princípios seja superior à de
outras culturas. Mas a globalização da informação
já não permite que sociedades arcaicas continuem atuando
de maneira cruel sem ser denunciadas. É um papel importante da
rapidez da informação, que pode cercear as situações
mais chocantes.
Veja A imigração sofre cada vez mais restrições
na União Européia. Será difícil respeitar
os direitos desses milhares de imigrantes clandestinos que fogem de situações
miseráveis?
Vieira
de Mello Nosso
sistema de relações internacionais ainda não conseguiu
desenvolver um plano global de gerenciamento dessas migrações.
Como brasileiro, lembro o fenômeno de nossas migrações
internas, em que a mola principal foram a pobreza e a busca de um Eldorado
mítico, às vezes ilusório. A solução
não passa por medidas repressivas, metralhadoras e cães
policiais. O que se precisa é ajuda para o desenvolvimento e melhor
repartição de recursos financeiros, de modo que se possa
resolver o problema na raiz. Não que as medidas restritivas sejam
sempre negativas. Se alguns países da Europa Ocidental ou da América
do Norte não tentassem controlar as migrações, seriam
inundados por um fenômeno migratório.
Veja Seus filhos foram criados na França. Como a família
reagiu diante da final entre o Brasil e a França, na Copa de 98?
Vieira
de Mello
Foi engraçado. Fui assistir à final em Paris e meu filho
caçula me esperava com a cara pintada de verde e amarelo, muito
identificado com o Brasil. O mais velho, que se identifica mais com a
mãe, torcia pela França. São essas químicas
difíceis de explicar, um filho é mais brasileiro, o outro
é mais francês, o que se pode fazer? Talvez tenha sido a
síntese ideal, pois haveria festa em casa de qualquer jeito.
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