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Edição 1 763 - 7 de agosto de 2002
Entrevista: Sérgio Vieira de Mello

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Nosso homem
na ONU

Novo comissário de direitos humanos
da ONU diz que ser brasileiro facilita
sua aceitação no cargo

Raul Juste Lores

 
AP
"Não existe uma hierarquia do sofrimento e da tragédia. Para a vítima, seja do Sudão, do Timor
ou de Kosovo, o sofrimento é idêntico"

Aos 54 anos, Sérgio Vieira de Mello chegou ao posto mais alto já alcançado por um brasileiro na Organização das Nações Unidas: será empossado em setembro na função de alto comissário de direitos humanos, um dos cargos mais atuantes e polêmicos da instituição. O desafio não assusta esse carioca que há 33 anos trabalha na ONU. Ele já esteve em missões de paz em lugares perigosos, como a Bósnia e Kosovo, ambos na ex-Iugoslávia, em Moçambique, no Vietnã e em Bangladesh. Sua tarefa mais recente foi administrar a transformação do Timor Leste em país soberano. Vieira de Mello viajou para o exterior pela primeira vez com 25 dias de vida, para morar com o pai, diplomata em Buenos Aires. Aos 18 anos, foi estudar na Universidade de Paris, Sorbonne, onde fez doutorado em filosofia e ciências sociais. Revoltado com a cassação do pai pelo AI-5, em 1969, trocou o projeto de entrar para o Itamaraty pela carreira na ONU. Casado com uma francesa, tem dois filhos. Todos os anos Vieira de Mello volta ao Rio para visitar a mãe e a irmã. Ele conversou com VEJA por telefone de seu escritório em Nova York.

Veja – Por que fazer carreira na ONU, e não na diplomacia brasileira?
Vieira de Mello – Não poderia entrar para um ministério, o Itamaraty, que havia recentemente vitimado meu pai, em 1969. O mais parecido era a carreira internacional na ONU. Meu trabalho nas Nações Unidas é muito gratificante. Poder estar em áreas de conflitos virou um bônus. Há uma dimensão de aventura, de desafio, que me fascina. Logo no começo passei um ano e meio num escritório da ONU em Genebra e pedi para ser transferido para o então Paquistão Oriental, hoje Bangladesh. Aquele lugar vivia então uma situação dramática que, poucos meses depois, se tornou o motivo de uma guerra entre Paquistão e Índia.

Veja – Em sua primeira missão o senhor se via como alguém com vocação de pacificador?
Vieira de Mello – Eu tinha 23 anos na época e não podia ter a pretensão de contribuir tanto assim. O que desejava era entender melhor a dinâmica de um tipo de conflito, a luta pela independência e pela afirmação da identidade nacional, que se tornou freqüente nos anos 70, 80 e 90. Por outro lado, queria viver diretamente situações sobre as quais eu tinha lido muito.

Veja – O senhor estudava na Sorbonne quando os estudantes tomaram as ruas de Paris, em maio de 1968. Qual foi sua participação nos protestos?
Vieira de Mello – Nossa geração de estudantes era mais politizada e talvez mais sonhadora que a de hoje. Tínhamos a convicção e a ilusão de que podíamos ter influência direta e relevante sobre o curso da história. Eu estive no Maio de 68 em Paris, e como... Participei de protestos e passeatas e fui expulso da França por uma medida administrativa, no mesmo ano. Fui para a Suíça e só voltei à capital francesa seis meses depois, condicionalmente. Eu tinha de me apresentar toda semana à polícia de Paris. Só fui anistiado no ano seguinte. Terminei o curso e fui para Genebra em novembro de 1969.

Veja – O senhor não sente medo de trabalhar em locais de conflitos armados?
Vieira de Mello – Não senti medo em Bangladesh porque eu era bastante irresponsável nessa época. Depois, sim, percebi os riscos. Eu estava em Beirute quando as tropas israelenses cercaram a cidade, em 1982. Havia combates ferozes e senti que a coisa estava ficando brava. Na Bósnia, em 1993 e 1994, houve instantes em que eu me perguntei se não havia chegado ao fim. Digo, ao fim da minha vida. Um vôo em um helicóptero francês do enclave de Gorazde até Sarajevo, a capital, vai ficar gravado em minha memória para sempre. Demorou apenas meia hora, mas levamos muitos tiros e aí eu pensei: "Aqui acaba a saga da minha vida". Mas foram poucas as ocasiões em que me senti assim. Mesmo no inverno de 1994, no meio dos bombardeios da artilharia sérvia a Sarajevo, eu não tive medo.

Veja – Quando parece impossível impor bom senso aos beligerantes, não dá vontade de ir embora?
Vieira de Mello – Pelo contrário. Você fica solidário com os outros. Quando saí da Bósnia, em dezembro de 1994, não pretendia ir embora. Mas meu chefe queria que eu voltasse para trabalhar em Genebra. Foi doloroso deixar meus colegas e amigos. E aquele povo, que nós tentávamos proteger, apesar das nossas insuficiências e das falhas daquelas resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Fiquei envergonhado de voltar para um ambiente tranqüilo, enquanto tanta coisa dolorosa acontecia na Bósnia.

Veja – O senhor passou suas últimas férias no Vietnã. Foi atrás de aventura?
Vieira de Mello – Depois do Timor Leste, decidi tirar férias longas pela primeira vez na vida. Optei por rever países que conhecia profissionalmente, mas que não visitava fazia muito tempo. Durante seis semanas andei pelo Vietnã, Laos, Camboja, Mianmar e Tailândia. Fique impressionado com o progresso e a abertura nesses lugares. Há uma grande quantidade de edifícios novos em Hanói, capital do Vietnã. São prédios de quinze andares, o que para os padrões locais equivale a arranha-céus. Encontrei um número expressivo de turistas americanos por lá, muito bem recebidos pela população vietnamita, que não parece guardar rancor pelo que aconteceu durante a guerra.

Veja – Em que lugar o senhor ficou mais chocado com as atrocidades cometidas?
Vieira de Mello – Não gosto dessa comparação. Não existe uma hierarquia do sofrimento ou da tragédia. Para a vítima, seja do Sudão, do Timor Leste ou de Kosovo, o sofrimento é idêntico. Todas essas experiências são um trauma também para mim. Todas são revoltantes.

Veja – No Timor Leste, o senhor teve a responsabilidade de construir um Estado a partir do zero. Criar leis, o Congresso, o Poder Judiciário e até a estação de televisão. Qual tarefa foi mais difícil?
Vieira de Mello – Quando você se defronta com um país devastado, onde tudo, sem exceção, está por fazer, é difícil dizer o que é mais difícil. Tudo é prioritário. A falta de luz, de água, de polícia, de cadeia, de comida, de Justiça, de serviço público, de transporte, de Parlamento, tudo é urgente. É enlouquecedor. Não dava para priorizar nas primeiras semanas umas áreas e deixar outras de lado. Vamos deixar as escolas de lado? Uma pesquisa encomendada por Xanana Gusmão, que hoje é o presidente, mostrou que 73% dos timorenses consideravam a educação prioridade maior que a criação de empregos. Foi uma experiência única.

Veja – Como recebeu sua nomeação ao cargo de comissário de direitos humanos?
Vieira de Mello – Foi motivo de orgulho e satisfação, mas também uma advertência para manter vivo o sentimento de humildade. Para não me deixar influenciar demais pela importância do cargo, de ponderar todos os desafios que ele traz. Meus dois últimos antecessores demonstraram que é possível atuar em muitas áreas. Podemos oferecer cooperação técnica e dar apoio aos países em desenvolvimento para que implementem políticas e leis sobre os direitos humanos. Também há possibilidade de contribuir na busca de soluções e na implementação de acordos de paz.

Veja – Como ficam a autonomia e a eficácia dos organismos multilaterais diante do poder de veto e das atitudes unilaterais dos Estados Unidos? Dá para ter independência de ação?
Vieira de Mello – Continuo acreditando e zelando pelos princípios, que são muito importantes para mim, de independência e integridade dos organismos internacionais. Eles não devem obedecer a nenhuma interferência ou ao ditado de países-membros, e sim servir à comunidade das nações. O secretário-geral Kofi Annan tem demonstrado a independência do cargo e da organização. O que ele fala, faz, diz ou escreve nem sempre agrada aos cinco membros permanentes e com direito a veto no Conselho de Segurança da ONU, que são os Estados Unidos, a Rússia, a França, a Inglaterra e a China. Mas todos sabem e entendem que uma organização independente é essencial à viabilidade do sistema moderno de relações internacionais. Só assim é possível contribuir para a solução e, quem sabe, até para a prevenção de crises.

Veja – Por ser estrangeiro, o senhor sofreu algum tipo de crítica por impor conceitos alheios à cultura dos habitantes do Timor Leste?
Vieira de Mello – Recebi críticas de alguns observadores internacionais. É de praxe criticar a ONU com o argumento de que nós tentamos impor modelos, o que é uma asneira. Minha política era trabalhar com os líderes timorenses e refletir na administração transitória as aspirações daquela sociedade. Não se pode chamar isso de modelo neocolonialista.

Veja – As mulheres não tinham o menor espaço na sociedade timorense. Hoje, um terço do Parlamento é feminino. Como o senhor conseguiu isso?
Vieira de Mello – Não foi difícil convencer os líderes locais. O presidente Xanana Gusmão casou-se com uma australiana que é militante da causa feminina e luta pela igualdade entre os sexos. Para o povo, era novidade. A mulher timorense era e continua, até certo ponto, sendo tratada como cidadã de segunda classe. Quando você incentiva, as mulheres têm qualidades e valor superiores aos do homem. Minha experiência é que mulheres e crianças são as primeiras vítimas nos conflitos. Mas também são fatores de estabilidade, racionalidade e contenção nas crises. Elas sentem mais o valor da paz social e a importância do desenvolvimento econômico.

Veja – O senhor já declarou que, para seu novo cargo, ser brasileiro ajuda. Por quê?
Vieira de Mello – O Brasil é visto acertadamente como país neutro e desinteressado. A única vez que a nacionalidade não me facilitou a vida foi em Angola, em 1993. O líder guerrilheiro Jonas Savimbi vetou meu nome porque ele identificava o Brasil com o governo angolano. Foi a única ocasião em que minha nacionalidade não foi bem recebida por uma das partes do conflito. Normalmente ela é bem-aceita pela maioria dos países.

Veja – Dá para resolver as grandes questões de direitos humanos sem eliminar primeiro a pobreza?
Vieira de Mello – A possibilidade de exercitar os direitos humanos depende obviamente do nível de vida econômico e social da pessoa. Um miserável não usufrui nenhum direito. O direito mais fundamental, que é viver em condições decentes, lhe é negado. Direitos políticos, civis, culturais e religiosos são um luxo enquanto milhões de pessoas vivem em condições infra-humanas.

Veja – Muitas ditaduras, como a de Cuba, usam como justificativa o conceito de que o importante não são os direitos humanos e a democracia, mas a educação e a alimentação da maioria. O que o senhor acha disso?
Vieira de Mello – Essa idéia está superada. O bloco socialista colocava ênfase em direitos coletivos em detrimento dos individuais. Essa dualidade está superada. Qualquer pessoa razoável reconhece que falar em direitos individuais é absurdo enquanto direitos fundamentais e elementares, como alimentação, educação, saúde, não forem realizados. Mas, por essenciais e vitais que sejam, não adianta se esse bem-estar econômico e social não gera liberdade individual.

Veja – Nos países muçulmanos as mulheres ainda são cidadãs de segunda classe e homossexuais são enforcados. Como levar o conceito ocidental de direitos humanos a lugares onde a religião parece negá-los?
Vieira de Mello – Valores e princípios são universais, mas sua aplicação e interpretação variam em função da cultura, da religião, da história. Seria ingênuo acreditar que certas sociedades vão adaptar-se a moldes que para nós são os mais adequados. Temos de nos esforçar para entender o histórico cultural e as razões pelas quais essas sociedades evoluíram de forma diferente da nossa. Com isso podemos determinar de que maneira progressos podem ser realizados para emancipar a mulher, sem desrespeitar o contexto histórico e religioso. Se você chegar como um dom Quixote armado de boas intenções, não terá nenhum impacto na realidade.

Veja – A globalização servirá para internacionalizar os conceitos de direitos humanos que, às vezes, parecem só existir no Ocidente?
Vieira de Mello – A globalização não leva à universalização dos valores ou do pensamento ocidental. Aliás, nada prova que nossa tábua de valores e princípios seja superior à de outras culturas. Mas a globalização da informação já não permite que sociedades arcaicas continuem atuando de maneira cruel sem ser denunciadas. É um papel importante da rapidez da informação, que pode cercear as situações mais chocantes.

Veja – A imigração sofre cada vez mais restrições na União Européia. Será difícil respeitar os direitos desses milhares de imigrantes clandestinos que fogem de situações miseráveis?
Vieira de Mello – Nosso sistema de relações internacionais ainda não conseguiu desenvolver um plano global de gerenciamento dessas migrações. Como brasileiro, lembro o fenômeno de nossas migrações internas, em que a mola principal foram a pobreza e a busca de um Eldorado mítico, às vezes ilusório. A solução não passa por medidas repressivas, metralhadoras e cães policiais. O que se precisa é ajuda para o desenvolvimento e melhor repartição de recursos financeiros, de modo que se possa resolver o problema na raiz. Não que as medidas restritivas sejam sempre negativas. Se alguns países da Europa Ocidental ou da América do Norte não tentassem controlar as migrações, seriam inundados por um fenômeno migratório.

Veja – Seus filhos foram criados na França. Como a família reagiu diante da final entre o Brasil e a França, na Copa de 98?
Vieira de Mello – Foi engraçado. Fui assistir à final em Paris e meu filho caçula me esperava com a cara pintada de verde e amarelo, muito identificado com o Brasil. O mais velho, que se identifica mais com a mãe, torcia pela França. São essas químicas difíceis de explicar, um filho é mais brasileiro, o outro é mais francês, o que se pode fazer? Talvez tenha sido a síntese ideal, pois haveria festa em casa de qualquer jeito.

 
 
   
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