Planeta S.A.

Na virada do século, as corporações
se juntam, rompem fronteiras
e revolucionam a economia

Antenor Nascimento e João Sorima Neto

 

 

 

 

Calcula-se que um grupo de 100 grandes empresas transnacionais seja responsável hoje em dia pela metade do comércio mundial, pouco mais ou pouco menos. Apenas as dez maiores corporações industriais, com seu faturamento anual superior a 1 trilhão de dólares, batem com folga o PIB do Brasil, que ocupa o nono lugar entre as economias mais industrializadas do mundo. Quando se fala nos bancos globais, os números são igualmente estonteantes. Tome-se o grupo financeiro inglês HSBC, que em 1997 engoliu o brasileiro Bamerindus e acaba de comprar o banco Republic, americano, de Edmond Safra. Seus ativos (soma de títulos, empréstimos e propriedades) estão orçados em meio trilhão de dólares. Seus 130.000 funcionários se espalham por 79 países. Essas gigacorporações estraçalham as fronteiras nacionais, limitam o poder de decisão dos países e, de uns dois anos para cá, perturbam o pensamento ortodoxo dos economistas. Eles escrevem um livro atrás do outro tentando antever o que será o capitalismo do século XXI.


Respostas claras não há, pois a economia é uma disciplina eficiente para interpretar o passado, mas pouco adequada para investigar o futuro. O que existem são pistas. Elas dizem que as próximas décadas serão diferentes de tudo o que se conhecia até agora. A primeira pista: essas empresas globais, que já assustam com seu tamanho atual, tendem a se tornar ainda maiores, comprando empresas concorrentes ou se fundindo com elas. O espetáculo é visível e deve intensificar-se nos próximos anos. Quem imaginaria, no começo da década, que a orgulhosa alemã Daimler-Benz aceitasse juntar-se à americana Chrysler? Já estão juntas. A lógica da união: a Daimler ganha acesso ao mercado americano, usando as revendedoras da Chrysler, e esta entra com comodidade no mercado europeu. Não é impossível que apareça por aí um novo produto, um Chrysler-Benz.

No ano passado, as fusões e aquisições movimentaram 2,4 trilhões de dólares em todo o mundo. Só nos Estados Unidos, calcula-se que tenha sido gasto nesses negócios 1 trilhão de dólares. As empresas se casam por algumas razões. Uma delas é conseguir porte e dinheiro para conquistar novos mercados. Este é o momento. Embora haja um surto recente de protecionismo, fruto das crises asiática, russa e brasileira, as barreiras alfandegárias tendem a cair ainda mais, e o comércio a crescer. O rio comercial entre os países saltou de 3,5 trilhões de dólares para 8,4 trilhões nos últimos anos. Ninguém quer ficar sem beber dessa correnteza.

Outro motivo dos casamentos é brigar em escala mundial com concorrentes poderosíssimos. Encaixa-se aí a fusão de Antarctica e Brahma. São cervejarias grandes no Brasil, mas só isso. Juntas, viraram a terceira maior máquina cervejeira do mundo, terão 1 bilhão de reais no caixa todo ano e podem pensar nos consumidores argentinos, peruanos, uruguaios e até mexicanos. Para que deixar essa clientela nas mãos da Budweiser ou da Heineken? Essa é a lógica da nova economia, a que marcará o próximo século. Luta-se pelo consumidor em todo o mundo, buscam-se trabalho e matéria-prima onde forem mais baratos, e a ferramenta para o sucesso é o gigantismo. Aquele que for pequeno fica fora da valsa. "Contenta-se com a sobra dos grandes. Ou então quebra", diz Octávio Castello Branco, diretor de investimento do banco J.P. Morgan.

Esse mundo marcado por corporações que são economicamente mais fortes do que países, a quem cabe a decisão de dar emprego ou tirá-lo, tem angustiado as pessoas, os governos, os empresários. A mudança econômica dos anos 90 foi rápida demais, drástica a ponto de causar tontura. Com as informações correndo pela internet, as bolsas de valores conectadas e interagindo, e as moedas tão trançadas quanto uma cesta de vime, preocupações desconhecidas há dez anos passaram a fazer parte do cotidiano. Se a China ameaça desvalorizar o seu yuan, o Japão treme e o empresário brasileiro que concorre com um produtor chinês entra em pânico. Pouquíssimos sabiam o que era o yuan alguns anos antes. Se o presidente do banco central americano, Alan Greenspan, diz que a economia dos EUA está exuberante demais e ameaça aumentar os juros, a Bolsa de Valores de São Paulo esvazia. É uma grande e, de certa maneira, aterradora novidade. O fator Greenspan passou a pairar sobre o mundo. Não é exagero. Analistas de mercado já desenvolveram programas de computador para examinar o conteúdo e a quantidade de palavras que Greenspan prolata. Acham que podem ganhar algum dinheiro se adivinharem as intenções do faraó.

Em relação a essas empresas que se juntam e se tornam impérios, o espanto pode ser ainda maior. Afinal, num passado muito recente, os oligopólios (grupos de poucos produtores) ou os monopólios eram tidos como um defeito econômico, que impunha preços altos e produtos ruins para os consumidores. Os governos dificultavam sua atuação ou proibiam sua existência. Agora não só permitem as fusões, mas as vêem com bons olhos. É de perguntar o que mudou, e por que mudou tão rapidamente. A mudança foi a seguinte. No passado, com países fechados às exportações, o oligopólio trabalhava sem concorrência. Podia, portanto, fazer gato-sapato do consumidor. Agora não dá mais. No comércio global, o abuso é quase imediatamente estancado por um produto de outra megaempresa que aparece na prateleira do supermercado.

A mutação econômica dos últimos anos transformou também a função e os efeitos das grandes empresas. "A estrutura da concorrência mudou", observa José Paschoal Rossetti, professor e pesquisador da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais, um especialista em fusões e aquisições de empresas. O que se tem observado é o seguinte: poucas corporações de tamanho gigante competem no mercado mundial com ferocidade maior que a de uma centena de pequenas empresas. Quando duas gigantes se juntam, reduzem custos e aumentam a capacidade de investir em melhorias tecnológicas. A médio prazo, a tendência é benéfica para o consumidor, pois os preços caem e a qualidade melhora. Bem, o perigo de que os preços subam em um ou outro setor sempre existe. "Mas até agora isso não foi observado", afirma André Castelini, vice-presidente da Bain & Company, consultoria especializada em estratégia empresarial.

O século XXI começa sob o regime de uma revolução econômica que talvez só seja comparável à revolução industrial do final do século XVIII. "Nos últimos 100 anos não vimos nada igual", diz Eduardo Giannetti da Fonseca, professor de história do pensamento econômico da Universidade de São Paulo. A alternância conhecida e mensurada de recessão e crescimento econômico parece que já não funciona. Os Estados Unidos crescem sem inflação, e sem parar, há sete anos. Há a novidade dos blocos econômicos, impensáveis no começo do século, quando se guerreava por colônias perdidas no oceano. Fala-se em moedas regionais e uma, o euro, já funciona. O aço carregado no navio tem menos valor do que a informação que trafega pela fibra óptica. Os escritórios e laboratórios produzem mais riqueza que a indústria. Há problemas também, e o principal é o desemprego causado pelas inovações tecnológicas. Mas, fazendo-se as ponderações, e com otimismo, pode-se esperar algo melhor.

 

A onda que vem por aí

O Brasil tem a quinta maior população e a nona economia do mundo. Apesar disso, não possui nenhuma multinacional de grande porte. A Suécia, cujo produto interno bruto equivale a um terço do brasileiro, tem oito. Esse quadro pode estar mudando. Tudo indica que a fusão entre Brahma e Antarctica é apenas a primeira de uma longa fila. Como as duas cervejarias, outras grandes empresas vêm pensando seriamente em juntar-se para diminuir custos de produção e aproveitar outras vantagens, como o uso de uma mesma rede de distribuição e de atendimento aos clientes. Só assim conseguiriam baixar preços, uma condição básica para ganhar competitividade e disputar clientes no exterior. "Daqui a pouco tempo, esse será um dos assuntos mais discutidos dentro das empresas", prevê o vice-presidente da consultoria A. T. Kearney no Brasil, Yves Moyen. "Hoje, até as companhias mais conservadoras começam a pensar seriamente em algum tipo de associação."

Em vários setores existem companhias brasileiras que precisam apenas de um pequeno empurrão para ganhar dimensões globais. O Brasil tem várias siderúrgicas capazes de produzir com grandes volumes e a preço baixo, mas nenhuma gigante. Uma associação entre a CSN e a Usiminas, por exemplo, poderia ser suficiente para projetar o aço brasileiro. "Aumentar a escala das siderúrgicas nacionais é interessante, porque assim poderiam praticar preços menores e vender mais no mercado internacional", diz o economista Maurício Mesquita, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES. Também não seria de estranhar uma união entre Bradesco e Itaú, os dois maiores bancos privados do país. Ao que se sabe, não existe nenhuma conversa nesse sentido entre os diretores das companhias, mas o bancão resultante da fusão teria tamanho suficiente para comprar instituições em outros países da América Latina. O mesmo aconteceria se um dos dois comprasse o Banespa, cuja privatização deve acontecer ainda neste ano.

No setor de eletrodomésticos, há várias empresas que estão sofrendo com a diminuição das vendas nos últimos dois anos e com a concorrência dos estrangeiros. Juntar as forças pode ser a melhor alternativa para a sobrevivência de organizações nacionais como a Gradiente e a Sharp. Entre as companhias aéreas, não faltam especulações sobre possíveis acordos. Na maior parte delas surgem os nomes de TAM e Vasp, que poderiam associar-se entre si ou com outras empresas. No caso da Vasp, pendências judiciais podem atrapalhar um acerto. A mais recente é com o governo de São Paulo. O Estado quer anular na Justiça decisões de uma assembléia da empresa. Numa manobra esperta, e escandalosa, do empresário Wagner Canhedo (acionista majoritário da Vasp), a assembléia na prática diminuiu de 40% para 4,6% a participação do Estado na companhia.

Nos últimos anos, quem tomou a iniciativa de comprar empresas brasileiras foram as companhias estrangeiras. Um estudo da consultoria KPMG revela que, das 1438 fusões e aquisições registradas no Brasil entre 1994 e 1998, 56% tiveram a participação de companhias de outros países. Na maior parte, eram empresas que sofriam com o atraso tecnológico e viram-se diante de concorrentes poderosos quando o Brasil se abriu às importações. No segmento de autopeças, esse fenômeno é impressionante. Só no ano passado, quinze fabricantes de peças de automóvel foram comprados por estrangeiros.

 

 




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