Na guerra global

Brahma e Antarctica põem fim
a uma disputa histórica, anunciam
uma megafusão e se armam
para a disputa mundial

Lauro Jardim

 

 
 

 

Nasceu na semana passada um grupo privado dos mais poderosos que o Brasil conheceu em sua História. A partir de agora, de cada dez latas ou garrafas de cerveja vendidas nos bares e supermercados, sete terão sido produzidas pela recém-criada AmBev, a empresa que é resultado da fusão de Brahma e Antarctica. Em outros tempos, com as fronteiras do país fechadas, a notícia do surgimento de um conglomerado monstruoso desses seria assustadora para o consumidor brasileiro. Uma empresa tão grande, que concentra quase três quartos do mercado, poderia fazer um estrago e tanto. Poderia tabelar preços, esmagar a concorrência, controlar os pontos-de-venda e submetê-los a contratos leoninos e piorar a qualidade dos produtos que fabrica. Tudo isso sem muito risco. Por que não agora?


Numa economia global, a fusão das cervejarias Brahma e Antarctica aparentemente não oferece esses perigos. De acordo com os especialistas, tudo conspira para que aconteça justamente o contrário. Fortalecida pelos números que a operação envolve, a AmBev estará em condições de baixar seus custos operacionais, o que pode ser ótimo para quem compra cerveja. Além disso, fica em condições de brigar de igual para igual no mercado internacional. "Se as companhias brasileiras não ganharem robustez acabarão sendo compradas pelas concorrentes estrangeiras", afirma Marcel Telles, de 49 anos, presidente do conselho de administração da AmBev, mesmo cargo que ocupava na antiga Brahma. Ao unir forças, as duas empresas abandonaram uma briga de mais de um século. A AmBev nasce como a terceira maior indústria cervejeira do mundo. À sua frente, figuram a americana Anheuser-Busch, fabricante da Budweiser, e a holandesa Heineken. Incluindo a linha de refrigerantes, a nova companhia passa a ser a quinta maior indústria de bebidas do planeta. Para onde quer que se olhe, a AmBev apresenta números grandiosos. É uma daquelas empresas em que a unidade de conta pode ser quase sempre o bilhão. Seu faturamento anual de 10,3 bilhões de reais a transforma na maior empresa privada brasileira. No mundo privado, é também a que mais paga impostos, 4,2 bilhões de reais por ano.

Claudio Rossi

Telles, da ex-Brahma, e De Marchi, da ex-Antarctica: megafusão nasce em almoço de mandachuvas marcado para "chorar mágoas"


Diante da fusão, as duas maiores concorrentes do setor tiveram reações distintas. A Schincariol anunciou que não teme a nova organização e que está pronta para enfrentá-la. Já a Kaiser se manifestou por meio de uma nota oficial, repudiando a possibilidade de restrição de concorrência. "A anunciada fusão entre Brahma e Antarctica, se concretizada, concentrará em uma única empresa mais de 70% do setor, fato inaceitável em qualquer economia do mundo moderno." O curioso é que um dos donos da Kaiser é a Coca-Cola, que detém metade do mercado brasileiro de refrigerantes. Todo mundo sabe que o consumidor ganha sempre que tem alternativa na hora de comprar um produto. Os fornecedores brigam, fazem promoções, dão desconto, tudo para agradar à clientela. Num ambiente sem concorrência, acontece o contrário. Com um único grande fornecedor, a clientela é que vai atrás dele. Era o que acontecia com a Telebrás. No caso das cervejarias, pode ficar a impressão de que a fusão massacra a concorrência, mas as grandes guerras são travadas em escala mundial. Sendo assim, da mesma maneira que a AmBev vai tentar vender cerveja no Estado do Alabama, nos Estados Unidos, a holandesa Heineken vai querer o mercado do interior de São Paulo. A concorrência não pode mais ser observada em escala municipal ou interestadual, mas sob a ótica intercontinental.

Fernando Vivas
Ana Paula Piva

Carnaval de Salvador e camarote no Sambódromo, com Fernanda Rodrigues e Tiazinha: guerra de marcas e pico no consumo de cerveja

"O setor de cerveja é muito concentrado em todo o mundo. É um mercado formado por grandes companhias, que geralmente dominam 70% das vendas, com pequenas empresas orbitando em volta delas", diz o economista Sérgio Augusto da Costa, chefe do centro de estudos de empresas da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. "Nesse sentido, a ação da Antarctica e da Brahma de se fundirem foi mais do que acertada." Com a transação, as demais cervejarias podem até sair ganhando. Se uma grande empresa estrangeira quiser brigar com a AmBev em território nacional, poderá buscar associação com uma marca existente. Há vários estudos mostrando que o mercado doméstico é dos mais apetitosos do mundo. Em primeiro lugar, o país é o quarto maior mercado mundial em produção de cerveja e o terceiro maior de refrigerantes. O consumo per capita, no entanto, é pequeno. Atualmente é de 50 litros anuais de cerveja, cerca de 35% abaixo da média dos países europeus, por exemplo. Aqui, há picos de vendas em épocas como o Carnaval, quando o país todo parece beber cerveja, e no verão.

O negócio marca a entrada do Brasil na era das superfusões de empresas, a característica mais significativa do capitalismo mundial (veja reportagem). Há uma espécie de relógio correndo, que acelera inevitavelmente as fusões. O relógio atende pelo nome de Alca, o bloco comercial que em 2005 integrará as economias das Américas. Cairão as barreiras tarifárias entre os países e em vários setores, como o de bebidas, quem não produzir como gente grande corre o risco de ser varrido do mapa. Ou ter de se contentar com uma fatia modesta de mercado. O futuro vem acompanhado de uma competição darwiniana. Só os maiores, mais fortes e mais eficientes sobrevivem.

A empresa está de olho grande no mercado externo, a começar pelo nome, que se adapta a todos os gostos. Na América Latina inteira, exceto no Brasil, naturalmente, ela virou Compañia de Bebidas de las Américas. Nos Estados Unidos, já se está registrando como American Beverage Company de onde, aliás, foi tirada a sigla AmBev. A atenção mais imediata da nova companhia está voltada para a América do Sul. Pretende ser agressiva na conquista de espaços na região, erguendo fábricas a partir do zero, comprando empresas menores ou associando-se a produtores locais. O ponto de partida não é desprezível. A Brahma é dona de 12% dos mercados da Argentina e da Venezuela, onde tem fábricas próprias. Tendo a Antarctica a seu lado, ganha musculatura para aplicar mais golpes nos líderes locais. A argentina Quilmes e a venezuelana Polar, por exemplo, são donas de 80% das vendas de cada um desses países. Isso sem falar nos refrigerantes outra expressiva área de atuação da AmBev. "Agora podemos entrar em todos os mercados, de toda a América do Sul", diz Victorio de Marchi, de 60 anos, que dividirá com Telles a presidência do conselho de administração da AmBev. Até quarta-feira, De Marchi era o mandachuva da Antarctica.

Foram exatamente Telles e De Marchi que deram os passos iniciais do meganegócio, num almoço realizado em meados de maio num restaurante em São Paulo. Os executivos, embora de empresas concorrentes, cultivavam havia algum tempo o hábito de conversar. "Para chorar as mágoas", segundo Telles. Logo no início do almoço, Telles expôs suas dificuldades para expandir as operações da Brahma. Contou a De Marchi que tentara fincar o pé na Colômbia, comprando uma fábrica local. Mas o negócio havia gorado na fase final. De Marchi fez reclamações semelhantes. Chegaram à óbvia conclusão de que era preciso ocupar esses novos espaços. Com os pratos de sobremesa diante de ambos, Telles formulou uma proposta tão ousada quanto direta. "Por que não juntar as duas empresas?", perguntou. De Marchi não refutou a idéia. Pelo contrário, sinalizou que a Antarctica podia topar.

A proposta foi levada ao conselho de administração da Antarctica. O sinal verde foi dado. Os acionistas da Brahma também deram o "sim" necessário para o andamento das conversas. Formou-se um grupo de trabalho que incluía, além de Telles e De Marchi, mais dois executivos de cada uma das companhias. A primeira reunião do grupo foi realizada no final de maio. Os encontros aconteciam numa das salas do escritório da GP, empresa de propriedade dos controladores da Brahma, em São Paulo. Nas duas primeiras semanas, essa pequena equipe traçou as bases do negócio. Aos poucos, o grupo dos seis foi sendo ampliado. Na última semana, já eram trinta ou quarenta pessoas.

Para evitar que a movimentação de toda essa gente deixasse pistas, foram tomadas algumas precauções. Os integrantes do grupo receberam crachás especiais, identificados apenas por números. Isso lhes permitia movimentar-se à vontade pelo prédio, sem ter de revelar seus nomes ou o das empresas para as quais trabalhavam. Combinou-se também que os crachás seriam mantidos sempre à mostra, para evitar que algum estranho fosse confundido com um membro da equipe. Num país coalhado por grampos e indiscrições de todo o tipo, guardar um segredo desses por longo tempo foi um feito e tanto. É um caso raríssimo de negócio que tenha sido selado sem vazamento algum. Na tarde de quarta-feira, no entanto, os comandantes de Brahma e Antarctica temeram que o sigilo estivesse em xeque. Perceberam que as ações da Antarctica, estáveis há muito tempo, na bolsa de valores deram um salto de 8,1% naquele dia. Resolveram, então, agir rápido. Anteciparam em uma semana o anúncio da megafusão.

Desde o ano passado, a Brahma estava se preparando para uma tacada de peso. No início deste ano, a Antarctica passou a freqüentar os cenários dos executivos que produzem as estratégias de crescimento da empresa. A Brahma possuía um estudo indicando que a Antarctica poderia perder até 8% de seu mercado neste ano. Quase um terço do que detinha na ocasião. O alto comando da Brahma percebeu que deveria antecipar-se a uma possível tentativa de compra da Antarctica por parte de gigantes estrangeiros. Apesar do gigantismo que ainda ostentava, a Antarctica era uma companhia que empregava métodos ultrapassados de administração e sua rentabilidade era baixa. Nesta década, o crescimento de sua produção não acompanhou nem de longe os 10% que o mercado cresceu em média a cada ano. Para se ter uma idéia da estrutura confusa da empresa, entre 1985 e 1998 vigorou um sistema de poder absolutamente atípico: os conselheiros da empresa faziam um revezamento semanal na presidência. Ou seja, num lugar onde todos mandam, ninguém manda. Essa bagunça acabou no ano passado, quando De Marchi assumiu o leme.

Na tarde de sexta-feira passada, começou a segunda parte do processo de fusão. Uma fase tão delicada quanto a do acerto entre as partes: a AmBev entregou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, Cade, os documentos relativos à união dos ex-concorrentes. Ao Cade cabe aprovar fusões de empresas que resultem em participações superiores a 20% do mercado. A AmBev controla 73% das vendas de cerveja no país. Isso quer dizer que a empresa veio ao mundo na quinta-feira, mas sua existência jurídica ainda depende de autorização do governo. Ruy Coutinho, secretário de Direito Econômico, a quem o Cade está subordinado, já deu sinais de que o negócio entre Brahma e Antarctica deve ser aprovado. "A legislação não impede a posição dominante no mercado", analisa Coutinho. "E sim os abusos que possam surgir em função dessa situação."

A estratégia para obter o apoio do governo e a aprovação do Cade incluiu uma passagem pelos gabinetes do presidente Fernando Henrique Cardoso e de Ruy Coutinho. Na tarde de quarta-feira passada, foi feito o pedido para que o presidente abrisse espaço em sua agenda, no dia seguinte pela manhã, para receber os empresários. Deu mais do que certo. Eles teriam dez minutos para a conversa, mas o encontro prolongou-se por 45 minutos. "O Brasil precisa internacionalizar-se para não ser internacionalizado", disse o presidente a Telles e De Marchi. A visita seguinte, ao secretário de Direito Econômico, foi mais formal. Ele simplesmente recebeu a comitiva e ouviu uma rápida exposição sobre a idéia da fusão.

A expectativa da AmBev é de que o processo de análise no Cade demore quatro meses. Mais rápido do que experiências anteriores que as empresas tiveram no mesmo terreno. A associação da Brahma com a Miller Brewing Company, na época a terceira maior cervejaria do mundo, ficou em análise naquele órgão de 1995 a maio de 1998. A da Antarctica com a Anheuser-Busch, dona da marca Budweiser e primeira do ranking das cervejarias mundiais, demorou dois anos. Com a megafusão, o acordo da Antarctica com a Anheuser-Busch foi desfeito. A associação Brahma-Miller está em discussão. É possível que o Cade exija alguns ajustes na montagem do novo negócio. Algo semelhante ao que ocorreu quando a Colgate comprou a marca Kolynos, uma aquisição que lhe daria 75% do mercado de pastas de dente no Brasil. A Colgate ficou impedida de usar a marca Kolynos por quatro anos. Os executivos da AmBev já anunciaram a intenção de manter toda a linha de cervejas e refrigerantes que Brahma e Antarctica produzem. O teste do Cade será uma oportunidade de verificar até que ponto a visão sobre essa nova realidade da economia globalizada sensibiliza as autoridades e a sociedade. Em outros lugares, as fusões têm acontecido e têm sido estimuladas. "Vamos testar aqui limites que em outros lugares já foram testados", diz Marcel Telles.

 

Com reportagem de César Nogueira, de São Paulo,
Consuelo Dieguez, do Rio de Janeiro,
e
Sandra Brasil, de Brasília

 

Continua

 




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