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Perfil
A visita do Sr. McAbro
Ian McEwan, que participa da Festa Literária
Internacional de Parati, é um dos nomes mais
conhecidos e polêmicos da literatura inglesa

Jerônimo Teixeira
Ainda hoje, em leituras públicas, às
vezes o encarregado de apresentar Ian McEwan lembra o apelido que
marcou o escritor inglês no início da carreira, em
meados da década de 70: Ian McAbro. O próprio McEwan
diz que o apelido só o incomoda por ser redutor. De fato,
o adjetivo "macabro" não fala da prosa elegante e da sofisticada
arquitetura formal desse que é um dos maiores autores da
ficção contemporânea. Recomenda-se, portanto,
que os mestres-de-cerimônias da Festa Literária Internacional
de Parati na qual McEwan divide uma mesa no domingo, 11,
com o amigo e companheiro de geração Martin Amis
recorram cuidadosamente ao trocadilho para apresentar o escritor.
No mais recente livro de McEwan, o aclamado
Reparação, a história se articula em
torno de um estupro e de um equívoco que leva um inocente
à perdição. Mas não há mais a
perversidade e a violência de livros como Ao Deus-Dará
ou O Jardim de Cimento. O autor suavizou-se? Aos 56 anos,
vencedor do prestigioso prêmio Booker de 1998 com Amsterdã,
McEwan prefere dizer que sua literatura se ampliou: "Se eu fosse
um pintor, diria que hoje tenho mais cores na minha palheta". Também
os leitores mudaram: estão menos suscetíveis ao choque.
Em 1979, o conto Geometria Sólida, da primeira coletânea
do autor, Primeiro Amor, Último Sacramento, foi roteirizado
para um especial da BBC mas a emissora acabou abortando a
produção, por considerar o conteúdo sexual
muito pesado. Recentemente, a televisão britânica ressuscitou
o projeto, com o ator Ewan McGregor no papel principal. Não
houve escândalo. "Hoje, é muito mais difícil
que alguém se escandalize, pois somos bombardeados por material
que antes considerávamos chocante. Todos os dias, eu mesmo
apago uns dez e-mails pornográficos do meu computador", diz
McEwan.
Sexo, no entanto, ainda é um tema difícil
para um escritor por razões literárias, não
morais. "O sexo e a guerra são territórios já
muito explorados, e é preciso encontrar algum canto em que
a grama não esteja tão pisoteada", diz McEwan. O escritor
inglês acha que a grama é mais verde na casa do vizinho
americano John Updike: "Suas cenas de sexo são soberbas.
Têm uma honestidade terrível, quase insuportável".
O próprio McEwan, porém, nunca será dos escritores
que para usar a sua própria expressão
"pulam diretamente para o cigarro pós-coito". Em Reparação,
a cena de sexo em uma biblioteca é ao mesmo tempo delicada
e ardente. E o romance também trata de outro pisoteado tema
literário a guerra. O episódio da retirada
de Dunquerque, em que as tropas britânicas escaparam da França
ocupada pelos nazistas, é narrado da perspectiva desolada
de um soldado. "Tendemos a lembrar Dunquerque como um momento glorioso,
mas foi uma derrota terrível", diz McEwan, que também
identifica um problema de percepção na vitória
ambígua na Guerra do Iraque: a colaboração
militar do primeiro-ministro Tony Blair com os americanos estaria
obscurecendo suas realizações econômicas e sociais.
"Blair fez muitas coisas boas, mas o Iraque pode ser seu túmulo
político", lamenta McEwan.
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