Edição 1861 . 7 de julho de 2004

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A visita do Sr. McAbro

Ian McEwan, que participa da Festa Literária
Internacional de Parati, é um dos nomes mais
conhecidos – e polêmicos – da literatura inglesa


Jerônimo Teixeira

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Ainda hoje, em leituras públicas, às vezes o encarregado de apresentar Ian McEwan lembra o apelido que marcou o escritor inglês no início da carreira, em meados da década de 70: Ian McAbro. O próprio McEwan diz que o apelido só o incomoda por ser redutor. De fato, o adjetivo "macabro" não fala da prosa elegante e da sofisticada arquitetura formal desse que é um dos maiores autores da ficção contemporânea. Recomenda-se, portanto, que os mestres-de-cerimônias da Festa Literária Internacional de Parati – na qual McEwan divide uma mesa no domingo, 11, com o amigo e companheiro de geração Martin Amis – recorram cuidadosamente ao trocadilho para apresentar o escritor.

No mais recente livro de McEwan, o aclamado Reparação, a história se articula em torno de um estupro e de um equívoco que leva um inocente à perdição. Mas não há mais a perversidade e a violência de livros como Ao Deus-Dará ou O Jardim de Cimento. O autor suavizou-se? Aos 56 anos, vencedor do prestigioso prêmio Booker de 1998 com Amsterdã, McEwan prefere dizer que sua literatura se ampliou: "Se eu fosse um pintor, diria que hoje tenho mais cores na minha palheta". Também os leitores mudaram: estão menos suscetíveis ao choque. Em 1979, o conto Geometria Sólida, da primeira coletânea do autor, Primeiro Amor, Último Sacramento, foi roteirizado para um especial da BBC – mas a emissora acabou abortando a produção, por considerar o conteúdo sexual muito pesado. Recentemente, a televisão britânica ressuscitou o projeto, com o ator Ewan McGregor no papel principal. Não houve escândalo. "Hoje, é muito mais difícil que alguém se escandalize, pois somos bombardeados por material que antes considerávamos chocante. Todos os dias, eu mesmo apago uns dez e-mails pornográficos do meu computador", diz McEwan.

Sexo, no entanto, ainda é um tema difícil para um escritor – por razões literárias, não morais. "O sexo e a guerra são territórios já muito explorados, e é preciso encontrar algum canto em que a grama não esteja tão pisoteada", diz McEwan. O escritor inglês acha que a grama é mais verde na casa do vizinho americano John Updike: "Suas cenas de sexo são soberbas. Têm uma honestidade terrível, quase insuportável". O próprio McEwan, porém, nunca será dos escritores que – para usar a sua própria expressão – "pulam diretamente para o cigarro pós-coito". Em Reparação, a cena de sexo em uma biblioteca é ao mesmo tempo delicada e ardente. E o romance também trata de outro pisoteado tema literário – a guerra. O episódio da retirada de Dunquerque, em que as tropas britânicas escaparam da França ocupada pelos nazistas, é narrado da perspectiva desolada de um soldado. "Tendemos a lembrar Dunquerque como um momento glorioso, mas foi uma derrota terrível", diz McEwan, que também identifica um problema de percepção na vitória ambígua na Guerra do Iraque: a colaboração militar do primeiro-ministro Tony Blair com os americanos estaria obscurecendo suas realizações econômicas e sociais. "Blair fez muitas coisas boas, mas o Iraque pode ser seu túmulo político", lamenta McEwan.

 
 
 
 
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