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Religião
A fé de resultados
A ação social dos evangélicos
explica por que eles avançam

José Edward
Pelo menos 2 milhões de evangélicos
materializaram, em passeatas realizadas em 65 cidades há
duas semanas, uma realidade estatística. A comunidade evangélica
cresce num ritmo consistentemente maior do que a população
brasileira. Só a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada
pelo bispo Edir Macedo em 1977, arrebanha 100.000
novas ovelhas por ano. De um lado, esse crescimento faz chover acusações
sobre métodos pouco ortodoxos de arrecadação
de fundos e conversão de fiéis. De outro, produz um
curioso mas efetivo benefício social. Fincados nas comunidades
carentes, os templos evangélicos promovem a redução
de vários índices negativos na vizinhança,
começando pelo total de alcoólatras e terminando no
número de ocorrências criminais. "Quando uma igreja
evangélica entra numa comunidade pobre, contribui para elevar
a auto-estima dos moradores e gera um efeito disciplinador", afirma
o sociólogo Rubem César Fernandes, diretor executivo
do movimento Viva Rio e pesquisador do Instituto de Estudos da Religião.
No discurso da maioria dos pastores evangélicos,
quem se converte a uma vida de rígidos princípios
morais alcança, nesta existência, tanto o perdão
para a alma como a chance de receber recompensas terrenas, como
a prosperidade financeira. Como é fato que muita gente melhora
de vida ao trocar algum tipo de vício por uma vaga na escola,
não é difícil arregimentar novos porta-vozes
para ampliar a captação de fiéis. No Rio de
Janeiro, houve redução de homicídios nas favelas
Cantagalo, Pavão e Pavãozinho à medida que,
nos últimos anos, foram se instalando na região templos
de dez denominações evangélicas. Com 20.000
moradores, a área chegou a ter dez assassinatos num único
mês em 2000 excluídas as mortes decorrentes
de confrontos entre traficantes e policiais. Nos dois anos seguintes,
houve nove casos. Em 2003, nenhum. Outras entidades e a ação
das autoridades também contribuíram, mas a própria
polícia reconhece a importância dos pregadores. "As
pregações, os testemunhos e as obras dos evangélicos
ajudam a desarmar os espíritos", depõe o major Marco
Aurélio Santos, comandante da Polícia Militar na área.
Livres de amarras hierárquicas, os
evangélicos agem depressa e colhem resultados. Na região
metropolitana de Belo Horizonte, um centro da Igreja Batista da
Lagoinha tem índice de 40% de recuperação de
dependentes químicos oito vezes melhor do que o considerado
razoável pela Organização Mundial de Saúde.
No sertão baiano, a fazenda projetada pelo bispo Marcelo
Crivella, da Universal, gera renda para trinta famílias e
dá escola a 500 crianças em período integral.
Na Casa de Detenção de São Paulo, recentemente
desativada, 25% dos presos eram evangélicos. Cenários
como esses explicam como o pastor Marcos Pereira da Silva, da Assembléia
de Deus dos Últimos Dias, pôde pôr fim, sozinho,
à sangrenta rebelião da Casa de Custódia de
Benfica, no Rio. "Onde há miséria, eles têm
a força", diz a antropóloga Clara Mafra, autora do
livro Os Evangélicos.
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