Edição 1861 . 7 de julho de 2004

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Religião
A fé de resultados

A ação social dos evangélicos
explica por que eles avançam


José Edward

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Pelo menos 2 milhões de evangélicos materializaram, em passeatas realizadas em 65 cidades há duas semanas, uma realidade estatística. A comunidade evangélica cresce num ritmo consistentemente maior do que a população brasileira. Só a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada pelo bispo Edir Macedo em 1977, arrebanha 100.000 novas ovelhas por ano. De um lado, esse crescimento faz chover acusações sobre métodos pouco ortodoxos de arrecadação de fundos e conversão de fiéis. De outro, produz um curioso mas efetivo benefício social. Fincados nas comunidades carentes, os templos evangélicos promovem a redução de vários índices negativos na vizinhança, começando pelo total de alcoólatras e terminando no número de ocorrências criminais. "Quando uma igreja evangélica entra numa comunidade pobre, contribui para elevar a auto-estima dos moradores e gera um efeito disciplinador", afirma o sociólogo Rubem César Fernandes, diretor executivo do movimento Viva Rio e pesquisador do Instituto de Estudos da Religião.

No discurso da maioria dos pastores evangélicos, quem se converte a uma vida de rígidos princípios morais alcança, nesta existência, tanto o perdão para a alma como a chance de receber recompensas terrenas, como a prosperidade financeira. Como é fato que muita gente melhora de vida ao trocar algum tipo de vício por uma vaga na escola, não é difícil arregimentar novos porta-vozes para ampliar a captação de fiéis. No Rio de Janeiro, houve redução de homicídios nas favelas Cantagalo, Pavão e Pavãozinho à medida que, nos últimos anos, foram se instalando na região templos de dez denominações evangélicas. Com 20.000 moradores, a área chegou a ter dez assassinatos num único mês em 2000 – excluídas as mortes decorrentes de confrontos entre traficantes e policiais. Nos dois anos seguintes, houve nove casos. Em 2003, nenhum. Outras entidades e a ação das autoridades também contribuíram, mas a própria polícia reconhece a importância dos pregadores. "As pregações, os testemunhos e as obras dos evangélicos ajudam a desarmar os espíritos", depõe o major Marco Aurélio Santos, comandante da Polícia Militar na área.

Livres de amarras hierárquicas, os evangélicos agem depressa e colhem resultados. Na região metropolitana de Belo Horizonte, um centro da Igreja Batista da Lagoinha tem índice de 40% de recuperação de dependentes químicos – oito vezes melhor do que o considerado razoável pela Organização Mundial de Saúde. No sertão baiano, a fazenda projetada pelo bispo Marcelo Crivella, da Universal, gera renda para trinta famílias e dá escola a 500 crianças em período integral. Na Casa de Detenção de São Paulo, recentemente desativada, 25% dos presos eram evangélicos. Cenários como esses explicam como o pastor Marcos Pereira da Silva, da Assembléia de Deus dos Últimos Dias, pôde pôr fim, sozinho, à sangrenta rebelião da Casa de Custódia de Benfica, no Rio. "Onde há miséria, eles têm a força", diz a antropóloga Clara Mafra, autora do livro Os Evangélicos.

 

 

Felipe Varanda/Folha Imagem
O bispo Marcos Pereira da Silva: os presos confiam nele
 
 
 
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