|
|
Especial
Corruptor de policiais
O contrabandista
Law Kin Chong tinha no bolso
policiais graúdos. Sua prisão é mais um capítulo
do processo de autolimpeza por que passa a PF

André Rizek e Malu Gaspar
Rafael Neddermeyer/AE
 |
Claudio Rossi
 |
NEGÓCIOS DA
CHINA
Dono de 600 estandes de venda de produtos
pirateados em shoppings de São Paulo (acima), segundo
a PF, Law (foto maior) teria ainda fábricas na China.
Abaixo, em seqüência tirada de vídeo feito em uma de suas viagens
a Hong Kong, ele vistoria o que seria uma delas |
 |
Tido como o maior contrabandista do Brasil,
o chinês Law Kin Chong estava prestes a comemorar 25 anos
de próspera atividade. Ele ergueu seu império, com
faturamento mensal estimado em 50 milhões de reais, graças
a uma rede de proteção que lhe custava 5 milhões
de reais por mês e era formada por quase 200 pessoas, incluindo
fiscais da Receita, policiais militares, civis e federais. Sua prisão,
ocorrida no mês passado, além de revelar os métodos
do maior esquema de contrabando de produtos piratas do país,
deve representar mais uma etapa no processo de autolimpeza a que
vem se submetendo a Polícia Federal. De 2003 para cá,
ela já prendeu 29 integrantes de seus quadros por crime de
corrupção. As investigações do esquema
Law prometem render outras detenções. Nas agendas
do contrabandista e de seu advogado, a PF de Brasília encontrou
o nome de mais de uma dúzia de colegas paulistas, incluindo
seis delegados pertencentes à cúpula da superintendência
da instituição em São Paulo. Dois deles, Mauro
Sérgio Sales Abdo, chefe da delegacia de repressão
a crimes fazendários, e Marco Antonio Veronezzi, chefe da
delegacia de polícia de imigração, foram afastados
na semana passada.
Law Kin Chong, hoje com 43 anos, iniciou cedo
a atividade à qual se dedicou por mais de três décadas.
Aos 19, comprava relógios contrabandeados no Porto de Santos:
descia a serra que separa São Paulo do litoral montado em
uma moto modelo CB 400 e, chegando ao cais, remava em um barquinho
até alcançar os navios ancorados. Mochila repleta,
voltava para a capital, onde tinha como clientes lojistas e camelôs.
Aos 20 anos, casou-se com Hwu Su Chiu Law com quem, até
ser preso, morava em uma mansão de muros altos no bairro
nobre do Morumbi. A chinesa, que adotou o nome brasileiro de Míriam,
é descrita como uma mulher altiva, vistosa e decidida. Segundo
a polícia, era ela quem se encarregava de distribuir, por
cerca de 600 lojas localizadas no centro paulistano, os produtos
que o marido trazia ilegalmente da China. A polícia apurou
que a mercadoria de televisões de plasma a perfumes,
passando por relógios e CDs entrava no Brasil em contêineres
desembarcados em diversos aeroportos do país e nos portos
de Santos, Rio, Paranaguá, São Francisco do Sul e
Vitória. Por Foz do Iguaçu, entravam algumas miudezas.
Um policial envolvido na investigação conta que, quando
os ônibus de Law, carregados com até 12 toneladas de
produtos, chegavam a São Paulo pela Rodovia Castello Branco,
já tinham à sua espera uma escolta de policiais federais.
O comboio seguia até o prédio de número 181
da Rua Barão de Duprat, que a polícia suspeita pertencer
ao contrabandista. Lá funcionam um dos depósitos de
Law e, no 7º andar, seu principal escritório.
Até agora, as investigações
indicaram que, além do prédio da Barão de Duprat,
Law seria o real proprietário de quatro shoppings que ele
afirma alugar na região central de São Paulo (cada
um abrigando de 100 a 200 estandes de vendas), da empresa Calinda
Indústria de Relógios e Brinquedos, com sede em Manaus
e em nome de seus irmãos, de um depósito no bairro
do Brás, de uma loja de pedras preciosas e de dois estacionamentos
em São Paulo, sendo um deles vertical, com 25 andares e capacidade
para 640 carros. A PF suspeita ainda que Law seja ele próprio
fabricante de muitos produtos piratas que trazia da China. Um vídeo
apreendido pelos agentes mostra o empresário em Hong Kong
inspecionando uma das fábricas que, segundo indicam as investigações,
seria sua.
O jeito frio do chinês, aliado a episódios
nebulosos atribuídos à máfia chinesa, rendeu
a ele a fama, disseminada no submundo do contrabando e dos policiais
corruptos, de sujeito perigoso e vingativo. Nos bastidores da Receita
e da Polícia Federal, quando se fala em Law Kin Chong imediatamente
vêm à tona dois episódios sangrentos: o assassinato
de um auditor da Receita em São Paulo, Hélio Pimentel,
em maio de 2002, e a invasão da inspetoria do órgão
na capital paulista. O corpo do auditor Pimentel foi encontrado
carbonizado e despedaçado dias depois de ele ter participado
de uma operação de fiscalização de equipamentos
de informática clandestinos no Porto de Santos. Dois dias
após o corpo ter sido encontrado, o escritório da
Receita onde ele trabalhava foi invadido por cinco homens armados.
Houve um tiroteio e um deles morreu. As investigações
até hoje não foram concluídas.
Oficialmente, Law vive da sublocação
dos estandes localizados nos shoppings que diz alugar. A maioria
de seus inquilinos é formada por chineses. Cooptados por
meio de anúncios de jornal, assinam contratos de dívidas
com prepostos do contrabandista, que cuidam das passagens para o
Brasil e dos papéis de legalização. Registrados
como sublocadores dos estandes, recebem, segundo a polícia,
um salário de 600 reais. O dinheiro das vendas é entregue
diariamente a gerentes de Law. Às 19 horas, revela um policial
envolvido nas investigações, um motoboy faz a ronda
dos shoppings para pegar, com esses funcionários, a féria
do dia. Nesse horário, policiais militares pagos por Law
promoveriam uma espécie de varredura nas ruas a fim de proteger
o motoboy.
Law não foi preso por prática
de contrabando, mas por corrupção ativa, flagrado
numa tentativa de suborno ao deputado federal Luiz Antonio de Medeiros,
presidente da CPI da Pirataria. Em uma série de vídeos
produzidos pelo parlamentar, o despachante Pedro Lindolfo Sarlo,
um dos homens de confiança do chinês, aparece dando
ao deputado o que seria o adiantamento da propina cujo valor total
seria de 1,5 milhão de reais destinados a "aliviar"
a situação de Law no relatório final da CPI.
Por meio de documentos apreendidos em sua casa, a PF descobriu alguns
fatos curiosos: em 1997, Law foi agraciado com o título de
Cidadão Paulistano pela Câmara Municipal de São
Paulo, por iniciativa do ex-vereador Hanna Gharib, e ganhou também
um diploma de honra ao mérito concedido pelo Sindicato dos
Servidores da Polícia Federal de São Paulo.
A experiência demonstra que, por trás
de um criminoso, muitas vezes está um policial corrupto.
A atual direção da Polícia Federal tem dado
repetidas mostras de que está firmemente disposta a investir
não só no próprio saneamento como também
no de corporações afins. Nos últimos dois anos,
uma série de megaoperações, incluindo a Anaconda,
Setembro Negro, Lince e Lince II, resultou na prisão de 98
policiais entre militares, civis e federais. Contrabandistas
como Law só existem e se perpetuam a partir do momento em
que existe e se perpetua uma polícia corrupta. A queda do
império do chinês, portanto, pode indicar que as paredes
de outro tradicional império, o dos policiais que acobertam
criminosos em troca de propinas, começa a apresentar rachaduras.
|
"Quero arrastar Medeiros comigo"
Wladimir de Sousa/Ag. O
Globo
 |
O DESPACHANTE
Pedro Lindolfo Sarlo, homem
de confiança de Law: tentativa de suborno e prisão
em flagrante |
Preso em Brasília, o despachante
Pedro Lindolfo Sarlo, apontado como homem de confiança
de Law, aceitou conversar com VEJA. Sarlo tem um idéia
fixa: incriminar também o deputado federal Luiz
Antonio de Medeiros, a quem acusa de ter "cavado" a
tentativa de suborno que o levou à prisão,
juntamente com seu suposto patrão. "Tudo o que
fiz foi monitorado pela Polícia Federal. Essa
é uma estratégia de defesa do Lindolfo,
orientado pelo Law", diz Medeiros. Questionado sobre
o fato de o nome do deputado federal Michel Temer, presidente
do PMDB, constar de sua agenda, Lindolfo se negou a
responder. Temer, por sua vez, diz ter conhecido Lindolfo
na época em que o despachante se candidatou a
deputado estadual pelo extinto PDS, em 1990. O deputado
afirma que, desde então, nunca mais teve contato
com ele.
VEJA
O senhor tentou subornar o deputado Medeiros?
LINDOLFO
Admito o meu crime: participei de uma
extorsão. Mas ela foi promovida pelo deputado.
Não fui procurá-lo para tentar corrompê-lo.
Quem me procurou foi ele.
VEJA
Para quê?
LINDOLFO Disse
que eu arrancasse 5 milhões de reais do Law.
Todo mundo sabe quem é o Medeiros. O próprio
Law disse que nunca conheceu um político como
ele. Ainda que pegue mais tempo de cadeia, quero levar
o Medeiros comigo.
VEJA
O senhor pode informar por que o nome do deputado
federal Michel Temer está em sua agenda?
LINDOLFO Eu
me reservo o direito de nada declarar sobre isso.
|
|
|