Edição 1861 . 7 de julho de 2004

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Iraque
O passado e o futuro incerto

Saddam reaparece desafiador no tribunal que
vai julgá-lo, mas é o terror islâmico, liderado
pelo jordaniano Abu Zarqawi, que se firma
como a maior ameaça no Iraque


AFP
FP
NO BANCO DOS RÉUS
Saddam perante o juiz, em Bagdá: 10 quilos mais magro e ainda com ânimo para lançar desafios
A FACE DO TERROR
Abu Zarqawi, em sua única foto conhecida: líder islâmico quer transformar o Iraque num centro de treinamento de terroristas

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: A era Saddam Hussein

Saddam Hussein pertence à infame categoria dos ditadores cujo poder ilimitado foi exercido com tamanho despudor que acabaram por se tornar a personificação do próprio país. Ver no banco dos réus um sujeito desses, que já foi todo-poderoso, tentando salvar a própria vida, tem valor didático. Na semana passada, Saddam ressurgiu diante das câmeras como uma sombra do que foi. Convocado a se apresentar ao tribunal de Bagdá que vai julgá-lo por crimes contra a humanidade, o ex-ditador exibia o ar macilento dos prisioneiros e estava visivelmente mais magro. Terá perdido uns 10 quilos desde o dia em que foi retirado de um buraco por soldados americanos, no ano passado. Com o cabelo tingido de preto, vestia roupas baratas, emprestadas pela Justiça. Logo ele, que encomendava ternos aos melhores alfaiates italianos. Dos velhos tempos, o ex-ditador conserva o talento teatral e a língua afiada, recursos que usou para denunciar o tribunal como uma farsa e para acusar o presidente George W. Bush de ser o verdadeiro criminoso dessa história. O tribunal pode dar ao ex-ditador uma tribuna para que tente mobilizar os saudosistas de seu regime. Essa perspectiva não deve ser levada muito a sério. Preso, Saddam Hussein é passado, carta fora do baralho.


Fotos AP
AP
BARBÁRIE
Rudolf Hess: delfim de Hitler foi condenado à prisão perpétua
LENTIDÃO
Milosevic: entregue pelos sérvios a um tribunal internacional

A questão colocada diante dos iraquianos é a quem pertence o futuro. O temor é que ele venha a ser encarnado por Abu Musab al-Zarqawi, o jordaniano de 37 anos que lidera o braço da Al Qaeda no Iraque. Sua cabeça foi posta a prêmio pelos americanos por 25 milhões de dólares, o mesmo valor pago pelos filhos de Saddam. Mudou-se para o Iraque depois da ocupação americana e atribuem-se a ele as piores matanças de civis. Parte da carnificina é explicada pelo objetivo de fomentar uma guerra entre a minoria sunita – à qual pertence – e a maioria xiita, que considera herege. Seu projeto é o de transformar o Iraque num repeteco da ditadura islâmica que os Estados Unidos destruíram no Afeganistão. Como seu mentor Osama bin Laden fez por lá, Zarqawi pretende treinar em território iraquiano uma nova geração de terroristas islâmicos. No caos atual, ele age com desenvoltura e, suspeita-se, estabeleceu algum tipo de cooperação operacional com a velha-guarda de Saddam Hussein. Como escreveu o colunista David E. Sanger, do New York Times, quando os iraquianos jogam pedra nos destroços dos carros blindados de seus libertadores, destruídos por ataques terroristas, só se pode pensar que o Iraque será um desastre pelos próximos anos. A realidade pode ser bem mais complicada.

Na segunda-feira passada, numa cerimônia realizada de surpresa para frustrar ataques terroristas, dois dias antes do anunciado, os EUA entregaram a administração ao governo provisório iraquiano. Na verdade, a ocupação continua sob outro nome. As tropas americanas têm liberdade para agir, e o novo governo nada pode fazer, exceto pedir que deixem o país. Coisa que não farão sob o risco de estar cometendo suicídio. A tarefa mais urgente de Iyad Allawi, o novo primeiro-ministro, é acabar com a violência. Para isso conta com apenas 8.000 soldados e uma guarda nacional de 40.000 policiais mal treinados. As forças estrangeiras no país somam 150.000 homens. Ironicamente, o julgamento de Saddam é o primeiro ato de soberania do novo governo. Seus integrantes acreditam que o processo e a exposição dos crimes cometidos pelo antigo regime servirão para purgar o Iraque do temor e do ódio gerados pelo homem que dominou suas vidas durante mais de uma geração. Outra esperança é que, agora que o Iraque tem um governo provisório, a insurreição antiamericana perderá impulso, permitindo que a situação se normalize. Talvez o caos e a carnificina sejam, como descreve o governo americano, apenas espasmos de um doloroso rito de passagem da ditadura para a democracia.


Fotos AFP
FP
FORA DE CONTROLE
Depois de incendiado, carro que levava estrangeiros é atacado a pedradas em Bagdá. Ao lado, moradores da cidade de Falluja comemoram ataque a soldados americanos

Julgar um ditador deposto é, em geral, um modo de selar seu destino não apenas no plano pessoal, mas também no da imagem que deixa para a posteridade. O ditador soviético Stalin, de quem se diz que Saddam copiou o modus operandi, morreu no poder. Mas seu legado foi a julgamento, quando, três anos após sua morte, seus crimes foram denunciados por Nikita Kruschev. Para evitar que Rudolf Hess, o delfim decaído de Adolf Hitler, fosse aclamado como um novo führer, os aliados o confinaram até a morte numa prisão onde era o único prisioneiro. Entregue pelo próprio país a um tribunal internacional de crimes de guerra, Slobodan Milosevic, o carniceiro dos Bálcãs, ainda assombra os sérvios. Saddam Hussein tem direito a advogados e a um julgamento formal. São procedimentos civilizados que ele recusou às vítimas de sua ditadura. Calcula-se que as três guerras em que envolveu o Iraque tenham custado a vida de meio milhão de iraquianos. Somadas as vítimas do massacre da maioria xiita e da minoria curda, a estimativa do número de desaparecidos nos porões do regime chega a 1 milhão. Dificilmente escapará de uma condenação à morte.

É possível que os iraquianos, exasperados com a pobreza e a instabilidade do pós-guerra, venham a suspirar pelo ditador que desafiou a superpotência? O Estado que os americanos entregaram ao governo provisório talvez nem mereça esse nome, visto a fragmentação do Iraque em linhas tribais, facções religiosas e comunidades étnicas. O fornecimento de energia elétrica e a produção de petróleo são precários, perturbados pelos ataques dos insurgentes. Os carros-bomba, a matança de civis e o banditismo puro e simples tornam a vida um inferno. O Iraque está longe de ser a democracia brilhante que serviria de exemplo no Oriente Médio, como prometeu Bush. É irônico, mas o que preocupava a Casa Branca em março de 2003, quando o Iraque foi invadido, é o mesmo que a preocupa em julho de 2004: o terrorismo islâmico, que está mais forte do que antes.

 
 
 
 
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