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Iraque
O passado e o futuro incerto
Saddam reaparece desafiador no tribunal que
vai julgá-lo, mas é o terror islâmico, liderado
pelo jordaniano Abu Zarqawi, que se firma
como a maior ameaça no Iraque
AFP
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FP
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NO BANCO DOS RÉUS
Saddam perante o juiz, em Bagdá: 10 quilos mais
magro e ainda com ânimo para lançar desafios |
A FACE DO TERROR
Abu Zarqawi, em sua única foto conhecida: líder
islâmico quer transformar o Iraque num centro de treinamento
de terroristas |
Saddam Hussein pertence à infame categoria
dos ditadores cujo poder ilimitado foi exercido com tamanho despudor
que acabaram por se tornar a personificação do próprio
país. Ver no banco dos réus um sujeito desses, que
já foi todo-poderoso, tentando salvar a própria vida,
tem valor didático. Na semana passada, Saddam ressurgiu diante
das câmeras como uma sombra do que foi. Convocado a se apresentar
ao tribunal de Bagdá que vai julgá-lo por crimes contra
a humanidade, o ex-ditador exibia o ar macilento dos prisioneiros
e estava visivelmente mais magro. Terá perdido uns 10 quilos
desde o dia em que foi retirado de um buraco por soldados americanos,
no ano passado. Com o cabelo tingido de preto, vestia roupas baratas,
emprestadas pela Justiça. Logo ele, que encomendava ternos
aos melhores alfaiates italianos. Dos velhos tempos, o ex-ditador
conserva o talento teatral e a língua afiada, recursos que
usou para denunciar o tribunal como uma farsa e para acusar o presidente
George W. Bush de ser o verdadeiro criminoso dessa história.
O tribunal pode dar ao ex-ditador uma tribuna para que tente mobilizar
os saudosistas de seu regime. Essa perspectiva não deve ser
levada muito a sério. Preso, Saddam Hussein é passado,
carta fora do baralho.
Fotos AP
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AP
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BARBÁRIE
Rudolf Hess: delfim de Hitler foi condenado à
prisão perpétua |
LENTIDÃO
Milosevic: entregue pelos sérvios a um tribunal
internacional |
A questão colocada diante dos iraquianos
é a quem pertence o futuro. O temor é que ele venha
a ser encarnado por Abu Musab al-Zarqawi, o jordaniano de 37 anos
que lidera o braço da Al Qaeda no Iraque. Sua cabeça
foi posta a prêmio pelos americanos por 25 milhões
de dólares, o mesmo valor pago pelos filhos de Saddam. Mudou-se
para o Iraque depois da ocupação americana e atribuem-se
a ele as piores matanças de civis. Parte da carnificina é
explicada pelo objetivo de fomentar uma guerra entre a minoria sunita
à qual pertence e a maioria xiita, que considera
herege. Seu projeto é o de transformar o Iraque num repeteco
da ditadura islâmica que os Estados Unidos destruíram
no Afeganistão. Como seu mentor Osama bin Laden fez por lá,
Zarqawi pretende treinar em território iraquiano uma nova
geração de terroristas islâmicos. No caos atual,
ele age com desenvoltura e, suspeita-se, estabeleceu algum tipo
de cooperação operacional com a velha-guarda de Saddam
Hussein. Como escreveu o colunista David E. Sanger, do New York
Times, quando os iraquianos jogam pedra nos destroços
dos carros blindados de seus libertadores, destruídos por
ataques terroristas, só se pode pensar que o Iraque será
um desastre pelos próximos anos. A realidade pode ser bem
mais complicada.
Na segunda-feira passada, numa cerimônia
realizada de surpresa para frustrar ataques terroristas, dois dias
antes do anunciado, os EUA entregaram a administração
ao governo provisório iraquiano. Na verdade, a ocupação
continua sob outro nome. As tropas americanas têm liberdade
para agir, e o novo governo nada pode fazer, exceto pedir que deixem
o país. Coisa que não farão sob o risco de
estar cometendo suicídio. A tarefa mais urgente de Iyad Allawi,
o novo primeiro-ministro, é acabar com a violência.
Para isso conta com apenas 8.000 soldados
e uma guarda nacional de 40.000 policiais
mal treinados. As forças estrangeiras no país somam
150.000 homens. Ironicamente, o julgamento
de Saddam é o primeiro ato de soberania do novo governo.
Seus integrantes acreditam que o processo e a exposição
dos crimes cometidos pelo antigo regime servirão para purgar
o Iraque do temor e do ódio gerados pelo homem que dominou
suas vidas durante mais de uma geração. Outra esperança
é que, agora que o Iraque tem um governo provisório,
a insurreição antiamericana perderá impulso,
permitindo que a situação se normalize. Talvez o caos
e a carnificina sejam, como descreve o governo americano, apenas
espasmos de um doloroso rito de passagem da ditadura para a democracia.
Fotos AFP
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FP
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FORA
DE CONTROLE
Depois de incendiado, carro que levava estrangeiros
é atacado a pedradas em Bagdá. Ao lado, moradores
da cidade de Falluja comemoram ataque a soldados americanos
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Julgar um ditador deposto é, em geral,
um modo de selar seu destino não apenas no plano pessoal,
mas também no da imagem que deixa para a posteridade. O ditador
soviético Stalin, de quem se diz que Saddam copiou o modus
operandi, morreu no poder. Mas seu legado foi a julgamento,
quando, três anos após sua morte, seus crimes foram
denunciados por Nikita Kruschev. Para evitar que Rudolf Hess, o
delfim decaído de Adolf Hitler, fosse aclamado como um novo
führer, os aliados o confinaram até a morte numa prisão
onde era o único prisioneiro. Entregue pelo próprio
país a um tribunal internacional de crimes de guerra, Slobodan
Milosevic, o carniceiro dos Bálcãs, ainda assombra
os sérvios. Saddam Hussein tem direito a advogados e a um
julgamento formal. São procedimentos civilizados que ele
recusou às vítimas de sua ditadura. Calcula-se que
as três guerras em que envolveu o Iraque tenham custado a
vida de meio milhão de iraquianos. Somadas as vítimas
do massacre da maioria xiita e da minoria curda, a estimativa do
número de desaparecidos nos porões do regime chega
a 1 milhão. Dificilmente escapará de uma condenação
à morte.
É possível que os iraquianos,
exasperados com a pobreza e a instabilidade do pós-guerra,
venham a suspirar pelo ditador que desafiou a superpotência?
O Estado que os americanos entregaram ao governo provisório
talvez nem mereça esse nome, visto a fragmentação
do Iraque em linhas tribais, facções religiosas e
comunidades étnicas. O fornecimento de energia elétrica
e a produção de petróleo são precários,
perturbados pelos ataques dos insurgentes. Os carros-bomba, a matança
de civis e o banditismo puro e simples tornam a vida um inferno.
O Iraque está longe de ser a democracia brilhante que serviria
de exemplo no Oriente Médio, como prometeu Bush. É
irônico, mas o que preocupava a Casa Branca em março
de 2003, quando o Iraque foi invadido, é o mesmo que a preocupa
em julho de 2004: o terrorismo islâmico, que está mais
forte do que antes.
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