Edição 1861 . 7 de julho de 2004

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Diogo Mainardi
Bush não é um Saddam

"O que importa é que a brutalidade
americana coincidiu com a necessidade
dos iraquianos. O Iraque tem uma
pequena
chance de dar certo. Com Saddam Hussein,
não tinha chance nenhuma"


NA INTERNET
Arquivo de áudio, colunas anteriores e outras informações em www.veja.com.br/diogomainardi

Lula considerou "ilegítimo" o ataque americano ao Iraque. Declarou que George Bush não tinha "o direito de decidir o que era bom e o que era ruim para o mundo". João Paulo Cunha foi mais longe. Acusou o presidente americano de "ordenar um massacre". Chamou-o de "déspota". Déspota era Saddam Hussein. Comparar George Bush a Saddam Hussein é insultar os milhões de iraquianos mortos ou torturados pelo ditador. João Paulo Cunha é como Madonna. Madonna disse recentemente que George Bush e Saddam Hussein eram iguais porque "se comportavam de maneira irresponsável". Ela anunciou também que, de agora em diante, prefere ser chamada de Esther. O nome tem um significado cabalístico. João Paulo Cunha é nossa Esther. Lula é nossa Esther.

A linha adotada por Lula durante o conflito no Iraque foi defender o papel da ONU. Claro que se trata de uma enganação. A política da ONU para o Iraque, na última década, baseou-se no embargo comercial. Como se sabe, Lula e seus partidários sempre condenaram o embargo comercial. Queriam o fim das sanções impostas a Saddam Hussein. Lula e seus partidários denunciaram também todas as outras intervenções militares americanas, muitas das quais contaram com o apoio da ONU. Foram contra a primeira guerra no Iraque. Foram contra a guerra na Iugoslávia. Foram contra a guerra no Afeganistão. Se dependesse de Lula, Saddam Hussein ainda estaria no Kuwait, Milosevic teria prosseguido o genocídio na Bósnia e no Kosovo, os talibãs continuariam a dar abrigo a Osama bin Laden. José Dirceu acusou George Bush de deflagrar a guerra no Afeganistão apenas para contentar os interesses dos "círculos mais reacionários" dos Estados Unidos, que queriam construir um gasoduto na região. Onde está o tal gasoduto? O Afeganistão agora tem até eleições democráticas, mas não um gasoduto. A verdade é que os círculos mais reacionários dos Estados Unidos não tinham o menor interesse pelo Afeganistão, tanto que, na primeira oportunidade, se mandaram para o Iraque.

A maioria dos americanos está arrependida de ter apoiado a invasão do Iraque. O que é um bom sinal. Demonstra que os custos foram maiores do que os benefícios. Os americanos derrubaram Saddam Hussein e, ao contrário do que imaginavam, saíram perdendo com isso. Danem-se os americanos. Eles são ricos o bastante para cobrir o gasto. O único argumento cabível para invadir o Iraque era enfiar Saddam Hussein na cadeia. E foi o que aconteceu. Digamos que um tirano assumisse o poder no Brasil. Digamos que ele bombardeasse com gás mostarda a população de Teresina. Uma força imperial que o destituísse seria bem-vinda. Pouco importa que os americanos tenham agido no Iraque com vinte anos de atraso. Ou que tenham contado um monte de mentiras. Ou que tenham pensado unicamente em pilhar os recursos naturais do país. O que importa é que a brutalidade americana coincidiu com a necessidade dos iraquianos. O Iraque tem uma pequena chance de dar certo. Com Saddam Hussein, não tinha chance nenhuma. Independentemente do que pensam João Paulo Cunha, Lula e Esther.

 
 
 
 
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