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Entrevista: Azar Nafisi
O véu é um inferno
A autora do best-seller Lendo Lolita
em Teerã fala do terror imposto às
mulheres pelo fanatismo dos aiatolás

Gabriela Carelli
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"A questão não é usar ou não o véu.
É se a mulher tem o direito de escolha, se pode interpretar
a religião como bem entender" |
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Nos últimos meses, a vida da iraniana
Azar Nafisi, de 54 anos, deu uma reviravolta. Professora de literatura
inglesa na Universidade Johns Hopkins, em Washington, ela foi promovida
a celebridade das letras com seu livro Lendo Lolita em Teerã
(A Girafa, 502 páginas, 58 reais), que será lançado
no Brasil nesta semana. A obra está há 26 semanas
no primeiro posto da lista de livros mais vendidos do jornal New
York Times e é um retrato sensível às
vezes chocante da situação das mulheres no
Irã, submetidas ao fanatismo do regime islâmico. Esse
drama é mostrado através da experiência de Nafisi
e de sete de suas alunas da época em que ela lecionava na
Universidade de Teerã. Por dois anos, desafiando a repressão
do regime dos aiatolás, elas se encontraram semanalmente
para discutir autores proibidos no país, como Henry James
e Vladimir Nabokov. Nascida em Teerã, Nafisi deixou seu país
aos 13 anos para estudar na Europa e nos Estados Unidos. Retornou
ao Irã em 1979, logo após a Revolução
Islâmica, e lá permaneceu por dezoito anos. Cansada
de lutar contra a "atmosfera de terror", decidiu voltar para os
EUA. "Para uma mulher, viver no Irã é comparável
a fazer sexo com o homem que ela mais odeia, é um estupro
dissimulado", diz Nafisi. De Washington, onde vive com o marido
e os dois filhos, ela deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Por que os muçulmanos
se preocupam tanto em cobrir o cabelo das mulheres?
Azar Nafisi O objetivo é eliminar a personalidade
da mulher. Ao colocar o véu, ela passa a fazer parte de uma
massa padronizada, sem identidade. É uma forma de repressão
psicológica. Nas últimas décadas, as mulheres
se tornaram símbolos de abertura e de democracia. As mudanças
mais importantes em termos de conquista de direitos foram femininas.
Ao se tornarem mais visíveis, elas ganham maior controle
sobre sua vida. Eis por que as sociedades autoritárias, principalmente
nos países muçulmanos, sentem necessidade de conter
as mulheres. As conquistas do feminismo, para os radicais islâmicos,
são representações do imperialismo ocidental.
Veja No passado, o cristianismo
também relegou a mulher a papéis subalternos. Mas
o mundo cristão evoluiu e se modernizou nesse aspecto. É
possível modernizar o Islã?
Azar Todas as religiões têm flexibilidade
para mudar, inclusive o Islã. A questão é que
o mundo islâmico está passando por uma crise cujo pivô
é o fundamentalismo. Diferentemente do que possa parecer,
o radicalismo não é uma tradição muçulmana,
mas um fenômeno moderno. As outras religiões passaram
por momentos de rigidez e intolerância similares aos que nós,
muçulmanos, vivemos agora e por isso se reformaram.
O que se vê hoje em alguns países islâmicos é
muito parecido com o que ocorreu com a Igreja Católica na
Idade Média. Muitos muçulmanos querem uma mudança,
uma abordagem mais moderna dos costumes religiosos. Mas esbarram
na resistência daqueles que têm medo de um novo estilo
de vida, do que pode acontecer, de tornar ainda pior o que já
está ruim.
Veja Muitas muçulmanas
expressam a convicção de que o Islã é
generoso e justo com as mulheres e que elas são mais felizes
que as ocidentais. É possível que a maioria das muçulmanas
esteja satisfeita com a situação?
Azar Muitas muçulmanas, aquelas que não
vivem sob tortura, têm uma vida agradável. O problema
não é a religião, mas quando a religião
se transforma em Estado, quando a religião vira lei. A submissão
total e irrestrita nunca fez parte da cultura das mulheres do Irã.
Tanto que houve muita resistência por parte delas. As ruas
de Teerã se tornaram zonas de guerra. Mulheres enfrentaram
guardas armados para poder se expressar. A questão não
é usar ou não o véu. É se a mulher tem
o direito de escolher, se pode interpretar a religião da
forma que bem entender. Eu não gosto de usar véu,
mas não digo que seja errado. Digo que não é
certo impô-lo a todas. O problema atual não é
a religião. É a liberdade de escolha.
Veja Seu livro conta a história
do Irã sob o comando dos aiatolás por meio das impressões
de um grupo de mulheres que se reunia para discutir literatura.
O que a motivou a montar esse grupo?
Azar Formei-o depois de pedir demissão de
meu cargo de professora de literatura inglesa na Universidade de
Teerã. Havia chegado ao meu limite com as normas da revolução
islâmica. As regras e imposições arbitrárias
eram constantes. Nós, mulheres, entrávamos por uma
porta especial e éramos revistadas diariamente. Os fiscais
nos apalpavam para ver se portávamos maquiagem, tiravam nossas
roupas. Alunas que subiam as escadas correndo ou riam nos corredores
eram castigadas. Lecionar era uma tortura. Na sala de aula, tudo
o que eu dizia e fazia era controlado. Além disso, vivíamos
num ambiente hostil à literatura. As únicas obras
consideradas importantes eram aquelas que manifestavam algum tipo
de ideologia. O resto era conspiração. Tudo no Irã,
até o menor gesto, era interpretado à luz da política
vigente. Eu não podia abandonar a literatura, uma de nossas
poucas formas de redenção. Chamei minhas alunas mais
dedicadas, aquelas em que realmente confiava, para continuar as
aulas em minha casa.
Veja Por que a senhora considera
a literatura uma forma de redenção?
Azar Quando todas as possibilidades nos são
tiradas, a menor das aberturas se transforma numa grande liberdade.
O escritor russo Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, explica
bem isso ao dizer que todo romance é um conto de fadas. As
histórias sempre oferecem uma maneira de superar os limites.
De certa forma, os contos de fadas, ou os romances, nos dão
a liberdade que a realidade nos nega.
Veja Como eram as reuniões
do grupo?
Azar Propus que estudássemos os autores
na tentativa de encontrar nossa saída pessoal. As reuniões
ocorreram por dois anos, todas as quintas-feiras de manhã.
Duravam de três a sete horas. Algumas de minhas alunas mentiam
para os familiares para poder comparecer a elas, outras se intimidavam
porque aquilo que eu estava promovendo era contra a lei. Mas nunca,
durante esse período, elas deixaram de aparecer. Era naquela
sala de estar que tirávamos nosso véu, escapávamos
dos olhos dos aiatolás, redescobríamos nossa identidade.
Não importava o regime nem o medo que sentíamos. Criávamos
nosso pequeno oásis de liberdade, assim como fazia a personagem
Lolita, de Nabokov.
Veja Por que Lolita
foi o livro mais discutido durante esses encontros?
Azar Geralmente as pessoas acham que escolhemos
Lolita, cuja narrativa trata da relação proibida
entre um homem maduro e uma criança, porque vivíamos
numa sociedade reprimida sexualmente. Não foi por isso. Na
verdade, na literatura de ficção, o romance de Nabokov
é uma das representações que mais se aproximam
do regime totalitário em que vivíamos. Vai muito além
de 1984, de George Orwell, que se tornou um símbolo
do autoritarismo. Mais do que expor a dor física e a tortura
das ditaduras, Nabokov transmite em Lolita como é
apavorante viver num estado de terror permanente. A tragédia
maior da história não é o estupro de uma menina
de 12 anos por um senhor, mas o confisco de uma vida individual
por outra. Lolita é uma menina que não tem para onde
ir. Ela depende de Humbert, o personagem que faz de tudo para possuí-la,
tenta transformá-la em sua fantasia, em seu amor, mas a destrói.
Ela satisfaz os desejos dele porque não há outra saída,
porque sempre é levada a crer que será recompensada.
Ela é o tipo de pessoa que não pode articular a própria
história. Assim é a vida numa sociedade totalitária.
Um mundo de solidão, em que o Estado é o salvador
e o carrasco.
Veja Por que a senhora decidiu
voltar ao Irã logo após a revolução
dos aiatolás, depois de dezessete anos vivendo no exterior?
Azar Assim como vários iranianos que viviam
fora, eu estava feliz com as notícias de mudanças.
Sob o regime do xá, que perdurou por mais de 25 anos, vivíamos
sob uma ditadura política, e queríamos derrotá-la.
Acreditávamos que a revolução para instaurar
a teocracia seria um bom caminho. Queríamos mais direitos,
e não menos. Tanto para quem estava fora como para quem vivia
no Irã, a revolução foi bem-vinda. Levamos
um choque quando soubemos de suas características, quando
percebemos que a ditadura política avançou, minou
a vida das pessoas, transformou-se numa forma de aniquilar a individualidade
e os direitos dos cidadãos. Ninguém tinha a dimensão
do pesadelo que estava por vir.
Veja O que havia mudado na
vida das mulheres iranianas à época de seu retorno
ao país, em 1979?
Azar A idade mínima para o casamento passou
de 18 para 9 anos. O apedrejamento até a morte se tornou
o castigo para o adultério e a prostituição.
Nos ônibus, adotou-se a segregação. Destinaram-se
às mulheres a porta traseira e os assentos no fundo do veículo.
Até pouco tempo atrás, as ruas de Teerã e de
outras cidades eram patrulhadas por milícias formadas por
homens armados, chamados de Sangue de Deus. Eles tinham como obrigação
assegurar o bom comportamento das mulheres. Um vestígio de
maquiagem, uma mecha de cabelo para fora do véu e eles vinham,
implacáveis. Prendiam-nos, arremessavam-nos para dentro de
carros, deixavam-nos em prisões imundas, chicoteavam-nos.
Por fim, jogavam-nos nas ruas. A situação era pior
para as solteiras. Muitas de minhas alunas tiveram de passar por
coisa pior, como o teste de virgindade. Não havia nada mais
humilhante e nojento do que aquilo, feito em qualquer lugar, sem
nenhuma assepsia, a qualquer hora. Quantas jovens não foram
presas e chicoteadas só porque, sem querer, cruzaram o olhar
com o de um guarda?
Veja A situação
das mulheres no Irã melhorou com a eleição
do presidente Khatami?
Azar Só na aparência. Desde que o reformista
Khatami derrotou um aiatolá em 1997, o governo iniciou o
que chamamos de abertura de fachada. Para acalmar a população,
as autoridades fazem vista grossa a determinadas atitudes, evitam
entrar em conflito. Hoje, nas ruas, as mulheres podem usar véu
colorido e batom. Camelôs vendem CDs pirateados de cantores
americanos. Mas nada disso mudou a concepção do governo.
As leis continuam as mesmas. Ainda se apedrejam até a morte
mulheres que caem na prostituição ou traem o marido.
Os carros da Sangue de Deus, antes presentes em todos os lugares,
são mais raros. O que não impede que patrulhas armadas
abordem mulheres por achar que elas estão desrespeitando
a religião. Na verdade, quem controla o país é
o Conselho dos Guardiães, formado por aiatolás. Eles
apenas se disfarçaram. Não se sabe por quanto tempo.
Veja É possível
democratizar o Islã?
Azar O fundamentalismo islâmico é
fraco. Quando a única arma de um Estado é a violência
extrema, ele se debilita. A sociedade abaixa a cabeça por
determinado tempo, mas não para sempre. Parece contraditório,
mas esses regimes, ao ditar suas regras, ao impor um Islã
que não é verdadeiro, aumentam o questionamento das
pessoas sobre o que é certo ou não. É o que
tem ocorrido em meu país. No Irã, a busca pela democratização
é ainda maior por causa da nova geração, as
chamadas crianças da revolução. Os jovens nunca
desfrutaram a liberdade que tivemos. Eles a desejam mais do que
qualquer coisa. Não concordam com tudo o que é ocidental,
mas no fundo querem viver o sonho americano. Quando jovem, eu era
muito mais crítica ao Ocidente. Para essa geração,
tudo o que se relaciona com a América parece bom.
Veja Qual a situação
atual das universidades iranianas?
Azar Ainda existe repressão, mas as universidades
são os maiores pólos do movimento democrático.
Principalmente porque lá estão esses jovens descontentes,
que não vislumbram nenhum futuro. Eles têm muito menos
a perder que seus pais. Outra coisa importante é que, por
mais que haja controle no que se ensina a esses jovens, pela internet
eles têm acesso a literatura, a ensaios. Eles podem ser proibidos
de ler Nabokov, mas vão achar seus livros nos sites de busca.
Veja A impressão que
se tem é que essas manifestações pela democracia
são fracas, desorganizadas, sem poder de fogo para competir
com a força do Islã radical.
Azar É um erro achar isso. O que ocorre
é que as vozes da violência são muito mais ouvidas
que as da razão. As pessoas que estão lutando contra
o terror de forma coerente não saem gritando nem fazem gestos
espetaculares. Até porque seriam reprimidas. Em todo o mundo
islâmico há gente questionando a situação,
achando que o radicalismo e a coerção não representam
o melhor caminho. O problema é que as vozes dos homens-bomba
repercutem de forma muito mais estrondosa. A impressão que
se tem é que existem poucas vozes contrárias a esse
tipo de coisa, mas são muitas. Vários de meus alunos
que apoiavam a teocracia hoje estão presos porque defendem
um estado secular.
Veja Os aiatolás iranianos
dizem que seu livro é uma conspiração sionista
apoiada pelos americanos. Como a senhora avalia essas críticas?
Azar Muitos amigos me contaram que o livro é
sucesso no Irã, que as pessoas fazem cópias xerox
para conseguir lê-lo. Os fanáticos, não importa
o que eles defendem, estão sempre prontos para criticar,
tanto aqui como lá. Quando viram as fotos que fiz para a
campanha publicitária da Audi, os americanos que segregam
os muçulmanos disseram: "Olha lá, ela ganhou milhões
de dólares, e também ganha dinheiro com histórias
melosas". No Irã é bem pior. A tática que o
governo usa contra os intelectuais e escritores é difamá-los.
Há um programa na televisão chamado Identidade.
Nele, todos os intelectuais iranianos, tanto os que moram no país
como os que vivem no exterior, são chamados de traidores,
acusados de ter ligação com a CIA. Eu só os
ignoro. O que mais posso fazer?
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