Edição 1861 . 7 de julho de 2004

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Entrevista: Azar Nafisi
O véu é um inferno

A autora do best-seller Lendo Lolita
em Teerã
fala do terror imposto às
mulheres pelo fanatismo dos aiatolás


Gabriela Carelli


"A questão não é usar ou não o véu. É se a mulher tem o direito de escolha, se pode interpretar a religião como bem entender"

Nos últimos meses, a vida da iraniana Azar Nafisi, de 54 anos, deu uma reviravolta. Professora de literatura inglesa na Universidade Johns Hopkins, em Washington, ela foi promovida a celebridade das letras com seu livro Lendo Lolita em Teerã (A Girafa, 502 páginas, 58 reais), que será lançado no Brasil nesta semana. A obra está há 26 semanas no primeiro posto da lista de livros mais vendidos do jornal New York Times e é um retrato sensível – às vezes chocante – da situação das mulheres no Irã, submetidas ao fanatismo do regime islâmico. Esse drama é mostrado através da experiência de Nafisi e de sete de suas alunas da época em que ela lecionava na Universidade de Teerã. Por dois anos, desafiando a repressão do regime dos aiatolás, elas se encontraram semanalmente para discutir autores proibidos no país, como Henry James e Vladimir Nabokov. Nascida em Teerã, Nafisi deixou seu país aos 13 anos para estudar na Europa e nos Estados Unidos. Retornou ao Irã em 1979, logo após a Revolução Islâmica, e lá permaneceu por dezoito anos. Cansada de lutar contra a "atmosfera de terror", decidiu voltar para os EUA. "Para uma mulher, viver no Irã é comparável a fazer sexo com o homem que ela mais odeia, é um estupro dissimulado", diz Nafisi. De Washington, onde vive com o marido e os dois filhos, ela deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Por que os muçulmanos se preocupam tanto em cobrir o cabelo das mulheres?
Azar Nafisi – O objetivo é eliminar a personalidade da mulher. Ao colocar o véu, ela passa a fazer parte de uma massa padronizada, sem identidade. É uma forma de repressão psicológica. Nas últimas décadas, as mulheres se tornaram símbolos de abertura e de democracia. As mudanças mais importantes em termos de conquista de direitos foram femininas. Ao se tornarem mais visíveis, elas ganham maior controle sobre sua vida. Eis por que as sociedades autoritárias, principalmente nos países muçulmanos, sentem necessidade de conter as mulheres. As conquistas do feminismo, para os radicais islâmicos, são representações do imperialismo ocidental.

Veja – No passado, o cristianismo também relegou a mulher a papéis subalternos. Mas o mundo cristão evoluiu e se modernizou nesse aspecto. É possível modernizar o Islã?
Azar – Todas as religiões têm flexibilidade para mudar, inclusive o Islã. A questão é que o mundo islâmico está passando por uma crise cujo pivô é o fundamentalismo. Diferentemente do que possa parecer, o radicalismo não é uma tradição muçulmana, mas um fenômeno moderno. As outras religiões passaram por momentos de rigidez e intolerância similares aos que nós, muçulmanos, vivemos agora – e por isso se reformaram. O que se vê hoje em alguns países islâmicos é muito parecido com o que ocorreu com a Igreja Católica na Idade Média. Muitos muçulmanos querem uma mudança, uma abordagem mais moderna dos costumes religiosos. Mas esbarram na resistência daqueles que têm medo de um novo estilo de vida, do que pode acontecer, de tornar ainda pior o que já está ruim.

Veja – Muitas muçulmanas expressam a convicção de que o Islã é generoso e justo com as mulheres e que elas são mais felizes que as ocidentais. É possível que a maioria das muçulmanas esteja satisfeita com a situação?
Azar – Muitas muçulmanas, aquelas que não vivem sob tortura, têm uma vida agradável. O problema não é a religião, mas quando a religião se transforma em Estado, quando a religião vira lei. A submissão total e irrestrita nunca fez parte da cultura das mulheres do Irã. Tanto que houve muita resistência por parte delas. As ruas de Teerã se tornaram zonas de guerra. Mulheres enfrentaram guardas armados para poder se expressar. A questão não é usar ou não o véu. É se a mulher tem o direito de escolher, se pode interpretar a religião da forma que bem entender. Eu não gosto de usar véu, mas não digo que seja errado. Digo que não é certo impô-lo a todas. O problema atual não é a religião. É a liberdade de escolha.

Veja – Seu livro conta a história do Irã sob o comando dos aiatolás por meio das impressões de um grupo de mulheres que se reunia para discutir literatura. O que a motivou a montar esse grupo?
Azar – Formei-o depois de pedir demissão de meu cargo de professora de literatura inglesa na Universidade de Teerã. Havia chegado ao meu limite com as normas da revolução islâmica. As regras e imposições arbitrárias eram constantes. Nós, mulheres, entrávamos por uma porta especial e éramos revistadas diariamente. Os fiscais nos apalpavam para ver se portávamos maquiagem, tiravam nossas roupas. Alunas que subiam as escadas correndo ou riam nos corredores eram castigadas. Lecionar era uma tortura. Na sala de aula, tudo o que eu dizia e fazia era controlado. Além disso, vivíamos num ambiente hostil à literatura. As únicas obras consideradas importantes eram aquelas que manifestavam algum tipo de ideologia. O resto era conspiração. Tudo no Irã, até o menor gesto, era interpretado à luz da política vigente. Eu não podia abandonar a literatura, uma de nossas poucas formas de redenção. Chamei minhas alunas mais dedicadas, aquelas em que realmente confiava, para continuar as aulas em minha casa.

Veja – Por que a senhora considera a literatura uma forma de redenção?
Azar – Quando todas as possibilidades nos são tiradas, a menor das aberturas se transforma numa grande liberdade. O escritor russo Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, explica bem isso ao dizer que todo romance é um conto de fadas. As histórias sempre oferecem uma maneira de superar os limites. De certa forma, os contos de fadas, ou os romances, nos dão a liberdade que a realidade nos nega.

Veja – Como eram as reuniões do grupo?
Azar – Propus que estudássemos os autores na tentativa de encontrar nossa saída pessoal. As reuniões ocorreram por dois anos, todas as quintas-feiras de manhã. Duravam de três a sete horas. Algumas de minhas alunas mentiam para os familiares para poder comparecer a elas, outras se intimidavam porque aquilo que eu estava promovendo era contra a lei. Mas nunca, durante esse período, elas deixaram de aparecer. Era naquela sala de estar que tirávamos nosso véu, escapávamos dos olhos dos aiatolás, redescobríamos nossa identidade. Não importava o regime nem o medo que sentíamos. Criávamos nosso pequeno oásis de liberdade, assim como fazia a personagem Lolita, de Nabokov.

Veja – Por que Lolita foi o livro mais discutido durante esses encontros?
Azar – Geralmente as pessoas acham que escolhemos Lolita, cuja narrativa trata da relação proibida entre um homem maduro e uma criança, porque vivíamos numa sociedade reprimida sexualmente. Não foi por isso. Na verdade, na literatura de ficção, o romance de Nabokov é uma das representações que mais se aproximam do regime totalitário em que vivíamos. Vai muito além de 1984, de George Orwell, que se tornou um símbolo do autoritarismo. Mais do que expor a dor física e a tortura das ditaduras, Nabokov transmite em Lolita como é apavorante viver num estado de terror permanente. A tragédia maior da história não é o estupro de uma menina de 12 anos por um senhor, mas o confisco de uma vida individual por outra. Lolita é uma menina que não tem para onde ir. Ela depende de Humbert, o personagem que faz de tudo para possuí-la, tenta transformá-la em sua fantasia, em seu amor, mas a destrói. Ela satisfaz os desejos dele porque não há outra saída, porque sempre é levada a crer que será recompensada. Ela é o tipo de pessoa que não pode articular a própria história. Assim é a vida numa sociedade totalitária. Um mundo de solidão, em que o Estado é o salvador e o carrasco.

Veja – Por que a senhora decidiu voltar ao Irã logo após a revolução dos aiatolás, depois de dezessete anos vivendo no exterior?
Azar – Assim como vários iranianos que viviam fora, eu estava feliz com as notícias de mudanças. Sob o regime do xá, que perdurou por mais de 25 anos, vivíamos sob uma ditadura política, e queríamos derrotá-la. Acreditávamos que a revolução para instaurar a teocracia seria um bom caminho. Queríamos mais direitos, e não menos. Tanto para quem estava fora como para quem vivia no Irã, a revolução foi bem-vinda. Levamos um choque quando soubemos de suas características, quando percebemos que a ditadura política avançou, minou a vida das pessoas, transformou-se numa forma de aniquilar a individualidade e os direitos dos cidadãos. Ninguém tinha a dimensão do pesadelo que estava por vir.

Veja – O que havia mudado na vida das mulheres iranianas à época de seu retorno ao país, em 1979?
Azar – A idade mínima para o casamento passou de 18 para 9 anos. O apedrejamento até a morte se tornou o castigo para o adultério e a prostituição. Nos ônibus, adotou-se a segregação. Destinaram-se às mulheres a porta traseira e os assentos no fundo do veículo. Até pouco tempo atrás, as ruas de Teerã e de outras cidades eram patrulhadas por milícias formadas por homens armados, chamados de Sangue de Deus. Eles tinham como obrigação assegurar o bom comportamento das mulheres. Um vestígio de maquiagem, uma mecha de cabelo para fora do véu e eles vinham, implacáveis. Prendiam-nos, arremessavam-nos para dentro de carros, deixavam-nos em prisões imundas, chicoteavam-nos. Por fim, jogavam-nos nas ruas. A situação era pior para as solteiras. Muitas de minhas alunas tiveram de passar por coisa pior, como o teste de virgindade. Não havia nada mais humilhante e nojento do que aquilo, feito em qualquer lugar, sem nenhuma assepsia, a qualquer hora. Quantas jovens não foram presas e chicoteadas só porque, sem querer, cruzaram o olhar com o de um guarda?

Veja – A situação das mulheres no Irã melhorou com a eleição do presidente Khatami?
Azar – Só na aparência. Desde que o reformista Khatami derrotou um aiatolá em 1997, o governo iniciou o que chamamos de abertura de fachada. Para acalmar a população, as autoridades fazem vista grossa a determinadas atitudes, evitam entrar em conflito. Hoje, nas ruas, as mulheres podem usar véu colorido e batom. Camelôs vendem CDs pirateados de cantores americanos. Mas nada disso mudou a concepção do governo. As leis continuam as mesmas. Ainda se apedrejam até a morte mulheres que caem na prostituição ou traem o marido. Os carros da Sangue de Deus, antes presentes em todos os lugares, são mais raros. O que não impede que patrulhas armadas abordem mulheres por achar que elas estão desrespeitando a religião. Na verdade, quem controla o país é o Conselho dos Guardiães, formado por aiatolás. Eles apenas se disfarçaram. Não se sabe por quanto tempo.

Veja – É possível democratizar o Islã?
Azar – O fundamentalismo islâmico é fraco. Quando a única arma de um Estado é a violência extrema, ele se debilita. A sociedade abaixa a cabeça por determinado tempo, mas não para sempre. Parece contraditório, mas esses regimes, ao ditar suas regras, ao impor um Islã que não é verdadeiro, aumentam o questionamento das pessoas sobre o que é certo ou não. É o que tem ocorrido em meu país. No Irã, a busca pela democratização é ainda maior por causa da nova geração, as chamadas crianças da revolução. Os jovens nunca desfrutaram a liberdade que tivemos. Eles a desejam mais do que qualquer coisa. Não concordam com tudo o que é ocidental, mas no fundo querem viver o sonho americano. Quando jovem, eu era muito mais crítica ao Ocidente. Para essa geração, tudo o que se relaciona com a América parece bom.

Veja – Qual a situação atual das universidades iranianas?
Azar – Ainda existe repressão, mas as universidades são os maiores pólos do movimento democrático. Principalmente porque lá estão esses jovens descontentes, que não vislumbram nenhum futuro. Eles têm muito menos a perder que seus pais. Outra coisa importante é que, por mais que haja controle no que se ensina a esses jovens, pela internet eles têm acesso a literatura, a ensaios. Eles podem ser proibidos de ler Nabokov, mas vão achar seus livros nos sites de busca.

Veja – A impressão que se tem é que essas manifestações pela democracia são fracas, desorganizadas, sem poder de fogo para competir com a força do Islã radical.
Azar – É um erro achar isso. O que ocorre é que as vozes da violência são muito mais ouvidas que as da razão. As pessoas que estão lutando contra o terror de forma coerente não saem gritando nem fazem gestos espetaculares. Até porque seriam reprimidas. Em todo o mundo islâmico há gente questionando a situação, achando que o radicalismo e a coerção não representam o melhor caminho. O problema é que as vozes dos homens-bomba repercutem de forma muito mais estrondosa. A impressão que se tem é que existem poucas vozes contrárias a esse tipo de coisa, mas são muitas. Vários de meus alunos que apoiavam a teocracia hoje estão presos porque defendem um estado secular.

Veja – Os aiatolás iranianos dizem que seu livro é uma conspiração sionista apoiada pelos americanos. Como a senhora avalia essas críticas?
Azar – Muitos amigos me contaram que o livro é sucesso no Irã, que as pessoas fazem cópias xerox para conseguir lê-lo. Os fanáticos, não importa o que eles defendem, estão sempre prontos para criticar, tanto aqui como lá. Quando viram as fotos que fiz para a campanha publicitária da Audi, os americanos que segregam os muçulmanos disseram: "Olha lá, ela ganhou milhões de dólares, e também ganha dinheiro com histórias melosas". No Irã é bem pior. A tática que o governo usa contra os intelectuais e escritores é difamá-los. Há um programa na televisão chamado Identidade. Nele, todos os intelectuais iranianos, tanto os que moram no país como os que vivem no exterior, são chamados de traidores, acusados de ter ligação com a CIA. Eu só os ignoro. O que mais posso fazer?

 
 
 
 
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