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Em
foco: Gustavo Franco
Os dez anos
do Plano Real
"No Brasil, a história
parece meio acelerada
mesmo, o mato cresce e encobre tudo o que
fica parado, ainda mais durante dez anos. A
lembrança da hiperinflação vai esmaecendo,
não há monumento em homenagem aos que
tombaram durante os pacotões ou
às suas vítimas"
O leitor deve estar cansado de retrospectivas
do Plano Real. Dez anos é uma extraordinária marca,
merece uma comemoração, mas não vamos esquecer
que no fim do terceiro ano a inflação já estava
perto de zero, ou seja, o plano de estabilização,
estritamente falando, já tinha terminado. Na altura do quinto
ou sexto ano, os aniversários do Real tinham perdido a graça.
Eram solenidades meio sem assunto e de pouco público, missas
com a igreja vazia, apenas para meia dúzia de nostálgicos
senhores portadores da sagrada missão de manter viva a memória
da hiperinflação.
É curioso que se tente diminuir a gravidade
do problema que tivemos muita gente se recusa a admitir que vivemos
a híper ou que haja empenho em apagar esse triste episódio
de nossa história. Tudo porque esse reconhecimento ajuda
o trabalho de firmar a supremacia do pensamento ortodoxo e sobretudo
de sepultar cada vez mais fundo o desenvolvimentismo inflacionista,
mesmo que ainda não inteiramente morto.
No Brasil, a história parece meio acelerada
mesmo, o mato cresce e encobre tudo o que fica parado, ainda mais
durante dez anos. A lembrança da hiperinflação
vai esmaecendo, não há monumento em homenagem aos
que tombaram durante os pacotões ou às suas vítimas.
Quem sabe a Rodovia Transamazônica, ou mesmo Brasília,
ou talvez um certo prédio negro na Avenida Paulista não
poderiam servir?
A índole brasileira parece inconsistente
com a preservação da memória sobre os nossos
piores momentos e sempre desloca as atenções para
o futuro, sempre o futuro brilhante que o destino nos reserva, e
assim, através do inocente e engenhoso artifício de
esquecer o retrovisor, deixamos de consagrar em nossas leis e instituições
algumas duras lições sobre economia, coisas óbvias
como a inexistência de almoço grátis ou que
os orçamentos têm de ser equilibrados.
É preciso não se esquecer da
híper, pois a falta de memória tem os efeitos que
se conhece. Faz umas poucas semanas, esteve entre nós o ex-presidente
dos Estados Unidos Bill Clinton, que disse a propósito de
seu país algo que serve talvez melhor para nós: o
Brasil sempre faz a coisa certa, mas nunca antes de esgotar todas
as outras possibilidades.
No terreno dos planos econômicos parece
que tentamos tudo o que havia para experimentar antes de admitir
que coisas simples, como responsabilidade fiscal e moeda sadia,
eram essenciais para a vida econômica inteligente. Nossas
instituições no domínio fiscal e monetário
são frágeis e recentes. A vida inteira fomos o país
da jabuticaba, onde a inflação é "neutra",
o déficit público não tem importância
e as leis não colam; um dia isso tinha de acabar.
Nosso Banco Central foi criado apenas em 1965,
e pela ditadura, depois de vinte anos de "preparativos" e de sabotagem
por parte do Banco do Brasil. Mas apenas em 1986, com o fim da chamada
"conta movimento" (que tornava o BB uma empresa "coligada" ao BC)
e em meio a uma revolta de funcionários do BB, passamos a
ter um BC convencional. Fizemos alguns notáveis progressos
com as leis do Real em 1994 e 1995, mas já se passaram dezesseis
anos sem a regulamentação do artigo 192 da nossa Constituição.
No campo das finanças públicas,
há muitas ilusões sobre a Lei de Responsabilidade
Fiscal, que é importantíssima, mas não tem
toda a força que gostaríamos que tivesse e está
longe de ser consolidada. Os avanços aqui foram pequenos,
pois estamos no coração do monstro, no interior das
comissões de orçamento, para entrar nas quais toda
esperança deve ser abandonada. Nossas práticas orçamentárias,
ao contrário do que se passa em democracias maduras, não
oferecem uma arena institucional em que se possam fazer consistentes
desejos (gastos) e possibilidades (impostos).
É indiscutível que o inflacionismo
perverteu nossas práticas e instituições orçamentárias
e monetárias, e que apenas recentemente começamos
a adotar paradigmas que o mundo desenvolvido conhece desde o século
XIX. Nessas áreas o Brasil não é apenas um
gigante de pés de barro, mas um com ridículas calças
curtas.
Gustavo Franco é
economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com;
www.gfranco.com.br)
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