Edição 1959 . 7 de junho de 2006

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Zona de Risco: tensão e lirismo na fronteira entre as duas Coréias


Zona de Risco
(Joint Security Area,
Coréia do Sul, 2000. Europa) – Na zona desmilitarizada entre as duas Coréias, um incidente acirra a tensão. Um sargento sul-coreano diz que foi seqüestrado e levado até o posto fronteiriço do inimigo, onde teve de matar dois dos três soldados que o ameaçavam para escapar. O norte-coreano sobrevivente alega que o adversário é que invadiu seu posto atirando. Uma investigadora neutra é chamada para deslindar o impasse – e encontra uma história não de hostilidade, mas de profunda amizade. Conhecido pelo violento Oldboy, o diretor Chanwook Park trata aqui com dramaticidade impecável do rompimento que se impôs aos coreanos no último meio século, e faz por esse país dividido mais ou menos aquilo que Wim Wenders fez pela Berlim do Muro em Asas do Desejo: mostrar o que há de lírico e pessoal onde todos só enxergam o político. Veja cenas.

O Escondido (The Hidden, Estados Unidos, 1987. PlayArte) – O começo sugere que esse é um típico filme de ação dos anos 80: um sujeito assalta um banco, mata indiscriminadamente e foge numa Ferrari, sem dar a mínima para os balaços que os policiais disparam contra ele. Logo, porém, o segredo de tanta disposição se revela. O assaltante não passa de um hospedeiro para um alienígena, que se transfere de um corpo para outro com uma velocidade que detetive nenhum é capaz de acompanhar. Por sorte, um estranho agente do FBI (Kyle MacLachlan), que parece ter o dom de adivinhar quais os próximos passos da criatura, oferece seus préstimos. Dirigido pelo de resto inexpressivo Jack Sholder, O Escondido é barato, enxuto e muito divertido. Merece com todas as honras sua reputação de clássico B.

 

DISCOS

Flat-Pack Philosophy, Buzzcocks (Deckdisc) – O quarteto inglês é a prova de que os punks também eram sujeitos sensíveis. Surgido em Manchester, o Buzzcocks se destacava pelas letras quase-românticas do guitarrista e vocalista Pete Shelley. Uma amostra desse viés é Even Fallen in Love, canção que estourou nas paradas dos anos 80 ao ser regravada pelo grupo pop Fine Young Cannibals. A primeira encarnação do Buzzcocks durou de 1975 a 1981. Oito anos depois, Shelley e o guitarrista Steve Diggley retomaram a carreira para lançar discos com a mesma energia, mas agora temperados pela maturidade. Se antes Shelley falava de amor como um adolescente, hoje ele discorre sobre as dores adultas. Reconciliation e I've Had Enough, duas das melhores faixas do CD, são exemplos desse avanço lírico.

The Shine of Dried Electric Leaves, Cibelle (ST2) – Radicada em Londres, a cantora paulista Cibelle segue a cartilha de intérpretes como Bebel Gilberto e Fernanda Porto, lançando mão de ritmos e barulhinhos eletrônicos para rejuvenescer a MPB. O que a diferencia das colegas, no entanto, é que Cibelle deu um passo adiante ao trocar o surrado repertório da bossa nova pelos ícones do tropicalismo. Shine of Dried Electric Leaves tem participação do guitarrista Lanny Gordin, que tocou nos álbuns mais simbólicos daquele período, além de duas regravações de Caetano Veloso, para Cajuína e London, London – esta última com participação especial do cantor e hippie de butique Devendra Banhart. De voz pequena porém delicada, Cibelle interpreta ainda músicas próprias, como City People.

 

LIVROS

 

Houghton Miflin/AP

Philip Roth: o sexo e a velhice vistos com ironia

 

O Animal Agonizante, de Philip Roth (tradução de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras; 128 páginas; 29 reais) – Na trilogia formada pelos romances Pastoral Americana, Casei com um Comunista e A Marca Humana, Philip Roth montou um corrosivo painel da sociedade americana das últimas décadas. O Animal Agonizante veio logo em seguida. Embora seja uma obra menos ambiciosa, é uma bela amostra do estilo incisivo e irônico com que Roth desvenda a sexualidade de seus personagens. A narrativa acompanha a velhice do professor aposentado David Kepesh, personagem que Roth já usou em livros dos anos 70. Depois de uma vida inteira de casos ligeiros com alunas bem mais jovens do que ele, Kepesh tem uma relação intensa com uma rica e sensual filha de imigrantes cubanos. Leia trecho.

Os Animais de Todo Mundo, de Jacques Roubaud (tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar; Cosac Naify; 152 páginas; 35 reais) – O poeta francês Jacques Roubaud fez parte do OuLiPo, um dos mais originais grupos de vanguarda da literatura de seu país nos anos 60. Dirigido às crianças, esse livro é um pequeno bestiário, com poemas dedicados aos mais diversos animais, de gatos e vacas a texugos e mangustos. Matemático de formação, Roubaud gosta de brincar com os números – aqui, por exemplo, ele joga com os catorze versos que formam o soneto tradicional para compor formas poéticas inovadoras. Em edição bilíngüe, o livro traz ainda uma carta na qual o autor explica a composição de seus poemas a um ouriço. Leia trecho.

 

Lemyr Martins

Pelé: relato sem surpresas de uma brilhante carreira esportiva

 

Pelé – A Autobiografia, de Pelé (tradução de Henrique Amat Rêgo Monteiro; Sextante; 298 páginas; 29,90 reais) – "Posso dizer que sou um homem feliz", diz Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, na primeira frase do prefácio dessa autobiografia. Editado originalmente na Inglaterra, o livro não traz grandes surpresas ou revelações para o leitor brasileiro. Mas é uma boa reconstituição de uma das mais brilhantes trajetórias esportivas do século XX. Nascido em uma casa humilde em Três Corações, em Minas Gerais, Pelé se tornaria o maior ícone do futebol mundial. Do início da carreira no Santos à experiência como ministro dos Esportes, das três vitórias em Copas do Mundo ao traumático envolvimento de seu filho Edinho com as drogas, Pelé cobre aqui os principais momentos de sua vida.

 

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Fnac, Nobel; Rio: Travessa, Saraiva, Laselva, Sodiler, Argumento; Porto Alegre: Saraiva, Cultura; Brasília: Sodiler, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Saraiva, Cultura; Florianópolis: Livrarias Catarinense; Goiânia: Saraiva, Leitura; Fortaleza: Laselva; Curitiba: Saraiva, Livrarias Curitiba; Londrina: Livrarias Porto; Belo Horizonte: Leitura; Maceió: Sodiler; Belém: Clio; Vitória: Leitura; Campo Grande: Leitura; internet: Cultura, Laselva, Leitura, Nobel, Saraiva, Fnac, Sodiler, Submarino.
 
 
 
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