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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
DUAS SENHORAS
As histórias exemplares da mulher
que defende o bandido e da mulher
que comprava ambulâncias
São duas senhoras entradas
nos 50, com jeito de boas tias, ou de devotadas patronesses de bazares
beneficentes. Uma delas apareceu na televisão, um dia desses,
dizendo, num tom sofrido: "O Marcola? O Marcola é uma espécie
de Jesus. Não faz nada, e apanha de todo lado". A outra tem
sido vislumbrada brevemente ao ser transportada da prisão
à Polícia Federal, para prestar depoimento. Ela está
implicada no escândalo das ambulâncias, também
conhecido como escândalo das sanguessugas. As duas, ambas
de nome Maria, ilustram, cada uma de seu lado, facetas típicas
do período que o país atravessa.
A primeira é Maria Cristina
Rachado. É a advogada flagrada quando comprava de um técnico
de som os depoimentos secretos de dois delegados da polícia
paulista na CPI do Tráfico de Armas da Câmara dos Deputados.
Segundo ficou escancarado a partir desse episódio, ela advoga
em favor de Marcola, o bandido tornado famoso desde a explosão
de violência ocorrida em São Paulo. Maria Cristina
Rachado estava na sala onde se realizaria a sessão da CPI
em que deporiam os dois delegados. Ao lado dela, sentava-se outro
advogado, Sérgio Weslei da Cunha. Ao notarem a presença
deles, os delegados, que sabiam se tratar de advogados de bandidos,
pediram que a sessão fosse secreta. Assim foi feito, com
a retirada do público da sala. Terminada a sessão,
Maria Cristina e Sérgio Wesley subornaram (por 200 reais)
o técnico de som encarregado de gravar os depoimentos e conseguiram
dele uma cópia da gravação.
Isso foi só para refrescar
a memória. O que se quer enfatizar aqui é o seguinte:
Maria Cristina Rachado é casada com um delegado da polícia
de São Paulo, José Augusto Rachado. Qual seja: a advogada
do bandido número 1 do estado, tido como chefe supremo da
organização criminosa/terrorista conhecida pela sigla
PCC, partilha a casa, o leito e a vida com um agente da lei. Mas,
vamos lá, nem bem esse é o ponto principal a enfatizar.
O principal é que os dois delegados presentes à CPI,
Godofredo Bittencourt e Ruy Ferraz Fontes, sabiam que Maria Cristina
Rachado era advogada do bandido, tanto que pediram sua retirada
da sala. Também sabiam que ela era casada com um delegado.
Isso significa que era voz corrente, na polícia paulista,
que uma mulher de delegado advogava para o mais graduado bandido
do estado. E tudo bem? Mais recentemente, quando se soube que o
delegado Rachado andou agindo em favor do advogado Sérgio
Weslei, Rachado foi suspenso de suas funções, até
que se apure o caso. Mas isso foi só recentemente. Durante
um bom tempo, o casal Rachado atuou com desenvoltura, cada um em
seu campo, em tese um a favor e o outro contra o bandido. E tudo
bem? Tudo bem?
A segunda senhora é Maria
da Penha Lino, ex-assessora do ministro da Saúde encarregada
de liberar as verbas para a aquisição de ambulâncias
que, entre outros benefícios, rendiam uns trocados ao bolso
de parlamentares. Uma empresa de Mato Grosso, a Planam, dedicada
à venda de ambulâncias, fazia a intermediação
entre municípios interessados em obtê-las e parlamentares
que, por meio de emendas ao Orçamento, destinariam verbas
federais para comprá-las. Maria da Penha, trabalhando diretamente
com o ministro, liberava o dinheiro. As ambulâncias saíam
a preços superfaturados, de modo a fazer sobrar algum para
a Planam e algum para o parlamentar autor da emenda.
Isso foi também para recapitular.
O ponto, aqui, são os caminhos que levaram Maria da Penha
Lino, sem a qual nada feito para os negócios da quadrilha,
a implantar-se na ante-sala do ministro. O ministro, na época
da nomeação dela, era Saraiva Felipe, deputado mineiro
ungido na cota do PMDB. Ele diz que não escolheu Maria da
Penha. Apenas atendeu a um pedido irrecusável do líder
do PMDB na Câmara, Wilson Santiago. Wilson Santiago, por sua
vez, diz que atendeu a um pedido irrecusável do deputado
José Divino, destacado membro da bancada evangélica.
Agora, note-se o seguinte: o último cargo de Maria da Penha,
antes do ministério, foi na Planam. A mesma Planam que, segundo
as investigações da Polícia Federal, arquitetou
e comandou toda a negociata.
Mesmo admitindo-se, com boa vontade,
que nenhum dos três personagens que empurraram um para o outro
o ônus da indicação de Maria da Penha conhecesse
os duvidosos procedimentos da Planam, temos a situação
seguinte: a funcionária de uma empresa que vende ambulâncias
troca o emprego pelo posto no governo que compra ambulâncias.
E tudo bem? Tudo bem? Esse é o primeiro ponto. Outro ponto
é que a articulação para a nomeação
de Maria da Penha passa por um ministro e pela liderança
do PMDB na Câmara. Ou seja, por altos escalões do partido.
E tudo bem? Bom, claro que tudo bem. Tanto que o PMDB é cortejado
seguidamente pelo próprio presidente Lula, interessado em
integrá-lo à sua campanha reeleitoral. As duas Marias
protagonizam histórias que contam, com boa ênfase e
exemplares enredos, o que já se sabia, ou seja: que este
é o país do tudo bem. Se é assim, então...
então o quê? Então, tudo bem.
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