Edição 1959 . 7 de junho de 2006

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Cinema
Los Angeles nua e crua

No belo Pergunte ao Pó, o
diretor Robert Towne mostra
o mundo do qual o noir nasceu


Isabela Boscov

DA INTERNET
Trailer do filme

Roteirista de Uma Rajada de Balas e de Chinatown, o americano Robert Towne é uma lenda viva – não só pela maestria revelada na escrita desses filmes, mas porque, como calha de acontecer com as lendas, seu melhor trabalho ficou no passado. Seus scripts mais recentes, como os de A Firma e dos dois primeiros Missão: Impossível, certamente não teriam conferido a ele tamanha reputação: embora não lhes falte artesania, eles carecem da marca pessoal que identifica os verdadeiros criadores. O Towne dos bons tempos, porém, está de volta em Pergunte ao Pó (Ask the Dust, Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país. Baseado no livro homônimo do escritor John Fante (1909-1983), pelo qual havia décadas Towne nutria algo próximo da obsessão, ele acompanha a jornada californiana do jovem Arturo Bandini (Colin Farrell), que batuca em sua máquina de escrever reflexões curtas e duras sobre os outros tipos que, como ele, se encontram aprisionados na rede de sonhos falsos com que a Los Angeles dos anos 30 (e a de qualquer década, aliás) atraía perdedores, desvalidos e deslumbrados.

Bandini escreve sobre a rígida dona de sua pensão (Eileen Atkins), que enche a casa de toalhinhas rendadas para manter a ilusão de que continua na sua costa leste natal; sobre seu velho vizinho de quarto (Donald Sutherland), que todos os dias lhe toma um níquel para soçobrar na bebida; sobre o barman de uma taverna (o notável Justin Kirk), que tem o hábito curioso de descrever as mulheres com metáforas eqüestres; e principalmente sobre Camilla (Salma Hayek), a garçonete mexicana com quem ele mantém um relacionamento temperado em partes iguais pela paixão e pelo ódio. Bandini, como revela seu sobrenome, é descendente de italianos, mas está na fase final de sua transição para a, digamos, americanidade. Cada vez que põe os olhos em Camilla, enxerga não apenas suas curvas, mas também o despudor do imigrante que quer se confundir com os nativos e ser assimilado. É um espelho e tanto, e Bandini não gosta do que vê nele.

Os admiradores leais do livro de Fante talvez se irritem com a guinada romântica que a certa altura o filme impõe a Bandini e Camilla – a qual, de fato, tira da história algo de seu fôlego. Mas as qualidades do trabalho do diretor e roteirista são tantas, e tão superlativas, que ele merece um bom desconto por essa escolha. Towne é um mestre nas regras do noir. Mais do que isso, ele conhece a fundo o ambiente do qual o noir nasceu, e no qual Fante transitava: uma Los Angeles em cabo-de-guerra entre a euforia e a depressão, na qual tudo parecia possível e na qual, ao mesmo tempo, tudo terminava mais cedo ou mais tarde em dissolução ou derrota. Towne conhece na pele esses extremos – e essa é uma força que defeito nenhum pode tirar desse seu belo filme.

 

 
 
 
 
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