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Cinema Los
Angeles nua e crua No belo Pergunte ao Pó,
o diretor Robert Towne mostra o mundo do qual o noir nasceu 
Isabela Boscov
Roteirista de Uma Rajada de Balas
e de Chinatown, o americano Robert Towne é uma lenda viva
não só pela maestria revelada na escrita desses filmes, mas porque,
como calha de acontecer com as lendas, seu melhor trabalho ficou no passado. Seus
scripts mais recentes, como os de A Firma e dos dois primeiros Missão:
Impossível, certamente não teriam conferido a ele tamanha reputação:
embora não lhes falte artesania, eles carecem da marca pessoal que identifica
os verdadeiros criadores. O Towne dos bons tempos, porém, está de
volta em Pergunte ao Pó (Ask the Dust, Estados Unidos,
2006), que estréia nesta sexta-feira no país. Baseado no livro homônimo
do escritor John Fante (1909-1983), pelo qual havia décadas Towne nutria
algo próximo da obsessão, ele acompanha a jornada californiana do
jovem Arturo Bandini (Colin Farrell), que batuca em sua máquina de escrever
reflexões curtas e duras sobre os outros tipos que, como ele, se encontram
aprisionados na rede de sonhos falsos com que a Los Angeles dos anos 30 (e a de
qualquer década, aliás) atraía perdedores, desvalidos e deslumbrados.
Bandini escreve sobre a rígida
dona de sua pensão (Eileen Atkins), que enche a casa de toalhinhas rendadas
para manter a ilusão de que continua na sua costa leste natal; sobre seu
velho vizinho de quarto (Donald Sutherland), que todos os dias lhe toma um níquel
para soçobrar na bebida; sobre o barman de uma taverna (o notável
Justin Kirk), que tem o hábito curioso de descrever as mulheres com metáforas
eqüestres; e principalmente sobre Camilla (Salma Hayek), a garçonete
mexicana com quem ele mantém um relacionamento temperado em partes iguais
pela paixão e pelo ódio. Bandini, como revela seu sobrenome, é
descendente de italianos, mas está na fase final de sua transição
para a, digamos, americanidade. Cada vez que põe os olhos em Camilla, enxerga
não apenas suas curvas, mas também o despudor do imigrante que quer
se confundir com os nativos e ser assimilado. É um espelho e tanto, e Bandini
não gosta do que vê nele.
Os admiradores leais do livro de Fante talvez se irritem com a guinada romântica
que a certa altura o filme impõe a Bandini e Camilla a qual, de
fato, tira da história algo de seu fôlego. Mas as qualidades do trabalho
do diretor e roteirista são tantas, e tão superlativas, que ele
merece um bom desconto por essa escolha. Towne é um mestre nas regras do
noir. Mais do que isso, ele conhece a fundo o ambiente do qual o noir nasceu,
e no qual Fante transitava: uma Los Angeles em cabo-de-guerra entre a euforia
e a depressão, na qual tudo parecia possível e na qual, ao mesmo
tempo, tudo terminava mais cedo ou mais tarde em dissolução ou derrota.
Towne conhece na pele esses extremos e essa é uma força que
defeito nenhum pode tirar desse seu belo filme. |