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Televisão "Cansei
de ser assistente" Por treze anos,
Tiago Santiago foi do segundo time de autores da Globo. Na Record, ele
é rei  Marcelo
Marthe Selmy
Yassuda
 | | Tiago
Santiago: 170 000 reais de salário mensal e linha direta com os bispos da Record
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Há duas semanas,
o noveleiro Tiago Santiago reuniu-se com o bispo Honorilton Gonçalves,
superintendente da Rede Record. Eles trataram do destino de uma dupla de personagens
do folhetim Prova de Amor, criado por Santiago. O autor, que há
pouco bolou um recurso inédito no gênero ao conceber um capítulo
interativo no qual os espectadores puderam votar sobre os rumos da trama, pretendia
fazer uma nova consulta, dessa vez sobre a relação da assistente
social Janice (Fernanda Nobre) com a aspirante a escritora Raquel (Maria Ribeiro).
A audiência escolheria se a intimidade entre ambas terminaria por desembocar
num romance lésbico, com direito a beijo. O bispo demoveu Santiago da idéia.
"Havia sempre o risco de o público votar 'sim', o que seria impróprio
para o horário", diz o autor. Nos bastidores, sabe-se que não se
trata de mera questão de classificação etária. Nas
bases da Igreja Universal do Reino de Deus, dona da emissora, há quem pressione
contra a violência e as cenas sensuais dos folhetins da casa e beijo
lésbico já seria demais. "Tudo bem: vou tratar a amizade delas apenas
como um caso de amor espiritual. Mas voltarei ao tema gay em outra novela", diz
Santiago. O episódio dá
uma idéia do status conquistado pelo noveleiro: além de autor, Santiago
tornou-se o principal consultor da cúpula da emissora para tudo o que diz
respeito à teledramaturgia. Nada mau para alguém que esteve fadado
ao segundo escalão por mais de duas décadas. Nos anos 80, ele tentou,
em vão, emplacar como ator. Participou de novelas e séries da Globo,
mas sempre em papéis sofríveis. "Cansei de interpretar jovens chatos
que atrapalham o namoro dos outros", diz. Santiago se saía melhor em outra
função a de contador de histórias. Começou
escrevendo para teatro, depois passou a roteirizar especiais da Globo e, em 1991,
entrou para a equipe de autores de novelas da emissora. Mas nunca saiu do segundo
time: por treze anos, atuou apenas como assistente de nomes consagrados. A situação
mudou em 2004, quando os bispos da Record lhe estenderam a mão. Seduzido
pela possibilidade de ser o roteirista da versão da emissora para A
Escrava Isaura, Santiago trocou de emprego. "Cansei de ser um eterno assistente.
Prefiro ser o primeiro na Record a ser o vigésimo na Globo", diz. Divulgação
 | | As
"quase" lésbicas Janice e Raquel: é só amor espiritual, claro
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O sucesso de Prova de
Amor elevou o cacife de Santiago à estratosfera. Com 19 pontos de média,
a atração tornou-se a principal arma da emissora dos bispos contra
o SBT de Silvio Santos, na disputa pela vice-liderança de ibope no horário
nobre. A novela acaba em julho, mas a Record planeja dar-lhe uma sobrevida, transformando-a
numa série de ação. Em maio, o folhetim alcançou um
faturamento recorde para a emissora: 15 milhões de reais, entre venda de
anúncios e merchandising. Santiago tira seu naco disso. Ele chegou à
Record com um salário de 25.000 reais. Duas renovações de
contrato depois, ostenta renda de noveleiro de primeira linha da Globo. "Ganho
tanto quanto o Gilberto Braga", afirma. Graças a uma cláusula que
o premia com aumentos a cada ponto ganho no ibope, ele hoje embolsa até
170.000 reais por mês. Aos 43 anos, solteirão convicto e surfista
diletante ("Só pego marolas"), ele acaba de comprar um apartamento de 450.000
reais com vista para o mar no Rio de Janeiro.
Para além da tentativa de romance lésbico, Prova de Amor recicla
outros expedientes das tramas da Globo. Santiago recorre, por exemplo, ao merchandising
social das novelas de Glória Perez. Mas o aprendiz superou de longe sua
mentora: já abraçou pelo menos duas dúzias de "boas causas".
Todos os dias, os personagens dão lições sobre temas como
a depressão pós-parto, a dengue e a exploração sexual
de menores. Santiago não se importa de ser criticado pelo excesso de didatismo.
"Ponho merchandising mesmo. A população brasileira precisa, pois
é muito carente", diz. Prova de Amor veicula, ainda, mensagens contra
a impunidade. E isso se deve a outro ponto em comum com Glória Perez: assim
como ela enfrentou o assassinato da filha, a atriz Daniella Perez, Santiago viveu
uma tragédia familiar. Em 2002, seu irmão de 18 anos foi morto a
facadas em Brasília. Revoltado com o fato de que o jovem condenado pelo
crime se beneficiou do regime semi-aberto depois de cumprir apenas quatro dos
dezenove anos e meio de pena, o autor faz campanha por uma mudança na legislação
para crimes violentos. Santiago é
sociólogo e já se aventurou na literatura: publicou uma novela inspirada
na vida de São Francisco. "Sou fascinado por sua capacidade de se entregar
ao próximo", declara. Não deixa de ser irônico que o mesmo
autor que se diz um "ecumênico espiritualista" se destaque
numa emissora na qual um dia já se chutou a imagem de uma santa. "Não
pago dízimo para a Universal", diz. Pode até ser, mas o fato é
que a trama de Prova de Amor tem contornado certos pontos delicados. Os
três casamentos mostrados até agora, por exemplo, ocorreram numa
praia, num jardim e dentro de casa nunca numa igreja. "Fiz desse jeito
porque acho lindo", diz Santiago.
Enquanto isso, na outra novela... Divulgação
 | | Cidadão
Brasileiro: procuram-se crianças, jovens
e bichos |
Além
de escrever Prova de Amor, Tiago Santiago atua como intermediário
da Record em seu assédio aos noveleiros da Globo. Ele ajudou a emissora
a conquistar seu maior troféu: Lauro César Muniz. Enquanto a novela
de Santiago vai bem, contudo, a de Muniz nem tanto. Estacionada no patamar dos
12 pontos no ibope desde seu início, Cidadão Brasileiro até
que não faz feio para quem bate de frente com a novela das 8 da Globo.
Mas os bispos da Record sonhavam em obter bem mais: entre 15 e 20 pontos de média.
Por isso, está em curso uma operação para corrigir sua rota.
Semanas atrás, isso gerou uma vítima: depois de acumular desentendimentos
com atores, técnicos e o autor, o diretor Flávio Colatrello afastou-se
da novela. A cúpula da emissora irritava-se com a insistência dele
em manter uma iluminação cheia de sombras. Mas sua saída
não resolveu todos os problemas. Avalia-se que a trama precisa de mais
ritmo e agilidade. E detectaram-se falhas que dificultam a identificação
da platéia com a história. Não há um núcleo
infantil e faltam romances juvenis os galãs são maduros ou
estão envolvidos com figuras mais velhas, como é o caso dos personagens
de Bruno Ferrari e Luiza Tomé. Para completar, embora a primeira fase da
saga de época se passe numa região rural, não há animais
em cena, apesar de bichos serem comprovadamente chamarizes de audiência.
"Para quem se propõe a fazer um folhetim realista, esses pecados são
fatais", observa um especialista. | | |