Edição 1959 . 7 de junho de 2006

Índice
Millôr
Stephen Kanitz
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja.com
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Televisão
"Cansei de ser assistente"

Por treze anos, Tiago Santiago
foi do segundo time de autores
da Globo. Na Record, ele é rei


Marcelo Marthe

 

Selmy Yassuda
Tiago Santiago: 170 000 reais de salário mensal e linha direta com os bispos da Record

Há duas semanas, o noveleiro Tiago Santiago reuniu-se com o bispo Honorilton Gonçalves, superintendente da Rede Record. Eles trataram do destino de uma dupla de personagens do folhetim Prova de Amor, criado por Santiago. O autor, que há pouco bolou um recurso inédito no gênero ao conceber um capítulo interativo no qual os espectadores puderam votar sobre os rumos da trama, pretendia fazer uma nova consulta, dessa vez sobre a relação da assistente social Janice (Fernanda Nobre) com a aspirante a escritora Raquel (Maria Ribeiro). A audiência escolheria se a intimidade entre ambas terminaria por desembocar num romance lésbico, com direito a beijo. O bispo demoveu Santiago da idéia. "Havia sempre o risco de o público votar 'sim', o que seria impróprio para o horário", diz o autor. Nos bastidores, sabe-se que não se trata de mera questão de classificação etária. Nas bases da Igreja Universal do Reino de Deus, dona da emissora, há quem pressione contra a violência e as cenas sensuais dos folhetins da casa – e beijo lésbico já seria demais. "Tudo bem: vou tratar a amizade delas apenas como um caso de amor espiritual. Mas voltarei ao tema gay em outra novela", diz Santiago.

O episódio dá uma idéia do status conquistado pelo noveleiro: além de autor, Santiago tornou-se o principal consultor da cúpula da emissora para tudo o que diz respeito à teledramaturgia. Nada mau para alguém que esteve fadado ao segundo escalão por mais de duas décadas. Nos anos 80, ele tentou, em vão, emplacar como ator. Participou de novelas e séries da Globo, mas sempre em papéis sofríveis. "Cansei de interpretar jovens chatos que atrapalham o namoro dos outros", diz. Santiago se saía melhor em outra função – a de contador de histórias. Começou escrevendo para teatro, depois passou a roteirizar especiais da Globo e, em 1991, entrou para a equipe de autores de novelas da emissora. Mas nunca saiu do segundo time: por treze anos, atuou apenas como assistente de nomes consagrados. A situação mudou em 2004, quando os bispos da Record lhe estenderam a mão. Seduzido pela possibilidade de ser o roteirista da versão da emissora para A Escrava Isaura, Santiago trocou de emprego. "Cansei de ser um eterno assistente. Prefiro ser o primeiro na Record a ser o vigésimo na Globo", diz.

 

Divulgação
As "quase" lésbicas Janice e Raquel: é só amor espiritual, claro

O sucesso de Prova de Amor elevou o cacife de Santiago à estratosfera. Com 19 pontos de média, a atração tornou-se a principal arma da emissora dos bispos contra o SBT de Silvio Santos, na disputa pela vice-liderança de ibope no horário nobre. A novela acaba em julho, mas a Record planeja dar-lhe uma sobrevida, transformando-a numa série de ação. Em maio, o folhetim alcançou um faturamento recorde para a emissora: 15 milhões de reais, entre venda de anúncios e merchandising. Santiago tira seu naco disso. Ele chegou à Record com um salário de 25.000 reais. Duas renovações de contrato depois, ostenta renda de noveleiro de primeira linha da Globo. "Ganho tanto quanto o Gilberto Braga", afirma. Graças a uma cláusula que o premia com aumentos a cada ponto ganho no ibope, ele hoje embolsa até 170.000 reais por mês. Aos 43 anos, solteirão convicto e surfista diletante ("Só pego marolas"), ele acaba de comprar um apartamento de 450.000 reais com vista para o mar no Rio de Janeiro.

Para além da tentativa de romance lésbico, Prova de Amor recicla outros expedientes das tramas da Globo. Santiago recorre, por exemplo, ao merchandising social das novelas de Glória Perez. Mas o aprendiz superou de longe sua mentora: já abraçou pelo menos duas dúzias de "boas causas". Todos os dias, os personagens dão lições sobre temas como a depressão pós-parto, a dengue e a exploração sexual de menores. Santiago não se importa de ser criticado pelo excesso de didatismo. "Ponho merchandising mesmo. A população brasileira precisa, pois é muito carente", diz. Prova de Amor veicula, ainda, mensagens contra a impunidade. E isso se deve a outro ponto em comum com Glória Perez: assim como ela enfrentou o assassinato da filha, a atriz Daniella Perez, Santiago viveu uma tragédia familiar. Em 2002, seu irmão de 18 anos foi morto a facadas em Brasília. Revoltado com o fato de que o jovem condenado pelo crime se beneficiou do regime semi-aberto depois de cumprir apenas quatro dos dezenove anos e meio de pena, o autor faz campanha por uma mudança na legislação para crimes violentos.

Santiago é sociólogo e já se aventurou na literatura: publicou uma novela inspirada na vida de São Francisco. "Sou fascinado por sua capacidade de se entregar ao próximo", declara. Não deixa de ser irônico que o mesmo autor – que se diz um "ecumênico espiritualista" – se destaque numa emissora na qual um dia já se chutou a imagem de uma santa. "Não pago dízimo para a Universal", diz. Pode até ser, mas o fato é que a trama de Prova de Amor tem contornado certos pontos delicados. Os três casamentos mostrados até agora, por exemplo, ocorreram numa praia, num jardim e dentro de casa – nunca numa igreja. "Fiz desse jeito porque acho lindo", diz Santiago.

 

Enquanto isso, na outra novela...

Divulgação
Cidadão Brasileiro: procuram-se crianças, jovens e bichos

Além de escrever Prova de Amor, Tiago Santiago atua como intermediário da Record em seu assédio aos noveleiros da Globo. Ele ajudou a emissora a conquistar seu maior troféu: Lauro César Muniz. Enquanto a novela de Santiago vai bem, contudo, a de Muniz nem tanto. Estacionada no patamar dos 12 pontos no ibope desde seu início, Cidadão Brasileiro até que não faz feio para quem bate de frente com a novela das 8 da Globo. Mas os bispos da Record sonhavam em obter bem mais: entre 15 e 20 pontos de média. Por isso, está em curso uma operação para corrigir sua rota. Semanas atrás, isso gerou uma vítima: depois de acumular desentendimentos com atores, técnicos e o autor, o diretor Flávio Colatrello afastou-se da novela. A cúpula da emissora irritava-se com a insistência dele em manter uma iluminação cheia de sombras. Mas sua saída não resolveu todos os problemas. Avalia-se que a trama precisa de mais ritmo e agilidade. E detectaram-se falhas que dificultam a identificação da platéia com a história. Não há um núcleo infantil e faltam romances juvenis – os galãs são maduros ou estão envolvidos com figuras mais velhas, como é o caso dos personagens de Bruno Ferrari e Luiza Tomé. Para completar, embora a primeira fase da saga de época se passe numa região rural, não há animais em cena, apesar de bichos serem comprovadamente chamarizes de audiência. "Para quem se propõe a fazer um folhetim realista, esses pecados são fatais", observa um especialista.

 
 
 
 
topovoltar