Edição 1959 . 7 de junho de 2006

Índice
Millôr
Stephen Kanitz
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja.com
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Comportamento
Manual para entender o ciúme

Psiquiatra italiano ensina que ciumentos
são diferentes de ciumentas e confirma:
um pouco faz bem


Roberta Salomone


Ilustrações Orlando

EXCLUSIVO ON-LINE
Íntegra do teste

Atire o primeiro cinzeiro quem nunca sentiu ciúme, aquele incômodo que começa lá no fundo da alma e, se não for contido, pode evoluir até explodir em uma crise irracional. Das ardentes paixões juvenis ao amor maduro, ele estará presente em algum momento da vida de praticamente todos os casais. É para esse vastíssimo público que o italiano Willy Pasini, professor de psiquiatria e psicologia médica da Universidade de Genebra, na Suíça, e um dos mais populares sexólogos da Europa, com 3,5 milhões de livros vendidos e traduzidos em doze idiomas, escreveu Ciúme, a Outra Face do Amor (Rocco; 223 páginas; 32,50 reais), que está sendo lançado nesta semana no Brasil. A obra, espécie de manual para lidar com o tal "monstro dos olhos verdes", é uma mescla de pesquisas e estudos científicos com fatos e testemunhos do cotidiano de cada um, estes últimos recolhidos pelo próprio Pasini no consultório e na página que mantém na internet há quatro anos. Alicerçado nessa experiência, ele ajuda amados e amantes a identificar os diversos tipos de ciúme existentes, aconselha como lidar com eles e bate, também ele, na conhecida tecla: em excesso, é prejudicial, mas a total ausência tampouco é desejável – uma pitada de ciúme faz bem, sim, a qualquer relação. "Todos nós somos ciumentos, em maior ou menor grau. A diferença está em como cada um encara o sentimento", diz.


Pasini dedica um esclarecedor capítulo à forma totalmente diversa como homens e mulheres sentem ciúme e reagem a ele. Os homens tremem muito mais diante da possibilidade de contato sexual delas com outro parceiro do que de um envolvimento emocional mais profundo e, quando se sentem ameaçados, costumam disparar comparações pessoais e, principalmente (quando há argumentos, claro), profissionais. Já as mulheres são capazes até de perdoar uma escapada, uma relação fortuita, mas se descabelam se o que estiver em jogo for o domínio do coração do parceiro. A reação mais comum delas é apontar uma a uma as imperfeições físicas da outra; nas situações de crise, adoecem. Seja qual for a resposta, porém, afirma o médico, ambos sofrem. "A traição masculina é mais facilmente aceita, e a feminina ainda é tabu. Mas, com tantas mudanças e conquistas das mulheres, essa idéia não tem mais fundamento", diz. Resultado: "O homem está cada vez mais ciumento".

Entre os tipos de ciúme citados no livro estão o não-sentimental (categoria em que se enquadra, por exemplo, a sogra que odeia a nora ou o marido que se sente trocado pelo bebê), o afrodisíaco e o que se converte em distúrbio patológico e, no limite, em comportamento criminoso. Há ainda o que ele chama de ciberciúme, originário da enorme janela que a internet abriu para novos encontros. Para um ciumento, flagrar a mulher na sala de bate-papo numa troca de mensagens com um desconhecido é motivo certo de briga e cara feia; já ela pode até disfarçar, embora também leve um choque. Uma das histórias contadas no livro é a de Valentina, de 32 anos, que descobriu a senha do e-mail do namorado e lá encontrou dezenas de mensagens comprometedoras. Ele alegou que era tudo brincadeira; ela não acreditou. Continuam juntos – e Valentina, cada vez mais desconfiada. Com certa razão, ressalta Pasini: "Se antes a conquista era feita com um buquê de flores, agora pode ser simplesmente uma troca de mensagens".

Motivos para desconfiança, diga-se, não faltam. Na Itália, pesquisa da agência Klaus Davi mostrou que 70% das mulheres já foram infiéis pelo menos uma vez, e outro estudo americano comprovou que nove em cada dez que traem não têm nenhum sentimento de culpa (a obra, talvez por considerá-la geral e irrestrita, não menciona dado algum sobre infidelidade masculina). No Brasil, uma pesquisa feita em 2004 pela psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas de São Paulo, com cerca de 7 000 pessoas, constatou que 51% dos homens e 26% das mulheres já haviam traído. "É preciso que se fale abertamente do assunto", ensina Pasini, 67 anos, casado, que já foi mais ciumento, mas hoje confia "plenamente" na mulher. Ele insiste que, sabendo usar, o ingrediente pode estimular favoravelmente um relacionamento. "Desenvolver o lado sedutor e superar o medo de ficar sozinho são requisitos fundamentais", afirma. "Mas sem dúvida, educado, o ciúme pode trazer benefícios."

 
 
 
 
topovoltar