Edição 1959 . 7 de junho de 2006

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Comportamento
Uma TV só para bebês

Lançado nos Estados Unidos
um canal destinado a crianças
com menos de 3 anos. Ele não
demorará a chegar ao Brasil


Paula Neiva

NESTA REPORTAGEM
Quadro: A receita dos programas

EXCLUSIVO ON-LINE
Imagens da programação

Uma das grandes novidades da televisão americana por assinatura é o BabyFirstTV, um canal 24 horas destinado exclusivamente a crianças de 6 meses a 3 anos de idade. Lançado há menos de um mês, ele reproduz a idéia da BabyTV, emissora criada em Israel três anos atrás e já presente na Europa, na Ásia, no Oriente Médio e no Canadá. Ambos os canais devem chegar ao Brasil até o início do próximo ano. Como era previsível, a idéia de uma emissora com programação para bebês vem causando discussão. Alguns especialistas temem que esse tipo de iniciativa faça com que muitos pais se sintam à vontade para deixar os filhos horas a fio diante da televisão – e, conseqüentemente, leve as crianças a adquirir desde muito cedo o hábito de ver TV dia e noite. Os profissionais das emissoras argumentam que, atualmente, mesmo sem uma programação específica para eles, os bebês vêem muita televisão. Nos Estados Unidos, 88% das crianças pequenas assistem às produções televisivas e quase 30% têm o aparelho no quarto. "Não se pode negar: as crianças começam a ver TV bem antes de completar 3 anos", disse a VEJA Sharon Rechter, vice-presidente executiva de desenvolvimento de negócios da BabyFirstTV. "O canal foi criado para oferecer uma programação mais adequada a essa faixa etária."

O mercado audiovisual para bebês tem-se revelado um filão e tanto mundo afora. No Brasil, as vendas de DVDs direcionados a crianças pequenas, como os das coleções Bebê Mais e Baby Einstein, cresceram cerca de 120% nos últimos dois anos. Os programas para bebês têm o objetivo declarado de estimular as habilidades motoras, a memória, o raciocínio e o desenvolvimento da linguagem (o não declarado, mas também legítimo até certo ponto, é funcionar como uma espécie de "babá eletrônica"). Sob a orientação de psicólogos, pedagogos e neurologistas infantis, as emissoras seguem uma fórmula para segurar a atenção dos pequenos. Quando há enredo, ele é bastante simples, já que crianças muito pequenas não conseguem acompanhar histórias elaboradas. Outro recurso é a utilização de elementos comuns ao universo infantil, como brinquedos e outros bebês (veja quadro). De certa forma, nada é muito diferente do que já foi apresentado pela série inglesa Teletubbies.


Divulgação
Os ingleses Teletubbies: pioneiros na programação para bebês

A maioria das críticas contra a televisão para bebês é mais direcionada ao uso que os pais podem fazer dela do que ao conteúdo exibido. O maior risco é justamente o de transformá-la na tal "babá eletrônica" ligada diuturnamente. "Há pais que lançam mão da TV e dos DVDs para substituir a atenção e os cuidados que eles deveriam dispensar aos filhos", diz o neurologista infantil Mauro Muszkat, professor da Universidade Federal de São Paulo. "Essas tecnologias podem ser ferramentas bastante úteis para o desenvolvimento dos bebês, mas o cérebro da criança só processa informações mediadas por quem elas têm alguma afeição." Ou seja, a companhia e a participação dos pais são essenciais. "Os adultos devem estar perto da criança durante a exibição do programa, para interagir com ela. Isso estreita a relação e ajuda no processo de aprendizagem", diz a pedagoga Maria Lucia Suzigan, de São Paulo. Outra recomendação: o tempo máximo em frente à TV não deve ultrapassar uma hora diária. "O excesso de estimulação visual pode aumentar os riscos de insônia, agitação e irritabilidade", diz o neurologista Muszkat. Mas não se sinta culpado se, vez por outra, você tiver de apelar para a televisão para entreter seu filho. Até os pais mais cuidadosos têm direito a uma refeição mais tranqüila ou a um banho mais demorado.

 

MORANGOS COM COCEIRA


Felipe Pombo/Brainpix
Cena da série Morangos com Açúcar: confusão em Portugal

Em Portugal, um dos programas de televisão mais populares é a série Morangos com Açúcar, transmitida pela rede TVI. Sucesso absoluto entre a garotada de 7 a 10 anos, o seriado narra a rotina escolar de um grupo de adolescentes – num modelo semelhante ao da novelinha brasileira Malhação. Tudo muito inofensivo não fosse o fato de que um dos episódios da série portuguesa deflagrou surtos de coceira, enjôo e mal-estar em mais de 300 crianças de uma dezena de escolas espalhadas pelo país. No capítulo em questão, os personagens foram infectados por um vírus misterioso. As cenas mostravam a escola interditada, o pânico dos professores e os doentes sendo levados para hospitais em ambulâncias. Isso bastou para que muitas crianças começassem a relatar sintomas semelhantes aos de seus ídolos na tela – sem que fosse encontrada uma razão médica para tal. O fenômeno ficou conhecido nos noticiários como o caso do "vírus Morango com Açúcar".

Há quem veja na identificação dos espectadores com os protagonistas da série o motivo principal para os surtos. "Nada pode ser mais excitante para uma criança fã de um programa de televisão do que se ver no papel de seus personagens prediletos", disse a VEJA Antônio Monteiro Coelho, diretor de relações exteriores da TVI. Alguns especialistas, no entanto, apostam em motivos de ordem psicológica mais profundos. "Na faixa etária dos espectadores, em torno dos 7 anos, monstros e bruxas são substituídos pelo medo exagerado de perigos verdadeiros, como seqüestros, assaltos ou doenças", diz Beatriz Rosenberg, autora do livro Dieta de Televisão, a ser lançado no próximo semestre. Todos podem ter razão, inclusive muitos professores portugueses. Para eles, "o vírus Morango com Açúcar" não passou de uma artimanha dos alunos para escapar de aulas e provas.

Giuliana Bergamo

 

 
 
 
 
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