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Comportamento
Uma TV só para bebês Lançado
nos Estados Unidos um canal destinado a crianças com menos de
3 anos. Ele não demorará a chegar ao Brasil 
Paula Neiva
Uma das grandes
novidades da televisão americana por assinatura é o BabyFirstTV,
um canal 24 horas destinado exclusivamente a crianças de 6 meses a 3 anos
de idade. Lançado há menos de um mês, ele reproduz a idéia
da BabyTV, emissora criada em Israel três anos atrás e já
presente na Europa, na Ásia, no Oriente Médio e no Canadá.
Ambos os canais devem chegar ao Brasil até o início do próximo
ano. Como era previsível, a idéia de uma emissora com programação
para bebês vem causando discussão. Alguns especialistas temem que
esse tipo de iniciativa faça com que muitos pais se sintam à vontade
para deixar os filhos horas a fio diante da televisão e, conseqüentemente,
leve as crianças a adquirir desde muito cedo o hábito de ver TV
dia e noite. Os profissionais das emissoras argumentam que, atualmente, mesmo
sem uma programação específica para eles, os bebês
vêem muita televisão. Nos Estados Unidos, 88% das crianças
pequenas assistem às produções televisivas e quase 30% têm
o aparelho no quarto. "Não se pode negar: as crianças começam
a ver TV bem antes de completar 3 anos", disse a VEJA Sharon Rechter, vice-presidente
executiva de desenvolvimento de negócios da BabyFirstTV. "O canal foi criado
para oferecer uma programação mais adequada a essa faixa etária."
O mercado audiovisual para bebês
tem-se revelado um filão e tanto mundo afora. No Brasil, as vendas de DVDs
direcionados a crianças pequenas, como os das coleções Bebê
Mais e Baby Einstein, cresceram cerca de 120% nos últimos dois
anos. Os programas para bebês têm o objetivo declarado de estimular
as habilidades motoras, a memória, o raciocínio e o desenvolvimento
da linguagem (o não declarado, mas também legítimo até
certo ponto, é funcionar como uma espécie de "babá eletrônica").
Sob a orientação de psicólogos, pedagogos e neurologistas
infantis, as emissoras seguem uma fórmula para segurar a atenção
dos pequenos. Quando há enredo, ele é bastante simples, já
que crianças muito pequenas não conseguem acompanhar histórias
elaboradas. Outro recurso é a utilização de elementos comuns
ao universo infantil, como brinquedos e outros bebês (veja
quadro). De certa forma, nada é muito diferente do que já
foi apresentado pela série inglesa Teletubbies.
Divulgação  |
| Os ingleses Teletubbies: pioneiros na programação para
bebês | A maioria das críticas
contra a televisão para bebês é mais direcionada ao uso que
os pais podem fazer dela do que ao conteúdo exibido. O maior risco é
justamente o de transformá-la na tal "babá eletrônica" ligada
diuturnamente. "Há pais que lançam mão da TV e dos DVDs para
substituir a atenção e os cuidados que eles deveriam dispensar aos
filhos", diz o neurologista infantil Mauro Muszkat, professor da Universidade
Federal de São Paulo. "Essas tecnologias podem ser ferramentas bastante
úteis para o desenvolvimento dos bebês, mas o cérebro da criança
só processa informações mediadas por quem elas têm
alguma afeição." Ou seja, a companhia e a participação
dos pais são essenciais. "Os adultos devem estar perto da criança
durante a exibição do programa, para interagir com ela. Isso estreita
a relação e ajuda no processo de aprendizagem", diz a pedagoga Maria
Lucia Suzigan, de São Paulo. Outra recomendação: o tempo
máximo em frente à TV não deve ultrapassar uma hora diária.
"O excesso de estimulação visual pode aumentar os riscos de insônia,
agitação e irritabilidade", diz o neurologista Muszkat. Mas não
se sinta culpado se, vez por outra, você tiver de apelar para a televisão
para entreter seu filho. Até os pais mais cuidadosos têm direito
a uma refeição mais tranqüila ou a um banho mais demorado.
| MORANGOS COM COCEIRA
Felipe Pombo/Brainpix  |
| Cena da série Morangos com Açúcar:
confusão em Portugal | Em
Portugal, um dos programas de televisão mais populares é a série
Morangos com Açúcar, transmitida pela rede TVI. Sucesso absoluto
entre a garotada de 7 a 10 anos, o seriado narra a rotina escolar de um grupo
de adolescentes num modelo semelhante ao da novelinha brasileira Malhação.
Tudo muito inofensivo não fosse o fato de que um dos episódios da
série portuguesa deflagrou surtos de coceira, enjôo e mal-estar em
mais de 300 crianças de uma dezena de escolas espalhadas pelo país.
No capítulo em questão, os personagens foram infectados por um vírus
misterioso. As cenas mostravam a escola interditada, o pânico dos professores
e os doentes sendo levados para hospitais em ambulâncias. Isso bastou para
que muitas crianças começassem a relatar sintomas semelhantes aos
de seus ídolos na tela sem que fosse encontrada uma razão
médica para tal. O fenômeno ficou conhecido nos noticiários
como o caso do "vírus Morango com Açúcar".
Há quem veja na identificação dos espectadores com os protagonistas
da série o motivo principal para os surtos. "Nada pode ser mais excitante
para uma criança fã de um programa de televisão do que se
ver no papel de seus personagens prediletos", disse a VEJA Antônio Monteiro
Coelho, diretor de relações exteriores da TVI. Alguns especialistas,
no entanto, apostam em motivos de ordem psicológica mais profundos. "Na
faixa etária dos espectadores, em torno dos 7 anos, monstros e bruxas são
substituídos pelo medo exagerado de perigos verdadeiros, como seqüestros,
assaltos ou doenças", diz Beatriz Rosenberg, autora do livro Dieta de
Televisão, a ser lançado no próximo semestre. Todos podem
ter razão, inclusive muitos professores portugueses. Para eles, "o vírus
Morango com Açúcar" não passou de uma artimanha dos alunos
para escapar de aulas e provas. Giuliana
Bergamo | | |