Edição 1959 . 7 de junho de 2006

Índice
Millôr
Stephen Kanitz
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja.com
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Especial

 

NOVA FRONTEIRA: O SETOR FARMACÊUTICO

 

Fotos Paulo Vitale
PESQUISA
Química da Dr. Reddy's em Hyderabad

Em 2003, uma idéia ousada foi posta em circulação pelos médicos ingleses Nick Wald e Malcolm Law: a criação de uma "polipílula" que contivesse aspirina, estatina, hipertensivos e ácido fólico, ou seja, os remédios que previnem doenças cardíacas. Estima-se que essas doenças provoquem 30% das mortes anuais no mundo. Um dos fatores que dificultam seu combate é a necessidade de usar tantos medicamentos juntos. Se a polipílula fosse difundida, disseram os médicos, ela poderia reduzir em 80% os casos de infarto, por exemplo. O artigo causou e ainda causa discussões. Mas agora a controvérsia vai entrar em outra fase. A polipílula já existe. Ela foi desenvolvida pelo laboratório indiano Dr. Reddy's, de Hyderabad, e começou a ser testada em maio. "É um projeto de ambição global. Vamos fazer testes em vários países, inclusive o Brasil", diz o presidente da Dr. Reddy's, G.V. Prasad.

A polipílula pode ou não se mostrar viável. O fato de que tenha sido criada, contudo, atesta o vigor da emergente indústria farmacêutica indiana. Os laboratórios Dr. Reddy's ainda são uma exceção por seu pesado investimento em pesquisa – uma paixão de seu fundador, o cientista Anji Reddy. Mas outras empresas como a Ranbaxy (a líder na Índia) despontam no mercado internacional. O principal negócio delas é produzir genéricos. Nos próximos dois anos, as patentes de mais de quarenta medicamentos importantes devem expirar e os indianos querem abocanhar parte desse mercado. Mas eles também exploram outras rotas de crescimento, como a terceirização das pesquisas. Como já aconteceu no campo da tecnologia de informação, laboratórios do mundo todo estão entregando à Índia tarefas como a de descobrir processos que barateiem a produção de moléculas que eles descobriram.

 

EXISTE INTERNET EM HINDI?

 

O FILHO PRÓDIGO
Arvind Jain, diretor do Google em Bangalore: ele voltou dos Estados Unidos

Pouco depois de formar-se num dos prestigiosos Institutos Indianos de Tecnologia, o engenheiro Arvind Jain mudou-se para o Vale do Silício, região que concentra a indústria da tecnologia nos Estados Unidos. Passou dez anos lá, mas quando o Google lhe ofereceu a oportunidade de comandar seu escritório de Bangalore ele não hesitou em voltar para casa. "A Índia é um dos lugares mais excitantes do mundo para quem trabalha com tecnologia atualmente. Eu queria ver em que pé estava a revolução", afirma Jain. Um de seus projetos era criar produtos de aplicação global, e ele teve sucesso. O serviço Google Finance, que à maneira típica do megaportal de busca pretende tornar disponível "toda a informação econômica do planeta", entrou em funcionamento em março e foi criado pela equipe coordenada por Jain. Mas há um outro desafio em vista, talvez mais complicado: ampliar a penetração da internet na própria Índia.

Atualmente, menos de 2% da população indiana utiliza a rede. Um dos motivos para isso é a pobreza. Em 2003, havia 7,2 computadores para cada 1 000 pessoas na Índia, contra 658,9 nos Estados Unidos, 74,8 no Brasil e 27,6 na China. Porém, a diversidade cultural é uma dificuldade tão grande quanto a economia. Apenas cerca de 10% dos indianos dominam o inglês, mas 80% do conteúdo de internet no país é nessa língua. Sim, há sites em hindi, marathi, tamil e outras línguas oficiais e dialetos. Entretanto, é difícil encontrá-los na vastidão da rede. Diz Jain: "Tornar mais acessível esse tipo de conteúdo é essencial para aproximar o indiano comum da internet. E nesse tipo de coisa o Google é bom".

 

OFERTAS DE LUXO

 
FASHION
Prasad: a Zegna chega à Índia

"O que tem mantido minha sanidade é a motocicleta", diz o economista Rahul Prasad, de 37 anos. Nascido na Índia, mas radicado em Nova York e Londres desde os anos 90, ele está em Mumbai para cuidar da instalação da primeira loja da grife Ermenegildo Zegna no país. A cidade o está deprimindo, e ele usa sua Kawasaki para espairecer. Supervisor da Zegna no sul da Ásia, Prasad visita com freqüência os países vizinhos. "Gostaria que as cidades indianas oferecessem 10% do conforto de Xangai", diz.

A loja da Zegna será no espaço onde funcionou um clube noturno no célebre hotel Taj Mahal. Hotéis cinco-estrelas concentram o comércio de luxo na Índia. Eles são ambientes exclusivos, para os quais aflui a minúscula parcela da população que despertou para o alto consumo. "Trabalhamos com uma base de 0,2% da população", diz Prasad. Mas, como em outros mercados na Índia, espera-se um crescimento exponencial. É por isso que grifes como Armani e Gucci se apressam para entrar no país. Eles apostam num dado econômico e em outro cultural. O consumo interno privado responde por uma fatia elevada da economia indiana, 64% (contra 42% na China). O "consumismo" tem um papel importante na ascensão do país. Além disso, os jovens cada vez mais dão valor a marcas. "Sempre haverá lugar para as roupas tradicionais na Índia", diz Prasad. "Mas as pessoas estão se identificando pelo que vestem."

 

CONTRA AS CASTAS

 

O DALIT
O economista Narendra Jadhav com o quadro de seu ídolo, o Dr. Ambedkar: "Por que não chamá-lo de deus? Ele transformou os párias em gente"

Na vila onde nasceu, Damu Jadhav dedicava-se a ocupações penosas, como cuidar de cadáveres. Sua posição na sociedade o obrigava a isso: ele era um intocável. Obstinadamente, ele rompeu essas amarras. Os maiores beneficiários foram seus filhos, a quem conseguiu educar. O mais jovem deles é o homem da foto ao lado, Narendra Jadhav. Ele é um dos principais economistas do Banco Central da Índia. Atualmente, encontra-se no Afeganistão, onde chefia, a convite do governo americano, a equipe que recria as instituições financeiras do país. "Meu pai me ensinou a nunca me contentar com a mediocridade", diz Jadhav. "É lamentável que seu próprio talento tenha sido desperdiçado pela maior iniqüidade da história humana, o sistema de castas da Índia."

Jadhav é um homem enérgico e provocador. No elegante Clube de Críquete de Mumbai que gosta de freqüentar, os empregados o olham com reverência. "Transmito a idéia de que é possível ascender na vida", diz. O próprio Jadhav reverencia uma única figura na história indiana, o Dr. Ambedkar. Foi ele quem lançou as bases políticas e legais para que a intocabilidade fosse abolida. "Por que não chamá-lo de deus? Ele transformou os intocáveis em homens", afirma. Jadhav é um participante ativo na vida intelectual da Índia. Lançou um livro em que narra a saga de sua família. Também escreve para os jornais. Afirma que a reserva de cotas para dalits (palavra que substituiu "intocáveis" no vocabulário indiano) nas universidades e no mercado de trabalho é indispensável. "A luta é para que um dia elas possam ser dispensadas. Mas no momento são necessárias para compensar 3 000 anos de opressão."

 

 
 
 
 
topovoltar