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Especial
NOVA FRONTEIRA: O SETOR FARMACÊUTICO
Fotos
Paulo Vitale
 | PESQUISA Química
da Dr. Reddy's em Hyderabad |
Em 2003, uma idéia ousada foi posta em circulação pelos médicos
ingleses Nick Wald e Malcolm Law: a criação de uma "polipílula"
que contivesse aspirina, estatina, hipertensivos e ácido fólico,
ou seja, os remédios que previnem doenças cardíacas. Estima-se
que essas doenças provoquem 30% das mortes anuais no mundo. Um dos fatores
que dificultam seu combate é a necessidade de usar tantos medicamentos
juntos. Se a polipílula fosse difundida, disseram os médicos, ela
poderia reduzir em 80% os casos de infarto, por exemplo. O artigo causou e ainda
causa discussões. Mas agora a controvérsia vai entrar em outra fase.
A polipílula já existe. Ela foi desenvolvida pelo laboratório
indiano Dr. Reddy's, de Hyderabad, e começou a ser testada em maio. "É
um projeto de ambição global. Vamos fazer testes em vários
países, inclusive o Brasil", diz o presidente da Dr. Reddy's, G.V. Prasad.
A polipílula pode ou não
se mostrar viável. O fato de que tenha sido criada, contudo, atesta o vigor
da emergente indústria farmacêutica indiana. Os laboratórios
Dr. Reddy's ainda são uma exceção por seu pesado investimento
em pesquisa uma paixão de seu fundador, o cientista Anji Reddy.
Mas outras empresas como a Ranbaxy (a líder na Índia) despontam
no mercado internacional. O principal negócio delas é produzir genéricos.
Nos próximos dois anos, as patentes de mais de quarenta medicamentos importantes
devem expirar e os indianos querem abocanhar parte desse mercado. Mas eles também
exploram outras rotas de crescimento, como a terceirização das pesquisas.
Como já aconteceu no campo da tecnologia de informação, laboratórios
do mundo todo estão entregando à Índia tarefas como a de
descobrir processos que barateiem a produção de moléculas
que eles descobriram. | |
EXISTE INTERNET EM HINDI?  | O
FILHO PRÓDIGO Arvind Jain, diretor do Google
em Bangalore: ele voltou dos Estados Unidos |
Pouco depois de formar-se num dos prestigiosos Institutos
Indianos de Tecnologia, o engenheiro Arvind Jain mudou-se para o Vale do Silício,
região que concentra a indústria da tecnologia nos Estados Unidos.
Passou dez anos lá, mas quando o Google lhe ofereceu a oportunidade de
comandar seu escritório de Bangalore ele não hesitou em voltar para
casa. "A Índia é um dos lugares mais excitantes do mundo para quem
trabalha com tecnologia atualmente. Eu queria ver em que pé estava a revolução",
afirma Jain. Um de seus projetos era criar produtos de aplicação
global, e ele teve sucesso. O serviço Google Finance, que à maneira
típica do megaportal de busca pretende tornar disponível "toda a
informação econômica do planeta", entrou em funcionamento
em março e foi criado pela equipe coordenada por Jain. Mas há um
outro desafio em vista, talvez mais complicado: ampliar a penetração
da internet na própria Índia.
Atualmente, menos de 2% da população indiana utiliza a rede. Um
dos motivos para isso é a pobreza. Em 2003, havia 7,2 computadores para
cada 1 000 pessoas na Índia, contra 658,9 nos Estados Unidos, 74,8 no Brasil
e 27,6 na China. Porém, a diversidade cultural é uma dificuldade
tão grande quanto a economia. Apenas cerca de 10% dos indianos dominam
o inglês, mas 80% do conteúdo de internet no país é
nessa língua. Sim, há sites em hindi, marathi, tamil e outras línguas
oficiais e dialetos. Entretanto, é difícil encontrá-los na
vastidão da rede. Diz Jain: "Tornar mais acessível esse tipo de
conteúdo é essencial para aproximar o indiano comum da internet.
E nesse tipo de coisa o Google é bom". | |
OFERTAS DE LUXO  | FASHION Prasad:
a Zegna chega à Índia |
"O que tem mantido minha sanidade é a motocicleta",
diz o economista Rahul Prasad, de 37 anos. Nascido na Índia, mas radicado
em Nova York e Londres desde os anos 90, ele está em Mumbai para cuidar
da instalação da primeira loja da grife Ermenegildo Zegna no país.
A cidade o está deprimindo, e ele usa sua Kawasaki para espairecer. Supervisor
da Zegna no sul da Ásia, Prasad visita com freqüência os países
vizinhos. "Gostaria que as cidades indianas oferecessem 10% do conforto de Xangai",
diz. A loja da Zegna será no
espaço onde funcionou um clube noturno no célebre hotel Taj Mahal.
Hotéis cinco-estrelas concentram o comércio de luxo na Índia.
Eles são ambientes exclusivos, para os quais aflui a minúscula parcela
da população que despertou para o alto consumo. "Trabalhamos com
uma base de 0,2% da população", diz Prasad. Mas, como em outros
mercados na Índia, espera-se um crescimento exponencial. É por isso
que grifes como Armani e Gucci se apressam para entrar no país. Eles apostam
num dado econômico e em outro cultural. O consumo interno privado responde
por uma fatia elevada da economia indiana, 64% (contra 42% na China). O "consumismo"
tem um papel importante na ascensão do país. Além disso,
os jovens cada vez mais dão valor a marcas. "Sempre haverá lugar
para as roupas tradicionais na Índia", diz Prasad. "Mas as pessoas estão
se identificando pelo que vestem." | |
CONTRA AS CASTAS  | O
DALIT O economista Narendra Jadhav com o quadro
de seu ídolo, o Dr. Ambedkar: "Por que não chamá-lo de deus? Ele transformou os
párias em gente" |
Na vila onde nasceu, Damu Jadhav dedicava-se a ocupações penosas,
como cuidar de cadáveres. Sua posição na sociedade o obrigava
a isso: ele era um intocável. Obstinadamente, ele rompeu essas amarras.
Os maiores beneficiários foram seus filhos, a quem conseguiu educar. O
mais jovem deles é o homem da foto ao lado, Narendra Jadhav. Ele é
um dos principais economistas do Banco Central da Índia. Atualmente, encontra-se
no Afeganistão, onde chefia, a convite do governo americano, a equipe que
recria as instituições financeiras do país. "Meu pai me ensinou
a nunca me contentar com a mediocridade", diz Jadhav. "É lamentável
que seu próprio talento tenha sido desperdiçado pela maior iniqüidade
da história humana, o sistema de castas da Índia."
Jadhav é um homem enérgico e provocador. No elegante Clube de Críquete
de Mumbai que gosta de freqüentar, os empregados o olham com reverência.
"Transmito a idéia de que é possível ascender na vida", diz.
O próprio Jadhav reverencia uma única figura na história
indiana, o Dr. Ambedkar. Foi ele quem lançou as bases políticas
e legais para que a intocabilidade fosse abolida. "Por que não chamá-lo
de deus? Ele transformou os intocáveis em homens", afirma. Jadhav é
um participante ativo na vida intelectual da Índia. Lançou um livro
em que narra a saga de sua família. Também escreve para os jornais.
Afirma que a reserva de cotas para dalits (palavra que substituiu "intocáveis"
no vocabulário indiano) nas universidades e no mercado de trabalho é
indispensável. "A luta é para que um dia elas possam ser dispensadas.
Mas no momento são necessárias para compensar 3 000 anos de opressão."
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