Edição 1959 . 7 de junho de 2006

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Economia e Negócios
Crescer é sempre bom, mas...

...o avanço do PIB anunciado na semana
passada tem como motor gastos estatais
que não são sustentáveis


Giuliano Guandalini


Evelson de Freitas/AE
Obra em edifício de SP: o crédito imobiliário deve triplicar neste ano


NESTA REPORTAGEM
Gráfico: As forças do PIB

É pouco recomendável tirar conclusões definitivas sobre a taxa de crescimento dos países com base em períodos curtos. Principalmente numa economia como a do Brasil, com tantas deficiências e tantos problemas estatísticos. Não raras vezes, uma taxa trimestral aparentemente baixa é, na verdade, sinal de que o país caminha com responsabilidade no sentido do crescimento sustentado. Da mesma forma, um crescimento acelerado – e festejado – pode resultar de uma base de comparação muito fraca, ou indicar que o país está superaquecido, à beira do descontrole inflacionário. Por essas razões, deve-se olhar com uma pitada de cautela os números divulgados na última semana pelo IBGE. Depois da freada no ano passado, o PIB iniciou o ano com avanço positivo de 1,4% na comparação com o último trimestre de 2005. Em relação ao primeiro trimestre do ano passado, a alta foi de 3,4%. Esses números são bons e indicam que 2006 será de recuperação. De olho nas eleições, o governo abriu os cofres e ajudou a inflar o PIB, em projetos como a ampliação das verbas para o Bolsa Família e torrando dinheiro público num mal-ajambrado programa para tapar buracos nas estradas. O problema é que essas medidas não asseguram o crescimento saudável. Por isso soa precipitada a euforia do governo, manifestada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. "O país está crescendo com investimento e aumento do consumo das famílias, e isso é o que mais importa", disse ele. Compreende-se o otimismo do ministro, mas o Brasil terá de fazer muita força para crescer 4% neste ano, e mesmo assim obterá um resultado bem abaixo da estimativa para os países em desenvolvimento – que é de 6,3%, segundo o Banco Mundial. Além disso, o Brasil pouco fez, nos últimos anos, para remover as barreiras que o impedem de crescer mais rapidamente. Dessa forma, como já ocorreu em períodos anteriores, é muito improvável que a mesma taxa do primeiro trimestre se repita no resto do ano. Por essa razão, economistas como Eduardo Giannetti da Fonseca não viram tanto motivo de alegria no resultado. Giannetti lembrou que, no primeiro trimestre de 2002, a economia cresceu 1,7%, mas encerrou o ano com apenas 1,9%.


Fabio Motta/AE
O petróleo em alta impulsionou a indústria petrolífera

Tome-se o caso da festejada retomada nos investimentos, que em tese seria uma boa notícia. Novas fábricas, máquinas modernas e tecnologia de ponta permitem à economia acomodar um maior crescimento com menor pressão inflacionária. Mas boa parte do aumento dos investimentos ocorrido no primeiro trimestre se deveu simplesmente à recuperação do setor imobiliário (contabilizado pelo IBGE como investimento em construção civil). Ainda que a construção de novas casas e apartamentos seja boa nova, dado o déficit habitacional dos brasileiros, isso não representa um aumento na produtividade. Outro fator que explica a alta dos investimentos foi a Operação Tapa-Buracos. Os gastos da operação ajudaram a inflar o PIB, mas as obras são de tão má qualidade que de nada servirão para ampliar o potencial produtivo do país. A contratação de novos servidores, que entra na contabilização do consumo do setor público, também deu uma empurradinha no PIB. Sem falar no Bolsa Família, o grande responsável pelas altas taxas de crescimento do comércio no Nordeste. O problema é que, embora ajudem a empurrar a economia no curto prazo, essas políticas do governo praticamente não ajudam o país a se tornar mais competitivo e produtivo.

Na avaliação do economista José Júlio Senna, ex-diretor do Banco Central, o país conseguiu ampliar ligeiramente, nos últimos anos, o seu potencial de crescimento. Isso foi possível graças às privatizações, à queda da inflação, às exportações e ao cenário externo favorável. O Brasil tem condições de crescer hoje algo em torno de 3,5%. Mas, acima disso, ocorreria um superaquecimento inflacionário. Foi o que se viu em 2004, quando a economia cresceu perto de 5%, a inflação despertou e o BC precisou elevar a taxa de juros. Como sair dessa cilada? O país terá de deixar de postergar reformas fundamentais, como a tributária, a previdenciária e a trabalhista, em vez de torrar em obras eleitoreiras. Por isso, não se recomenda ater-se somente aos números do PIB para certificar a saúde da economia.

 
 
 
 
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