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Economia e Negócios
Crescer é sempre bom, mas...
...o avanço do PIB anunciado na semana
passada tem como motor gastos estatais
que não são sustentáveis

Giuliano Guandalini
Evelson de Freitas/AE
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| Obra em edifício de SP: o crédito imobiliário
deve triplicar neste ano |
É pouco recomendável tirar conclusões
definitivas sobre a taxa de crescimento dos países com base
em períodos curtos. Principalmente numa economia como a do
Brasil, com tantas deficiências e tantos problemas estatísticos.
Não raras vezes, uma taxa trimestral aparentemente baixa
é, na verdade, sinal de que o país caminha com responsabilidade
no sentido do crescimento sustentado. Da mesma forma, um crescimento
acelerado e festejado pode resultar de uma base de
comparação muito fraca, ou indicar que o país
está superaquecido, à beira do descontrole inflacionário.
Por essas razões, deve-se olhar com uma pitada de cautela
os números divulgados na última semana pelo IBGE.
Depois da freada no ano passado, o PIB iniciou o ano com avanço
positivo de 1,4% na comparação com o último
trimestre de 2005. Em relação ao primeiro trimestre
do ano passado, a alta foi de 3,4%. Esses números são
bons e indicam que 2006 será de recuperação.
De olho nas eleições, o governo abriu os cofres e
ajudou a inflar o PIB, em projetos como a ampliação
das verbas para o Bolsa Família e torrando dinheiro público
num mal-ajambrado programa para tapar buracos nas estradas. O problema
é que essas medidas não asseguram o crescimento saudável.
Por isso soa precipitada a euforia do governo, manifestada pelo
ministro da Fazenda, Guido Mantega. "O país está
crescendo com investimento e aumento do consumo das famílias,
e isso é o que mais importa", disse ele. Compreende-se
o otimismo do ministro, mas o Brasil terá de fazer muita
força para crescer 4% neste ano, e mesmo assim obterá
um resultado bem abaixo da estimativa para os países em desenvolvimento
que é de 6,3%, segundo o Banco Mundial. Além
disso, o Brasil pouco fez, nos últimos anos, para remover
as barreiras que o impedem de crescer mais rapidamente. Dessa forma,
como já ocorreu em períodos anteriores, é muito
improvável que a mesma taxa do primeiro trimestre se repita
no resto do ano. Por essa razão, economistas como Eduardo
Giannetti da Fonseca não viram tanto motivo de alegria no
resultado. Giannetti lembrou que, no primeiro trimestre de 2002,
a economia cresceu 1,7%, mas encerrou o ano com apenas 1,9%.
Fabio Motta/AE
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| O petróleo em alta impulsionou a indústria
petrolífera |
Tome-se o caso da festejada retomada nos investimentos,
que em tese seria uma boa notícia. Novas fábricas,
máquinas modernas e tecnologia de ponta permitem à
economia acomodar um maior crescimento com menor pressão
inflacionária. Mas boa parte do aumento dos investimentos
ocorrido no primeiro trimestre se deveu simplesmente à recuperação
do setor imobiliário (contabilizado pelo IBGE como investimento
em construção civil). Ainda que a construção
de novas casas e apartamentos seja boa nova, dado o déficit
habitacional dos brasileiros, isso não representa um aumento
na produtividade. Outro fator que explica a alta dos investimentos
foi a Operação Tapa-Buracos. Os gastos da operação
ajudaram a inflar o PIB, mas as obras são de tão má
qualidade que de nada servirão para ampliar o potencial produtivo
do país. A contratação de novos servidores,
que entra na contabilização do consumo do setor público,
também deu uma empurradinha no PIB. Sem falar no Bolsa Família,
o grande responsável pelas altas taxas de crescimento do
comércio no Nordeste. O problema é que, embora ajudem
a empurrar a economia no curto prazo, essas políticas do
governo praticamente não ajudam o país a se tornar
mais competitivo e produtivo.
Na avaliação do economista José
Júlio Senna, ex-diretor do Banco Central, o país conseguiu
ampliar ligeiramente, nos últimos anos, o seu potencial de
crescimento. Isso foi possível graças às privatizações,
à queda da inflação, às exportações
e ao cenário externo favorável. O Brasil tem condições
de crescer hoje algo em torno de 3,5%. Mas, acima disso, ocorreria
um superaquecimento inflacionário. Foi o que se viu em 2004,
quando a economia cresceu perto de 5%, a inflação
despertou e o BC precisou elevar a taxa de juros. Como sair dessa
cilada? O país terá de deixar de postergar reformas
fundamentais, como a tributária, a previdenciária
e a trabalhista, em vez de torrar em obras eleitoreiras. Por isso,
não se recomenda ater-se somente aos números do PIB
para certificar a saúde da economia.
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