Edição 1959 . 7 de junho de 2006

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Decoração
Mau caráter e mau gosto

Livro mostra que, quanto mais despótico
o governante, mais exagerada, esquisita
e enorme é a sua casa

 
Fotos reprodução Dictator Style: Lifestyles of the World's Most Colorful Despots
Casal Marcos, Filipinas: no quarto de Imelda, cama com colcha de "cauda", lustres brilhantes, muito dourado e até uma harpa; no salão, retrato de parede inteira

Dispondo de todo o dinheiro do mundo, todo o poder do mundo, toda a mão-de-obra e o espaço do mundo, ditadores presentes e passados têm o hábito de, mais cedo ou mais tarde, se instalar em um (ou dois, ou dez, ou cem) palácio excepcional, monumento gigantesco à importância de sua própria pessoa – e quem há de votar contra? Pois um consultor de estilo inglês, Peter York, conhecido autor de manuais e observações sobre as classes mais privilegiadas, resolveu reunir em livro, e comentar, fotografias das casas de dezesseis déspotas, entre eles Hitler, Mussolini, Stalin, Saddam Hussein, Ferdinand e Imelda Marcos, Nicolae e Elena Ceausescu, os africanos Mobutu Sese Seko e Idi Amin e os latino-americanos Juan e Eva Perón e Manuel Noriega. O resultado, Dictator Style: Lifestyles of the World's Most Colorful Despots (Estilo de Ditador – O Modo de Vida dos Déspotas Mais Pomposos do Mundo), é um apanhado de salões, móveis e ambientes do mais excruciante mau gosto. "São lugares horrorosos aos olhos mais bem treinados da classe média ocidental. Mas esses homens não estavam preocupados com bom gosto", ressalva York. "Importante para eles era possuir o que sonharam quando eram adolescentes e viviam num barraco, expressar olha-só-quanto-conquistei, tentar insuflar um certo orgulho nacional."

 

Mobutu, do então Zaire: pagode chinês em um palácio, jardim francês no outro

Qualquer que fosse o propósito e por mais cruel que seja a reputação do ditador, a reação ao livro, e ao texto que o acompanha, é cair na risada. Impera no quarto da filipina louca por sapatos Imelda Marcos, na casa que ela construiu em sua cidade natal, Tacloban, uma imensa cama sobre plataforma, coberta com uma colcha que termina em "cauda". Na decoração, ofuscantes dourados, lustres reluzentes, um enorme espelho e uma harpa. Uma harpa? Isso mesmo – provavelmente, segundo York, um símbolo da harmonia que ela julga trazer ao mundo. O banheiro tem vitrais, paredes espelhadas escuras e iluminação de discoteca. No "salão de recepções", um retrato de parede inteira da própria, bem mais magra e com olhos bem menos amendoados que o original. York lembra que Imelda continua viva e bem de vida em Manila, com filhos atuantes na política e o corpo do marido, morto em 1989, mantido até hoje numa câmara refrigerada. Menos leve foi o destino do casal Ceausescu, que assumiu o poder na Romênia em 1965 e lá fez o que quis até 1989, quando o Muro de Berlim caiu, o comunismo acabou e os dois foram julgados e executados. O Palácio do Povo que os Ceausescu construíram em Bucareste tem 1 000 aposentos e só é menor no planeta do que o Pentágono. Excêntricos, para dizer o mínimo, e fanáticos por higiene, Nicolae e Elena tinham em suas casas (sim, havia outras) um sem-número de banheiros, banheiras e "salas de tratamento" cheias de mangueiras e botões. No subsolo do Palácio Primaverii, salas abrigavam tesouros do casal; numa delas, empilhavam-se até quase o teto tapetes persas e peles de animais. Quase tudo foi leiloado ou então doado – caso dos 9.000 ternos de Nicolae, que devem ter servido em pouca gente, visto que ele tinha 1,58 metro de altura.

 
Saddam, no Iraque: salas públicas sem nada na parede; loiros, loiras e monstros nos aposentos íntimos

Também Slobodan Milosevic, o presidente da Sérvia que morreu em março numa cela do Tribunal Penal Internacional, onde era julgado pelas atrocidades que cometeu no poder, instalou-se em grande estilo com a mulher, Mira, na Casa Branca, como é chamado o antigo palácio real nos arredores de Belgrado. Lá viveram em opulentos ambientes de inspiração oriental, entre eles uma sala de bilhar instalada numa antiga capela. Antes dos Milosevic, Josip Broz Tito deixou sua marca em imóveis variados da então Iugoslávia, onde imperou sozinho por 35 anos, até morrer em 1980. Homem do povo que era, gostava de servir ele mesmo os convidados em sua copa-cozinha, onde uma videira de ferro equilibrava garrafas de vinho. Outro toque oriental se fez presente no coração da África: Mobutu, que amealhou fortuna incalculável nos mais de trinta anos em que administrou o paupérrimo Zaire (hoje República Democrática do Congo) como se fosse a fazenda da família, ganhou do colega Mao Tsé-tung um pequeno pavilhão chinês, que agregou ao complexo de Gbadolite, a maior de suas onze casas no país – a pista de pouso acomodava Concorde. Gbadolite foi crescendo, foi crescendo e virou uma mixórdia sem, digamos, estilo. Já a casa à beira de um lago em Goma inspirava-se nos castelos franceses, com mármores, torneiras douradas, fontes e lustres rebuscados.

 

Ceausescu, na Romênia: banheiros e banheiras por toda parte e uma sala repleta de tapetes e peles

Mais conhecidos, por terem sido amplamente fotografados após a queda do dono em 2003, são os palácios de Saddam Hussein – salões enormes e jeito de que ninguém efetivamente morava neles. Nas áreas públicas, impressiona a falta de quadros nas paredes (até porque o Islã proíbe a reprodução da figura humana). Nos aposentos íntimos, surpreende a coleção de, digamos, pinturas que beiram a ficção científica, com loiros musculosos e loiras bem dotadas (ambos seminus) lutando contra cobras, dragões e monstros. Engraçado? Sem dúvida. "Mas nós olhamos para essas coisas com o olhar irônico do século XXI", explica York. "E nessas sociedades nunca existiu um olhar assim." Ou existiu; difícil mesmo era poder lhe dar expressão.

 
 
 
 
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