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Decoração Mau
caráter e mau gosto Livro mostra
que, quanto mais despótico o governante, mais exagerada, esquisita
e enorme é a sua casa | Fotos
reprodução Dictator Style: Lifestyles of the World's Most Colorful
Despots |  |  | | Casal
Marcos, Filipinas: no quarto de Imelda, cama com colcha de "cauda", lustres brilhantes,
muito dourado e até uma harpa; no salão, retrato de parede inteira
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Dispondo de todo o dinheiro
do mundo, todo o poder do mundo, toda a mão-de-obra e o espaço do
mundo, ditadores presentes e passados têm o hábito de, mais cedo
ou mais tarde, se instalar em um (ou dois, ou dez, ou cem) palácio excepcional,
monumento gigantesco à importância de sua própria pessoa
e quem há de votar contra? Pois um consultor de estilo inglês, Peter
York, conhecido autor de manuais e observações sobre as classes
mais privilegiadas, resolveu reunir em livro, e comentar, fotografias das casas
de dezesseis déspotas, entre eles Hitler, Mussolini, Stalin, Saddam Hussein,
Ferdinand e Imelda Marcos, Nicolae e Elena Ceausescu, os africanos Mobutu Sese
Seko e Idi Amin e os latino-americanos Juan e Eva Perón e Manuel Noriega.
O resultado, Dictator Style: Lifestyles of the World's Most Colorful Despots
(Estilo de Ditador O Modo de Vida dos Déspotas Mais Pomposos do
Mundo), é um apanhado de salões, móveis e ambientes do mais
excruciante mau gosto. "São lugares horrorosos aos olhos mais bem treinados
da classe média ocidental. Mas esses homens não estavam preocupados
com bom gosto", ressalva York. "Importante para eles era possuir o que sonharam
quando eram adolescentes e viviam num barraco, expressar olha-só-quanto-conquistei,
tentar insuflar um certo orgulho nacional."  |  | | Mobutu,
do então Zaire: pagode chinês em um palácio, jardim francês no outro |
Qualquer que fosse o propósito e por mais cruel que seja a reputação
do ditador, a reação ao livro, e ao texto que o acompanha, é
cair na risada. Impera no quarto da filipina louca por sapatos Imelda Marcos,
na casa que ela construiu em sua cidade natal, Tacloban, uma imensa cama sobre
plataforma, coberta com uma colcha que termina em "cauda". Na decoração,
ofuscantes dourados, lustres reluzentes, um enorme espelho e uma harpa. Uma harpa?
Isso mesmo provavelmente, segundo York, um símbolo da harmonia que
ela julga trazer ao mundo. O banheiro tem vitrais, paredes espelhadas escuras
e iluminação de discoteca. No "salão de recepções",
um retrato de parede inteira da própria, bem mais magra e com olhos bem
menos amendoados que o original. York lembra que Imelda continua viva e bem de
vida em Manila, com filhos atuantes na política e o corpo do marido, morto
em 1989, mantido até hoje numa câmara refrigerada. Menos leve foi
o destino do casal Ceausescu, que assumiu o poder na Romênia em 1965 e lá
fez o que quis até 1989, quando o Muro de Berlim caiu, o comunismo acabou
e os dois foram julgados e executados. O Palácio do Povo que os Ceausescu
construíram em Bucareste tem 1 000 aposentos e só é menor
no planeta do que o Pentágono. Excêntricos, para dizer o mínimo,
e fanáticos por higiene, Nicolae e Elena tinham em suas casas (sim, havia
outras) um sem-número de banheiros, banheiras e "salas de tratamento" cheias
de mangueiras e botões. No subsolo do Palácio Primaverii, salas
abrigavam tesouros do casal; numa delas, empilhavam-se até quase o teto
tapetes persas e peles de animais. Quase tudo foi leiloado ou então doado
caso dos 9.000 ternos de Nicolae, que devem ter servido em pouca gente,
visto que ele tinha 1,58 metro de altura.  |  | | Saddam,
no Iraque: salas públicas sem nada na parede; loiros, loiras e monstros nos aposentos
íntimos |
Também Slobodan
Milosevic, o presidente da Sérvia que morreu em março numa cela
do Tribunal Penal Internacional, onde era julgado pelas atrocidades que cometeu
no poder, instalou-se em grande estilo com a mulher, Mira, na Casa Branca, como
é chamado o antigo palácio real nos arredores de Belgrado. Lá
viveram em opulentos ambientes de inspiração oriental, entre eles
uma sala de bilhar instalada numa antiga capela. Antes dos Milosevic, Josip Broz
Tito deixou sua marca em imóveis variados da então Iugoslávia,
onde imperou sozinho por 35 anos, até morrer em 1980. Homem do povo que
era, gostava de servir ele mesmo os convidados em sua copa-cozinha, onde uma videira
de ferro equilibrava garrafas de vinho. Outro toque oriental se fez presente no
coração da África: Mobutu, que amealhou fortuna incalculável
nos mais de trinta anos em que administrou o paupérrimo Zaire (hoje República
Democrática do Congo) como se fosse a fazenda da família, ganhou
do colega Mao Tsé-tung um pequeno pavilhão chinês, que agregou
ao complexo de Gbadolite, a maior de suas onze casas no país a pista
de pouso acomodava Concorde. Gbadolite foi crescendo, foi crescendo e virou uma
mixórdia sem, digamos, estilo. Já a casa à beira de um lago
em Goma inspirava-se nos castelos franceses, com mármores, torneiras douradas,
fontes e lustres rebuscados.  |  | | Ceausescu,
na Romênia: banheiros e banheiras por toda parte e uma sala repleta de tapetes
e peles |
Mais conhecidos,
por terem sido amplamente fotografados após a queda do dono em 2003, são
os palácios de Saddam Hussein salões enormes e jeito de que
ninguém efetivamente morava neles. Nas áreas públicas, impressiona
a falta de quadros nas paredes (até porque o Islã proíbe
a reprodução da figura humana). Nos aposentos íntimos, surpreende
a coleção de, digamos, pinturas que beiram a ficção
científica, com loiros musculosos e loiras bem dotadas (ambos seminus)
lutando contra cobras, dragões e monstros. Engraçado? Sem dúvida.
"Mas nós olhamos para essas coisas com o olhar irônico do século
XXI", explica York. "E nessas sociedades nunca existiu um olhar assim." Ou existiu;
difícil mesmo era poder lhe dar expressão. |