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Saúde
Sem tempo para ninharias
Pesquisa diz que a mulher que
trabalha fora e ainda cuida da
casa é menos sujeita ao stress

Rosana Zakabi
Nélio Rodrigues/1º Plano
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| Beatriz Bicalho com os filhos: "Uma folga
maior me deixa ansiosa" |
A dupla jornada de trabalho
como se chama a obrigação feminina de cuidar da casa
e dos filhos depois de um dia inteiro no escritório
tem sido usada como explicação para o elevado grau
de stress entre as mulheres. Uma pesquisa da filial brasileira da
International Stress Management Association (Isma) sugere que isso
pode não passar de mito. O estudo, feito com 220 funcionárias
de grandes empresas e donas-de-casa de São Paulo e Porto
Alegre, chegou à conclusão de que conciliar o trabalho,
a atenção aos filhos e os afazeres domésticos
é menos estressante do que se dedicar a apenas uma dessas
tarefas. A explicação estaria no fato de que, ao exercer
duas ou mais atividades de igual relevância, a mulher divide
suas preocupações e deixa de concentrar todas as expectativas
e frustrações em apenas uma delas. Ou seja, para dar
conta das múltiplas tarefas, acaba por não dar tanto
peso aos problemas menores.
Pelos resultados da pesquisa,
a dedicação exclusiva, ao contrário, tende
a gerar mais ansiedade e insatisfação. Se o trabalho
é a única atividade de uma mulher, uma briga com o
chefe pode ganhar proporções mais devastadoras do
que merece. "Quando existem outras fontes de preocupação,
a tendência é reagir aos problemas no trabalho com
o seguinte pensamento: está ruim, mas não é
tudo na minha vida", interpretou para VEJA a psicóloga americana
Christina Maslach, autora de uma dezena livros sobre stress (veja
entrevista). Uma pesquisa do University College London,
divulgada há três semanas, complementa as conclusões
da Isma-Brasil. O estudo inglês mostrou que mulheres na faixa
dos 50 anos que são mães, esposas e trabalham fora
têm melhor saúde e menos problemas de sobrepeso que
as que são exclusivamente donas-de-casa.
Mirian Fichtner/Pluf Fotos
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| Myrian Lima: uma nova carreira depois que
os filhos cresceram |
Os pesquisadores ingleses compararam
os registros de saúde de 2.000 voluntárias durante
um período de 28 anos. Entre as donas-de-casa, 40% tornaram-se
obesas, contra 20% das mulheres que fazem dupla jornada. De modo
geral, as mulheres cuja rotina se restringe ao lar comem mais e
se exercitam menos que aquelas com atividades mais intensas fora.
"Fiquei um dia inteiro em casa e comi o tempo todo", diz a mineira
Beatriz Bicalho, 37 anos, mãe de Gabriel, de 7 anos, e Bruna,
de 5. Coordenadora de uma academia de ginástica de manhã
e à noite, Beatriz dá aulas uma vez por semana em
uma faculdade de Belo Horizonte e no período da tarde cuida
dos filhos. "Estou tão acostumada com essa rotina que fico
mais estressada e ansiosa quando tenho uma folga maior que a prevista."
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25% das mulheres com
dupla jornada sentem-se estressadas. Entre aquelas com
uma única atividade trabalho ou dona-de-casa
,
o índice sobe para 37%
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A julgar pelos dados da pesquisa
brasileira, quanto mais avançada a idade, maior a satisfação
feminina em exercer várias funções. Seis em
cada dez mulheres de 20 a 44 anos entrevistadas pela Isma disseram-se
gratificadas com a diversidade de papéis. O porcentual passou
de 80% entre as que têm de 45 a 60 anos. Nessa faixa etária,
cuidar de filhos já não toma muito tempo. Com quatro
filhos, Myrian Eppinghaus Cirne Lima, de Porto Alegre, optou logo
depois do casamento por ser dona-de-casa. "Comecei a me sentir cada
vez mais frustrada, ficava remoendo problemas e qualquer coisinha
me estressava", diz Myrian. Quando os filhos entraram na adolescência,
ela voltou para a universidade. Hoje, é uma arquiteta de
sucesso. Depois de trabalhar o dia inteiro, ela tem uma vida social
intensa, com compromissos quase todas as noites. "Ter várias
funções só é desgastante se a vida pessoal
não vai bem", diz a psicóloga Ana Maria Rossi, de
Porto Alegre, coordenadora da pesquisa da Isma. "Se o casamento
está em crise, por exemplo, a diversidade de papéis
tem um efeito contrário e os riscos de stress e outros problemas
de saúde aumentam." Isso é exatamente o que mostra
um estudo recente feito em hospitais de Toronto, no Canadá:
mulheres com trabalho estressante mas casamento satisfatório
têm menor probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares.
Se a pressão em casa também é grande, no entanto,
o risco de doenças mais do que dobra.
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O
MAIOR STRESS
Divulgação
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A psicóloga americana Christina Maslach, da Universidade
da Califórnia, nos Estados Unidos, é especialista
em síndrome de burnout, nome dado ao stress em
grau extremo. Christina, que estará no Brasil
neste mês para um congresso, concedeu a seguinte
entrevista a VEJA.
COMO IDENTIFICAR
A SÍNDROME DE BURNOUT?
Ao contrário do stress agudo, que ocorre
em momentos específicos, com picos de altos e
baixos, o burnout leva a uma exaustão constante
e intensa. Quem sofre do problema começa a se
sentir cada vez mais inútil na atividade que
exerce.
QUAIS SÃO
AS CAUSAS?
O pior é exercer atividade que não
condiz com os próprios valores, achar que o trabalho
realizado não é reconhecido pela chefia
e se sentir sobrecarregado com o excesso de funções.
O STRESS É
MAIS SEVERO PARA QUEM FAZ HORA EXTRA E LEVA TRABALHO
PARA CASA?
Não necessariamente. Trabalhar pesado nada
tem a ver com o stress ou o burnout. Quem trabalha mais
do que os colegas mas gosta do que faz sentirá
menos exaustão do que uma pessoa que trabalha
apenas meio período mas se sente frustrada com
a profissão escolhida.
COMO EVITAR O
BURNOUT?
Uma das principais estratégias é
sentir satisfação na atividade que se
exerce, acreditar que a missão foi cumprida após
a execução de um relatório ou de
um projeto. Quem acumula fracassos é um forte
candidato a ter burnout. Atividades paralelas, como
praticar esportes e fazer trabalho voluntário,
também ajudam.
OS RICOS SÃO
MENOS ESTRESSADOS QUE OS POBRES?
Sim, na maioria dos casos. Eles têm mais
acesso a bons tratamentos de saúde e atividades
de lazer, fatores que ajudam a reduzir situações
de stress.
NUM AMBIENTE DE
TRABALHO, QUEM É MAIS ESTRESSADO, O CHEFE OU
O SUBORDINADO?
Os mais estressados costumam ser aqueles que se
encontram na posição "sanduíche",
ou seja, os que coordenam uma equipe e, ao mesmo tempo,
têm uma chefia acima deles. Não têm
todas as decisões em suas mãos, como seus
chefes, mas têm a responsabilidade de garantir
que seus subordinados trabalhem de forma eficiente.
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