Edição 1959 . 7 de junho de 2006

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Saúde
Sem tempo para ninharias

Pesquisa diz que a mulher que
trabalha fora e ainda cuida da
casa é menos sujeita ao stress


Rosana Zakabi


Nélio Rodrigues/1º Plano
Beatriz Bicalho com os filhos: "Uma folga maior me deixa ansiosa"

A dupla jornada de trabalho – como se chama a obrigação feminina de cuidar da casa e dos filhos depois de um dia inteiro no escritório – tem sido usada como explicação para o elevado grau de stress entre as mulheres. Uma pesquisa da filial brasileira da International Stress Management Association (Isma) sugere que isso pode não passar de mito. O estudo, feito com 220 funcionárias de grandes empresas e donas-de-casa de São Paulo e Porto Alegre, chegou à conclusão de que conciliar o trabalho, a atenção aos filhos e os afazeres domésticos é menos estressante do que se dedicar a apenas uma dessas tarefas. A explicação estaria no fato de que, ao exercer duas ou mais atividades de igual relevância, a mulher divide suas preocupações e deixa de concentrar todas as expectativas e frustrações em apenas uma delas. Ou seja, para dar conta das múltiplas tarefas, acaba por não dar tanto peso aos problemas menores.

Pelos resultados da pesquisa, a dedicação exclusiva, ao contrário, tende a gerar mais ansiedade e insatisfação. Se o trabalho é a única atividade de uma mulher, uma briga com o chefe pode ganhar proporções mais devastadoras do que merece. "Quando existem outras fontes de preocupação, a tendência é reagir aos problemas no trabalho com o seguinte pensamento: está ruim, mas não é tudo na minha vida", interpretou para VEJA a psicóloga americana Christina Maslach, autora de uma dezena livros sobre stress (veja entrevista). Uma pesquisa do University College London, divulgada há três semanas, complementa as conclusões da Isma-Brasil. O estudo inglês mostrou que mulheres na faixa dos 50 anos que são mães, esposas e trabalham fora têm melhor saúde e menos problemas de sobrepeso que as que são exclusivamente donas-de-casa.


Mirian Fichtner/Pluf Fotos
Myrian Lima: uma nova carreira depois que os filhos cresceram

Os pesquisadores ingleses compararam os registros de saúde de 2.000 voluntárias durante um período de 28 anos. Entre as donas-de-casa, 40% tornaram-se obesas, contra 20% das mulheres que fazem dupla jornada. De modo geral, as mulheres cuja rotina se restringe ao lar comem mais e se exercitam menos que aquelas com atividades mais intensas fora. "Fiquei um dia inteiro em casa e comi o tempo todo", diz a mineira Beatriz Bicalho, 37 anos, mãe de Gabriel, de 7 anos, e Bruna, de 5. Coordenadora de uma academia de ginástica de manhã e à noite, Beatriz dá aulas uma vez por semana em uma faculdade de Belo Horizonte e no período da tarde cuida dos filhos. "Estou tão acostumada com essa rotina que fico mais estressada e ansiosa quando tenho uma folga maior que a prevista."

25% das mulheres com
dupla jornada sentem-se estressadas. Entre aquelas com uma única atividade – trabalho ou dona-de-casa –,
o índice sobe para 37%

A julgar pelos dados da pesquisa brasileira, quanto mais avançada a idade, maior a satisfação feminina em exercer várias funções. Seis em cada dez mulheres de 20 a 44 anos entrevistadas pela Isma disseram-se gratificadas com a diversidade de papéis. O porcentual passou de 80% entre as que têm de 45 a 60 anos. Nessa faixa etária, cuidar de filhos já não toma muito tempo. Com quatro filhos, Myrian Eppinghaus Cirne Lima, de Porto Alegre, optou logo depois do casamento por ser dona-de-casa. "Comecei a me sentir cada vez mais frustrada, ficava remoendo problemas e qualquer coisinha me estressava", diz Myrian. Quando os filhos entraram na adolescência, ela voltou para a universidade. Hoje, é uma arquiteta de sucesso. Depois de trabalhar o dia inteiro, ela tem uma vida social intensa, com compromissos quase todas as noites. "Ter várias funções só é desgastante se a vida pessoal não vai bem", diz a psicóloga Ana Maria Rossi, de Porto Alegre, coordenadora da pesquisa da Isma. "Se o casamento está em crise, por exemplo, a diversidade de papéis tem um efeito contrário e os riscos de stress e outros problemas de saúde aumentam." Isso é exatamente o que mostra um estudo recente feito em hospitais de Toronto, no Canadá: mulheres com trabalho estressante mas casamento satisfatório têm menor probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares. Se a pressão em casa também é grande, no entanto, o risco de doenças mais do que dobra.

 

O MAIOR STRESS

Divulgação


A psicóloga americana Christina Maslach, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, é especialista em síndrome de burnout, nome dado ao stress em grau extremo. Christina, que estará no Brasil neste mês para um congresso, concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

COMO IDENTIFICAR A SÍNDROME DE BURNOUT?
Ao contrário do stress agudo, que ocorre em momentos específicos, com picos de altos e baixos, o burnout leva a uma exaustão constante e intensa. Quem sofre do problema começa a se sentir cada vez mais inútil na atividade que exerce.

QUAIS SÃO AS CAUSAS?
O pior é exercer atividade que não condiz com os próprios valores, achar que o trabalho realizado não é reconhecido pela chefia e se sentir sobrecarregado com o excesso de funções.

O STRESS É MAIS SEVERO PARA QUEM FAZ HORA EXTRA E LEVA TRABALHO PARA CASA?
Não necessariamente. Trabalhar pesado nada tem a ver com o stress ou o burnout. Quem trabalha mais do que os colegas mas gosta do que faz sentirá menos exaustão do que uma pessoa que trabalha apenas meio período mas se sente frustrada com a profissão escolhida.

COMO EVITAR O BURNOUT?
Uma das principais estratégias é sentir satisfação na atividade que se exerce, acreditar que a missão foi cumprida após a execução de um relatório ou de um projeto. Quem acumula fracassos é um forte candidato a ter burnout. Atividades paralelas, como praticar esportes e fazer trabalho voluntário, também ajudam.

OS RICOS SÃO MENOS ESTRESSADOS QUE OS POBRES?
Sim, na maioria dos casos. Eles têm mais acesso a bons tratamentos de saúde e atividades de lazer, fatores que ajudam a reduzir situações de stress.

NUM AMBIENTE DE TRABALHO, QUEM É MAIS ESTRESSADO, O CHEFE OU O SUBORDINADO?
Os mais estressados costumam ser aqueles que se encontram na posição "sanduíche", ou seja, os que coordenam uma equipe e, ao mesmo tempo, têm uma chefia acima deles. Não têm todas as decisões em suas mãos, como seus chefes, mas têm a responsabilidade de garantir que seus subordinados trabalhem de forma eficiente.

 
 
 
 
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