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Aventura
Chame o sherpa
No Everest, ajudar um montanhista doente é
raridade a tarefa é relegada aos nepaleses

Duda Teixeira
A ambição de chegar
ao topo da montanha mais alta do mundo justifica deixar de socorrer
um companheiro à beira da morte? A resposta para a maioria
das pessoas com certeza é não. O padrão ético
que prevalece no Monte Everest, o pico de 8.850 metros de altitude
na Cordilheira do Himalaia, na fronteira da China com o Nepal, é
menos nobre. Sofrendo com o ar rarefeito, com os dedos congelados
pela temperatura de 30 graus negativos e conscientes de terem pago
no mínimo 20.000 dólares para estar ali, os alpinistas
têm como regra ajudar apenas a si próprios acima dos
8.000 metros. No dia 15 do mês passado, o inglês David
Sharp, 34 anos, sentiu-se mal por causa da altitude. Quarenta alpinistas
passaram pelo montanhista e nada fizeram. Sharp morreu naquela noite
dentro de uma caverna. Dez dias depois, o australiano Lincoln Hall,
50 anos, chegou ao pico e, no percurso de volta, caiu exausto. Seus
companheiros de escalada continuaram a descida e deixaram três
sherpas para ajudá-lo. Os sherpas, um povo do Nepal nascido
e criado em aldeias acima de 3.000 metros, estão acostumados
à altitude elevada e especializaram-se em ser auxiliares
e carregadores dos alpinistas. Após nove horas, os sherpas
também desistiram de Hall e o abandonaram na neve. No dia
seguinte, três montanhistas o encontraram parcialmente sem
roupa e sem gorro. "Vocês devem estar surpresos de me ver
aqui", disse o australiano. Quem eles chamaram para socorrer o milagroso
sobrevivente? Os sherpas, claro. Por rádio, os alpinistas
pediram ajuda ao acampamento, de onde foi enviada uma equipe de
carregadores para fazer o resgate.
As duas histórias de abandono
aconteceram na zona da morte, acima de 8.000 metros de altitude.
A partir daí, há um sério risco de o alpinista
sofrer desidratação, edema cerebral ou pulmonar e
alucinações. A única maneira de se salvar é
descer a pé, já que a atmosfera rala praticamente
impede o resgate de helicóptero. O brasileiro Vitor Negrete,
morto há duas semanas depois de atingir o cume pelo caminho
mais difícil e sem o auxílio de oxigênio, foi
vítima dessas condições extremas. "Nessa altitude
é difícil manter-se vivo, quanto mais salvar a vida
de outra pessoa", disse o neozelandês Mark Inglis, o primeiro
homem com as pernas amputadas a chegar ao cume do Everest. Inglis
testemunhou a agonia de Sharp e também não
se sentiu capaz de ajudar. À preocupação com
a própria vida junta-se outra razão para os atletas
não socorrerem os colegas: o compromisso com o patrocinador.
"Na cabeça dos montanhistas, voltar para casa sem chegar
ao cume equivale a romper o contrato, apesar de nenhum patrocinador
fazer essa exigência", diz o paranaense Alir Wellner, que
subiu o Everest em 2002 com o conterrâneo Waldemar Niclevicz.
A temporada deste ano no Everest,
encerrada no fim de maio, foi a segunda mais letal da história
foram dez mortes, duas a menos que em 1996, o ano mais trágico.
As fatalidades se multiplicaram com a popularização
do desafio de chegar ao topo do mundo. Desde que o neozelandês
Edmund Hillary e o sherpa Tenzing Norgay alcançaram o cume,
em 1953, 2 557 pessoas repetiram a façanha até o ano
passado. Por 10.000 dólares, podem-se contratar dois sherpas
para carregar toda a bagagem necessária para a expedição.
O turista leva apenas uma garrafinha de água, um cilindro
de oxigênio e o lanche. A partir dos 8.000 metros, os sherpas
não são obrigados a seguir em frente. Por um bônus
de 500 dólares, no entanto, eles podem acompanhar o cliente.
"Os sherpas se acostumaram a fazer tudo por dinheiro e, assim, fica
mais difícil alguém ajudar outra pessoa por pura compaixão",
diz Niclevicz. Aos sherpas recai também a tarefa de resgatar
quem ficou para trás na montanha desde que, para isso,
sejam bem pagos. De graça só o bom-mocismo de alguns
atletas altruístas. Por duas vezes, o casal de paulistas
Paulo e Helena Coelho teve de desistir de alcançar o cume
do Everest para ajudar outros montanhistas. Em 1999, eles socorreram
o português João Garcia. Chegaram a pedir ajuda aos
líderes de outras expedições e a seus sherpas,
mas não foram atendidos. No mês passado, Paulo precisou
voltar ao acampamento com um malásio, auxiliado por dois
sherpas. Ao comentar a morte de David Sharp, o pioneiro Edmund Hillary
disse, na semana passada: "Eu não deixaria nenhum membro
da minha expedição para trás". O romantismo
das escaladas no Everest parece ter chegado ao fim.

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