Edição 1959 . 7 de junho de 2006

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Aventura
Chame o sherpa

No Everest, ajudar um montanhista doente é
raridade – a tarefa é relegada aos nepaleses


Duda Teixeira

A ambição de chegar ao topo da montanha mais alta do mundo justifica deixar de socorrer um companheiro à beira da morte? A resposta para a maioria das pessoas com certeza é não. O padrão ético que prevalece no Monte Everest, o pico de 8.850 metros de altitude na Cordilheira do Himalaia, na fronteira da China com o Nepal, é menos nobre. Sofrendo com o ar rarefeito, com os dedos congelados pela temperatura de 30 graus negativos e conscientes de terem pago no mínimo 20.000 dólares para estar ali, os alpinistas têm como regra ajudar apenas a si próprios acima dos 8.000 metros. No dia 15 do mês passado, o inglês David Sharp, 34 anos, sentiu-se mal por causa da altitude. Quarenta alpinistas passaram pelo montanhista e nada fizeram. Sharp morreu naquela noite dentro de uma caverna. Dez dias depois, o australiano Lincoln Hall, 50 anos, chegou ao pico e, no percurso de volta, caiu exausto. Seus companheiros de escalada continuaram a descida e deixaram três sherpas para ajudá-lo. Os sherpas, um povo do Nepal nascido e criado em aldeias acima de 3.000 metros, estão acostumados à altitude elevada e especializaram-se em ser auxiliares e carregadores dos alpinistas. Após nove horas, os sherpas também desistiram de Hall e o abandonaram na neve. No dia seguinte, três montanhistas o encontraram parcialmente sem roupa e sem gorro. "Vocês devem estar surpresos de me ver aqui", disse o australiano. Quem eles chamaram para socorrer o milagroso sobrevivente? Os sherpas, claro. Por rádio, os alpinistas pediram ajuda ao acampamento, de onde foi enviada uma equipe de carregadores para fazer o resgate.

As duas histórias de abandono aconteceram na zona da morte, acima de 8.000 metros de altitude. A partir daí, há um sério risco de o alpinista sofrer desidratação, edema cerebral ou pulmonar e alucinações. A única maneira de se salvar é descer a pé, já que a atmosfera rala praticamente impede o resgate de helicóptero. O brasileiro Vitor Negrete, morto há duas semanas depois de atingir o cume pelo caminho mais difícil e sem o auxílio de oxigênio, foi vítima dessas condições extremas. "Nessa altitude é difícil manter-se vivo, quanto mais salvar a vida de outra pessoa", disse o neozelandês Mark Inglis, o primeiro homem com as pernas amputadas a chegar ao cume do Everest. Inglis testemunhou a agonia de Sharp – e também não se sentiu capaz de ajudar. À preocupação com a própria vida junta-se outra razão para os atletas não socorrerem os colegas: o compromisso com o patrocinador. "Na cabeça dos montanhistas, voltar para casa sem chegar ao cume equivale a romper o contrato, apesar de nenhum patrocinador fazer essa exigência", diz o paranaense Alir Wellner, que subiu o Everest em 2002 com o conterrâneo Waldemar Niclevicz.

A temporada deste ano no Everest, encerrada no fim de maio, foi a segunda mais letal da história – foram dez mortes, duas a menos que em 1996, o ano mais trágico. As fatalidades se multiplicaram com a popularização do desafio de chegar ao topo do mundo. Desde que o neozelandês Edmund Hillary e o sherpa Tenzing Norgay alcançaram o cume, em 1953, 2 557 pessoas repetiram a façanha até o ano passado. Por 10.000 dólares, podem-se contratar dois sherpas para carregar toda a bagagem necessária para a expedição. O turista leva apenas uma garrafinha de água, um cilindro de oxigênio e o lanche. A partir dos 8.000 metros, os sherpas não são obrigados a seguir em frente. Por um bônus de 500 dólares, no entanto, eles podem acompanhar o cliente. "Os sherpas se acostumaram a fazer tudo por dinheiro e, assim, fica mais difícil alguém ajudar outra pessoa por pura compaixão", diz Niclevicz. Aos sherpas recai também a tarefa de resgatar quem ficou para trás na montanha – desde que, para isso, sejam bem pagos. De graça só o bom-mocismo de alguns atletas altruístas. Por duas vezes, o casal de paulistas Paulo e Helena Coelho teve de desistir de alcançar o cume do Everest para ajudar outros montanhistas. Em 1999, eles socorreram o português João Garcia. Chegaram a pedir ajuda aos líderes de outras expedições e a seus sherpas, mas não foram atendidos. No mês passado, Paulo precisou voltar ao acampamento com um malásio, auxiliado por dois sherpas. Ao comentar a morte de David Sharp, o pioneiro Edmund Hillary disse, na semana passada: "Eu não deixaria nenhum membro da minha expedição para trás". O romantismo das escaladas no Everest parece ter chegado ao fim.


 






 
 
 
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