|
|
Internacional
Novo e já acabado
Laboratório da ONU na reconstrução
de países
falidos, o Timor Leste é tomado pelo caos

Duda Teixeira
Adrees Latif/Reuters
 |
| Saqueadores no Timor: o governo perde o controle
|
O Timor Leste é o laboratório
da ONU para uma nova ciência: a de reconstruir nações
falidas por colapsos sociais ou guerras. Parte de uma pequena ilha
do Oceano Índico, o país tornou-se independente da
Indonésia em 1999 um processo que levou à morte
mais de 100.000 pessoas e foi governado por funcionários
das Nações Unidas até 2002, quando os timorenses
elegeram seu primeiro presidente. No mês passado, o mandato
da força de paz internacional no país teve de ser
estendido porque o caos havia se instalado nas ruas de Díli,
a capital. Um confronto envolvendo o Exército, a polícia
e gangues armadas com facões, pedras e revólveres
matou 27 pessoas e fez com que 90.000 moradores se refugiassem nas
montanhas, fora da cidade. Aproveitando a desordem, jovens desempregados
saquearam supermercados e repartições públicas
e incendiaram casas. A confusão começou depois que
o primeiro-ministro Mari Alkatiri demitiu quase metade do contingente
do Exército para conter uma greve. Os soldados demitidos,
que se dizem discriminados por ser de etnias do oeste do país,
rebelaram-se. Em meio a esse cenário, a experiência
da ONU no Timor Leste parece condenada ao fracasso. "É lamentável,
depois de todo o esforço, ver que o país voltou à
estaca zero", diz a juíza paulista Dora Martins, que está
entre os três magistrados estrangeiros do tribunal de Díli.
Em seu esforço para construir
um Estado no Timor Leste, a ONU tentou criar as instituições
básicas de uma democracia, incluindo um poder executivo,
tribunais, forças de segurança, sistema escolar e
serviço de saúde. Há duas razões para
o fracasso nessa missão. A primeira é que o Timor
Leste não tem uma cultura de instituições.
A dificuldade de criar um sistema judicial no país é
prova disso. Não há advogados nem juristas timorenses
suficientes para assumir as funções nos tribunais.
Os trinta dialetos vigentes no país também atrapalham.
É comum ter em uma audiência judicial testemunhas e
juízes falando quatro ou mais línguas. A segunda razão
para o fiasco do laboratório da ONU é que o Timor
Leste é um país praticamente sem economia. A agricultura
local foi destruída durante a retaliação das
milícias pró-Indonésia à independência.
Nos primeiros anos da intervenção internacional, a
economia dependia do consumo e dos empregos gerados por funcionários
e soldados estrangeiros. Essa demanda diminuiu nos últimos
anos. Em Díli, 27% da população jovem está
desempregada. Espera-se que a exploração de petróleo,
iniciada em 2004, possa trazer novo fôlego ao Timor Leste.
O país já acumulou 420 milhões de dólares
com a renda petroleira, mais do que o PIB nacional, de 370 milhões
de dólares. "O governo timorense, no entanto, não
tem funcionários capacitados para criar uma política
de fomento econômico com esses recursos", diz Antonio Barbedo
de Magalhães, especialista em Ásia da Universidade
do Porto, em Portugal.
|