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Brasil Arte
e luxo em Guarulhos Presos no Centro
de Detenção Provisória, dois socialites provam que gente
fina não é outra coisa  Felipe
Patury Flavia
Vitoria/AE
 | Beto
Barata/AE
 | | Edemar
e Marcia Cid Ferreira (à esq.) surrupiaram dinheiro de clientes;
Piva, da Daslu, fez mais um contrabando |
A cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo, ganhou a atenção
dos colunistas sociais graças a dois hóspedes ilustres: o ex-banqueiro
Edemar Cid Ferreira, do antigo Banco Santos, e Antonio Carlos Piva de Albuquerque,
sócio e irmão de Eliana Tranchesi, dona da butique Daslu. Desde
a semana passada, ambos estão trancafiados no Centro de Detenção
Provisória da cidade, conhecido entre a bandidagem como CDP de Guarulhos.
O sócio da Daslu tirou o passaporte para a cadeia depois que a Receita
Federal descobriu que a loja, da qual ele é diretor financeiro, continua
no ramo do contrabando. Já Edemar ganhou sua passagem para o CDP por obstruir
a Justiça. Ele tentava convencer o governo de Antígua e Barbuda,
no Caribe, a ocultar informações bancárias suas dos juízes
brasileiros. Edemar mantinha em Antígua
negócios de deixar boquiaberta a turma do PCC, hoje sua vizinha. Na ilha
caribenha, o ex-banqueiro fundou o Bank of Europe, uma instituição
de fachada que servia apenas como entreposto para o dinheiro que clientes brasileiros
de Edemar possuíam ilegalmente no exterior. Tão logo eram depositados
em Antígua, os recursos eram transferidos para bancos de primeira linha
em países ricos. Quando o Banco Santos quebrou, os clientes de Edemar descobriram
que o banqueiro havia se apropriado de boa parte do seu patrimônio financeiro.
Documentos obtidos por VEJA mostram que ele lesou noventa grandes investidores
e torrou 250 milhões de dólares das economias alheias para construir,
mobiliar e decorar sua mansão de 4.100 metros quadrados em São Paulo.
O imóvel abriga tantas obras de arte que a Justiça brasileira já
tentou até transformá-lo em museu público. Mais: Edemar desviou
180 milhões de dólares dos clientes para a conta de sua mulher,
Marcia Cid Ferreira, no Bank of America.
O golpe de Edemar funcionava assim: os gerentes do Banco Santos convenciam grandes
investidores a aplicar num fundo de investimentos do Bank of Europe. O dinheiro,
no entanto, ia direto para duas contas de Edemar, uma no Bank of America e a outra
no Standard Chartered Bank, sediado na Inglaterra. De lá, os recursos eram
usados para pagar despesas pessoais do ex-banqueiro. Foram encontrados registros
de transferências bancárias que ilustram como era o estilo de vida
de Edemar na fase pré-CDP de Guarulhos. Só para seu decorador e
arquiteto pessoal, ele transferiu 6,6 milhões de dólares entre 2002
e 2003. Outros 5 milhões de dólares foram para galerias de arte
de Londres, Paris, Nova York e Hong Kong. As casas de leilão Christie's
e Sotheby's receberam 4,6 milhões de dólares. A lista inclui ainda
pagamento por tapetes persas, móveis, pisos de mármore e até
eletrodomésticos. Para não falar de um cartão de crédito
cuja fatura mensal chegou a alcançar 100.000 dólares.
A fraude só foi descoberta depois que o Banco Santos entrou em intervenção
judicial. Quando a instituição brasileira fechou as portas, os investidores
tentaram resgatar os recursos e descobriram que as aplicações tinham
virado pó. Edemar alegou que o dinheiro desaparecera porque havia sido
emprestado para a Alsace Lorraine, uma empresa que também quebrara. Só
não disse que a tal Alsace Lorraine era uma empresa-fantasma aberta por
ele em outro paraíso fiscal, as Ilhas Virgens Britânicas. Em fevereiro
passado, os antigos clientes de Edemar abriram um processo na corte de Nova York
para tentar reaver o dinheiro que perderam. Eles afirmam que o Bank of America
e o Standard Chartered Bank conheciam as fraudes. Por isso, acusam-nos de lavagem
de dinheiro e exigem que eles arquem com o seu prejuízo.
Agora que está na detenção provisória em Guarulhos,
Edemar tem de se contentar com uma decoração clean. Sua cela tem
beliches de alvenaria, chuveiro e vaso sanitário distribuídos em
exíguos 14 metros quadrados (caberiam 293 desses quartinhos na mansão
do ex-banqueiro). Ao chegar à prisão, ele recebeu uma toalha, um
sabonete, uma calça e uma camisa amarela um figurino, assim, ao
estilo casual-despojado do PCC. Antonio Carlos Piva de Albuquerque ganhou um kit
idêntico. Foi instalado numa cela vizinha depois que a Receita Federal interceptou
um carregamento de bolsas Gucci e Chanel no valor de 1,7 milhão de reais.
O sócio da Daslu é acusado de sonegar 330.000 reais só nessa
operação. A Polícia Federal também apreendeu o passaporte
de sua irmã, a socialite Eliana Tranchesi, a face mais conhecida da Daslu.
Alexandre
de Paulo/ADP
 | | O
presídio de Guarulhos: a decoração é, digamos, clean |
De ícone do consumo de luxo no país, a butique paulistana passou
a vitrine de escândalos. Logo depois da inauguração de sua
nova sede, no ano passado, a Polícia Federal descobriu que a Daslu obtinha
lucros astronômicos porque Eliana e seu irmão não eram lá
muito chegados em pagar impostos. Desde então, os produtos importados sumiram
das prateleiras. "O mercado inteirinho está abastecido. Por que as outras
lojas têm bolsa importada e eu não consigo ter?", reclama Eliana.
A nova estratégia é vender produtos brasileiros no circuito Elizabeth
Arden (Nova York, Londres, Paris e Roma), invertendo a mão do comércio.
Piva, por enquanto, fica fora do negócio. Sua perspectiva turística
mais próxima é aproveitar as duas horas diárias de banho
de sol a que terá direito no presídio. "Quando a gente está
presa, não sabe o que vai acontecer. Eu sei o que o meu irmão está
passando", preocupa-se Eliana. Não é preciso exagerar. No pátio
do CDP de Guarulhos, Antonio Carlos Piva de Albuquerque poderá fazer novos
amigos e conversar sobre negócios, moda e arte com o colega Edemar Cid
Ferreira. Mas que ninguém se engane: gente fina não é, definitivamente,
outra coisa. Com reportagem
de Fábio Portela |