Edição 1959 . 7 de junho de 2006

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Brasil
Arte e luxo em Guarulhos

Presos no Centro de Detenção Provisória,
dois socialites provam que gente fina
não é outra coisa


Felipe Patury

 
Flavia Vitoria/AE
Beto Barata/AE
Edemar e Marcia Cid Ferreira (à esq.) surrupiaram dinheiro de clientes; Piva, da Daslu, fez mais um contrabando

A cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo, ganhou a atenção dos colunistas sociais graças a dois hóspedes ilustres: o ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, do antigo Banco Santos, e Antonio Carlos Piva de Albuquerque, sócio e irmão de Eliana Tranchesi, dona da butique Daslu. Desde a semana passada, ambos estão trancafiados no Centro de Detenção Provisória da cidade, conhecido entre a bandidagem como CDP de Guarulhos. O sócio da Daslu tirou o passaporte para a cadeia depois que a Receita Federal descobriu que a loja, da qual ele é diretor financeiro, continua no ramo do contrabando. Já Edemar ganhou sua passagem para o CDP por obstruir a Justiça. Ele tentava convencer o governo de Antígua e Barbuda, no Caribe, a ocultar informações bancárias suas dos juízes brasileiros.

Edemar mantinha em Antígua negócios de deixar boquiaberta a turma do PCC, hoje sua vizinha. Na ilha caribenha, o ex-banqueiro fundou o Bank of Europe, uma instituição de fachada que servia apenas como entreposto para o dinheiro que clientes brasileiros de Edemar possuíam ilegalmente no exterior. Tão logo eram depositados em Antígua, os recursos eram transferidos para bancos de primeira linha em países ricos. Quando o Banco Santos quebrou, os clientes de Edemar descobriram que o banqueiro havia se apropriado de boa parte do seu patrimônio financeiro. Documentos obtidos por VEJA mostram que ele lesou noventa grandes investidores e torrou 250 milhões de dólares das economias alheias para construir, mobiliar e decorar sua mansão de 4.100 metros quadrados em São Paulo. O imóvel abriga tantas obras de arte que a Justiça brasileira já tentou até transformá-lo em museu público. Mais: Edemar desviou 180 milhões de dólares dos clientes para a conta de sua mulher, Marcia Cid Ferreira, no Bank of America.

O golpe de Edemar funcionava assim: os gerentes do Banco Santos convenciam grandes investidores a aplicar num fundo de investimentos do Bank of Europe. O dinheiro, no entanto, ia direto para duas contas de Edemar, uma no Bank of America e a outra no Standard Chartered Bank, sediado na Inglaterra. De lá, os recursos eram usados para pagar despesas pessoais do ex-banqueiro. Foram encontrados registros de transferências bancárias que ilustram como era o estilo de vida de Edemar na fase pré-CDP de Guarulhos. Só para seu decorador e arquiteto pessoal, ele transferiu 6,6 milhões de dólares entre 2002 e 2003. Outros 5 milhões de dólares foram para galerias de arte de Londres, Paris, Nova York e Hong Kong. As casas de leilão Christie's e Sotheby's receberam 4,6 milhões de dólares. A lista inclui ainda pagamento por tapetes persas, móveis, pisos de mármore e até eletrodomésticos. Para não falar de um cartão de crédito cuja fatura mensal chegou a alcançar 100.000 dólares.

A fraude só foi descoberta depois que o Banco Santos entrou em intervenção judicial. Quando a instituição brasileira fechou as portas, os investidores tentaram resgatar os recursos e descobriram que as aplicações tinham virado pó. Edemar alegou que o dinheiro desaparecera porque havia sido emprestado para a Alsace Lorraine, uma empresa que também quebrara. Só não disse que a tal Alsace Lorraine era uma empresa-fantasma aberta por ele em outro paraíso fiscal, as Ilhas Virgens Britânicas. Em fevereiro passado, os antigos clientes de Edemar abriram um processo na corte de Nova York para tentar reaver o dinheiro que perderam. Eles afirmam que o Bank of America e o Standard Chartered Bank conheciam as fraudes. Por isso, acusam-nos de lavagem de dinheiro e exigem que eles arquem com o seu prejuízo.

Agora que está na detenção provisória em Guarulhos, Edemar tem de se contentar com uma decoração clean. Sua cela tem beliches de alvenaria, chuveiro e vaso sanitário distribuídos em exíguos 14 metros quadrados (caberiam 293 desses quartinhos na mansão do ex-banqueiro). Ao chegar à prisão, ele recebeu uma toalha, um sabonete, uma calça e uma camisa amarela – um figurino, assim, ao estilo casual-despojado do PCC. Antonio Carlos Piva de Albuquerque ganhou um kit idêntico. Foi instalado numa cela vizinha depois que a Receita Federal interceptou um carregamento de bolsas Gucci e Chanel no valor de 1,7 milhão de reais. O sócio da Daslu é acusado de sonegar 330.000 reais só nessa operação. A Polícia Federal também apreendeu o passaporte de sua irmã, a socialite Eliana Tranchesi, a face mais conhecida da Daslu.

 

Alexandre de Paulo/ADP
O presídio de Guarulhos: a decoração é, digamos, clean

De ícone do consumo de luxo no país, a butique paulistana passou a vitrine de escândalos. Logo depois da inauguração de sua nova sede, no ano passado, a Polícia Federal descobriu que a Daslu obtinha lucros astronômicos porque Eliana e seu irmão não eram lá muito chegados em pagar impostos. Desde então, os produtos importados sumiram das prateleiras. "O mercado inteirinho está abastecido. Por que as outras lojas têm bolsa importada e eu não consigo ter?", reclama Eliana. A nova estratégia é vender produtos brasileiros no circuito Elizabeth Arden (Nova York, Londres, Paris e Roma), invertendo a mão do comércio. Piva, por enquanto, fica fora do negócio. Sua perspectiva turística mais próxima é aproveitar as duas horas diárias de banho de sol a que terá direito no presídio. "Quando a gente está presa, não sabe o que vai acontecer. Eu sei o que o meu irmão está passando", preocupa-se Eliana. Não é preciso exagerar. No pátio do CDP de Guarulhos, Antonio Carlos Piva de Albuquerque poderá fazer novos amigos e conversar sobre negócios, moda e arte com o colega Edemar Cid Ferreira. Mas que ninguém se engane: gente fina não é, definitivamente, outra coisa.

Com reportagem de Fábio Portela

 
 
 
 
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