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Brasil
O que o PT e o PSDB
mais querem?
É Orestes Quércia. Símbolo
da corrupção
na política, ele agora é recebido por Lula
em palácio e recebe Serra em sua casa

Otávio Cabral
Ricardo Stuckert Filho/Ag. O Globo
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| Lula, com Quércia no Planalto: ele não era
um ladrão de pipoca? |
Únicos
partidos com chances reais de vencer a eleição presidencial,
o PT e o PSDB são rivais mas nutrem um gosto por reafirmar
suas semelhanças de vez em quando. Afinal, ambos nasceram
em São Paulo, reúnem líderes que combateram
a ditadura militar, criaram raízes na classe média
urbana e defendem um certo tipo de social-democracia. Recentemente,
dando vazão a essa identidade, o ministro Tarso Genro, das
Relações Institucionais, afirmou que petistas e tucanos
podem estar unidos num futuro próximo, seja quem for o novo
presidente, para debater as reformas de que o país precisa.
Por sua vez, o senador Tasso Jereissati, presidente nacional do
PSDB, disse estar "disposto" a procurar o PT para conversar sobre
a governabilidade no próximo mandato, seja quem for o eleito.
Bem, tucanos e petistas podem até falar de suas semelhanças
uma vez ou outra, mas o único dado concreto que os une mesmo,
pelo menos até agora, é o assédio a Orestes
Quércia, o líder do PMDB que, há mais de uma
década, praticamente deixou a política ao tornar-se
um símbolo vivo da corrupção.
Valéria Gonçalves/AE
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| José Serra: longe dos holofotes, ele tomou
café-da-manhã na casa de Quércia num domingo de abril |
O movimento mais ousado ocorreu
na quarta-feira passada, quando o presidente Lula, que garante não
ter-se decidido se será candidato à reeleição,
recebeu Orestes Quércia para uma audiência abertamente
eleitoral em seu gabinete, no Palácio do Planalto. Na conversa,
que contou com a participação do ministro Tarso Genro
e do senador Aloizio Mercadante, candidato petista ao governo de
São Paulo, Lula derramou-se em afagos ao velho cacique do
PMDB. Primeiro, ofereceu-lhe a vaga de vice-presidente em sua chapa,
deixando claro que, caso o partido aceitasse, gostaria de vê-la
preenchida pelo gaúcho Nelson Jobim, que abandonou a carreira
de magistrado no Supremo Tribunal Federal para voltar à política.
Como é mais fácil o ex-astronauta Marcos Pontes viajar
para a Lua do que o PMDB aceitar a oferta, Lula também prometeu
participação quercista no próximo e até
mesmo no atual governo, com direito a ocupar postos relevantes,
como o Ministério da Saúde. Em troca da oferta, Lula
sentiu-se à vontade para pedir a ajuda de Quércia
em São Paulo. Aloizio Mercadante, aproveitando a deixa, convidou
Quércia a candidatar-se ao governo paulista, para impedir
que o tucano José Serra, com folgada vantagem nas pesquisas,
vença a disputa logo no primeiro turno.
Quércia deixou o Palácio
do Planalto encantado com os gestos de sedução dos
petistas. "A proposta do PT é atraente, oferece ao PMDB a
vice em uma chapa com grande chance de vitória", comentou.
"O PSDB não tem mais a vice para oferecer e está mal
nas pesquisas. Vou levar a proposta ao partido." Ainda que tenham
menos a oferecer, os tucanos também estão empenhadíssimos
em conquistar a simpatia de Quércia, que já chegou
a ser um dos maiores desafetos do tucanato. Na semana passada, numa
tentativa de neutralizar o assédio do PT, Serra mandou dizer
que quer se encontrar com Quércia nos próximos dias.
Não será a primeira vez. No dia 9 de abril, domingo,
Serra esteve discretamente no apartamento de Quércia, no
bairro dos Jardins. Chegou por volta das 9 da manhã e, à
mesa de um farto café-da-manhã, tendo por testemunha
apenas a mulher de Quércia, Alaíde, ofereceu ao peemedebista
a vaga de candidato ao Senado em sua chapa. Quércia adorou
a corte de Serra, mas não gostou da proposta. Acha que vencer
Eduardo Suplicy, o petista com o qual disputaria a cadeira de senador,
seria uma parada arriscada demais.
J. Freitas/ABR
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| Mercadante: ajuda de Quércia para não perder
já no primeiro turno |
O empenho de petistas e tucanos para obter o apoio de Quércia,
o principal líder do PMDB em São Paulo, é uma
decorrência da lógica eleitoral. Afinal, o PMDB é
uma legenda gigante, com bancadas poderosas no Congresso Nacional
e diretórios espalhados por todos os rincões do país.
É um partido sem unidade nem projeto, mas tem um apetitoso
balaio de votos seja em São Paulo, o maior colégio
eleitoral, seja em qualquer outra região do país.
O que chama atenção é a sem-cerimônia
com que petistas e tucanos renunciam às imensas reservas
éticas que diziam ter em relação a Quércia.
Durante sua gestão no governo paulista (1987-1991), a empreiteira
Andrade Gutierrez tornou-se a rainha das obras em São Paulo
e as denúncias de obras e compras superfaturadas,
como a inesquecível aquisição de equipamentos
de informática de Israel, viraram uma constante. Em 1992,
VEJA publicou reportagem de capa mostrando que Quércia era
dono de uma fortuna estimada em 52 milhões de dólares,
composta de terrenos, apartamentos, conjuntos comerciais, chácaras,
cabeças de gado, emissoras de TV, estações
de rádio e jornais. Quércia tem origem humilde, filho
de uma lavradora e um balconista de mercearia, e conseguiu erguer
um império sem deixar de fazer política razão
pela qual se tornou símbolo dos políticos que enriquecem
com a própria política.
Em 1988, por causa da notoriedade
dos métodos de Quércia, alguns peemedebistas ilustres
como Fernando Henrique Cardoso e José Serra
deixaram o PMDB e, pregando uma atuação ética
na política, fundaram um novo partido, o PSDB. Agora, com
o assédio tucano por seu apoio, Quércia dá-se
ao direito de divulgar outra versão para a dissidência
de quase vinte anos atrás. "Eles não me atacavam por
corrupção, mas porque eu dominava a política
de São Paulo e não dava espaço para mais ninguém",
diz ele. As divergências com o PT, partido que Quércia
já classificou de "fascista", também chegam ao campo
da ética. Um diálogo exemplar foi travado entre Quércia
e Lula na eleição de 1994. "Lula nunca dirigiu nem
um carrinho de pipoca", acusou Quércia. "É verdade
que eu nunca dirigi um carrinho de pipoca, mas também nunca
roubei a pipoca", retrucou Lula. Agora, o presidente Lula está
encantado com o ladrão de pipoca.
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