Edição 1959 . 7 de junho de 2006

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Brasil
Oposição de faz-de-conta

Enquanto o governo finge que não sabia
do mensalão e de outras maracutaias,
seus adversários fingem que investigam


Marcelo Carneiro e Camila Pereira

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Adversários, mas
nem tanto

EXCLUSIVO ON-LINE
Cronologia da Crise

A crise do mensalão, que já dura um ano, trouxe à tona cenas inesquecíveis: petistas flagrados com dólares na cueca e com Land Rover na garagem, muitas mãos na cumbuca do valerioduto, marqueteiro com depósitos do PT em paraísos fiscais, ex-ministro qualificado em documento da Justiça como "chefe da quadrilha", filho de presidente da República beneficiado com milhões de reais de uma empresa de telefonia e por aí vai. O Brasil nunca viu uma seqüência tão grande de escândalos – nem uma oposição com tão pouco apetite para investigá-los. Mesmo entre líderes dos dois principais partidos adversários do governo – PSDB e PFL – é consenso que a oposição, em momentos decisivos da crise, não esteve à altura do seu papel. Pior: em algumas oportunidades, a força antagônica que deveria ser responsável por fiscalizar o governo optou por poupá-lo e a seus dirigentes. Incluídos, aí, o próprio presidente Lula e seus parentes enrolados em negócios mal explicados.

A falta de traquejo do PSDB e do PFL na arte de não ser governo contribuiu para essa inércia. Enquanto o PT passou os últimos vinte anos na oposição, PSDB e PFL viveram com muito mais intensidade a experiência de ser situação – como titulares ou sócios do poder. Mesmo no breve mandarinato de Fernando Collor, em que oficialmente não era partido do governo, o PSDB chegou quase a indicar ministros. O resultado foi que o PT desenvolveu uma "tecnologia" que a atual oposição não domina. Um exemplo: nas últimas duas décadas, o partido de José Dirceu – o "chefe da quadrilha", segundo o procurador-geral Antonio Fernando de Souza – criou uma rede de informações responsável pelo desempenho eficiente de seus parlamentares nas CPIs passadas. Formada por sindicalistas, servidores públicos locados em postos estratégicos do governo e técnicos do Congresso simpatizantes da sigla, essa rede permitia que parlamentares petistas se apresentassem às comissões parlamentares de inquérito munidos de documentos decisivos como análises de quebra de sigilo bancário e fiscal dos acusados. Bem diferente do desempenho de tucanos e pefelistas, que passaram as últimas CPIs alternando o figurino de barata tonta com demonstrações inócuas de retórica. "A oposição de agora não nos pede ajuda e acaba se perdendo com o volume de informações que chega às suas mãos. Muita coisa nem sequer é analisada", diz um técnico que trabalhou na CPI do Mensalão, aquela que nem relatório final teve.

 
Lindomar Cruz/ABR
José Paulo Lacerda/AE

A CORAGEM QUE FALTOU
O procurador Antonio Fernando (à esq.) e o ministro Marco Aurélio: contra as forças do mensalão

Outra razão para a inércia da oposição reside numa mistura de oportunismo e medo. Ao preferir delegar à imprensa e ao Ministério Público a tarefa de investigar as denúncias, a oposição pretendia surfar na onda dos escândalos, sem, no entanto, se submeter ao risco de aproximar-se demais do centro da crise. "Não quiseram sujar as próprias mãos. Com isso, deixaram o interesse público em segundo plano", diz o filósofo Roberto Romano, da Unicamp. Um encontro entre líderes tucanos e pefelistas em agosto de 2005, dois meses após a eclosão das denúncias do mensalão, mostra que a oposição, desde o início, nunca esteve muito preocupada com a apuração das maracutaias petistas. Na reunião, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu a tese de que o PSDB não deveria assumir a linha de frente dos ataques ao governo. O receio era que o partido repetisse, no escândalo do mensalão, o que foi considerado pelos tucanos um erro do PT no caso Collor. Na visão do ex-presidente, a agressividade dos parlamentares petistas na CPI que investigou as atividades do ex-tesoureiro PC Farias foi interpretada pela opinião pública como radicalismo. Prova disso seria o resultado da eleição de 1994, a primeira após o furacão Collor, quando o desempenho do PT ficou abaixo da votação dos moderados tucanos.

Para além do oportunismo, do medo e da incompetência, a oposição, ao longo da crise, foi-se acovardando devido a um acordo espúrio com o PT. Ele pode ser resumido assim: "Não investigue os meus que eu não investigo os seus". Ou seja, optou-se por preservar o governo para não virar alvo de acusações semelhantes. Um episódio em especial resume esse comportamento. Ele ocorreu em agosto do ano passado, logo depois que o marqueteiro Duda Mendonça prestou seu depoimento-bomba à CPI dos Correios – aquele em que confessava ter recebido, pelo caixa dois do PT e em depósitos no exterior, 10,5 milhões de reais por serviços de campanha, incluindo a presidencial. Quatro dias depois do depoimento, a oposição convocou uma reunião apenas para dizer que, apesar da gravidade das denúncias, não pediria o impeachment de Lula, como chegou a ser cogitado. As razões da decisão? A equivocadíssima convicção de que àquela altura o candidato Lula já estava morto para a reeleição e o medo de que a história respingasse também neles próprios. Conta uma liderança pefelista: "Como antes de atender os petistas Duda foi marqueteiro de vários políticos, considerou-se melhor não ir fundo nesse assunto". Uma situação parecida havia surgido anteriormente. Em julho, soube-se que o senador tucano Eduardo Azeredo e o deputado federal pelo PFL Roberto Brant, ambos de Minas Gerais, já haviam tido suas campanhas financiadas com recursos de Marcos Valério – no tempo em que o carequinha não trabalhava exclusivamente para o PT. A revelação foi decisiva para desinflar os ânimos oposicionistas.

O comportamento da oposição se deve ainda, em parte, à estrutura política brasileira, em que a identidade partidária é, no geral, uma ficção, e as legendas ou não têm projetos claros de governo ou se limitam a gravitar em torno dos interesses de suas lideranças. "Com isso, o debate de idéias fica em segundo plano. É uma pena, pois um dos princípios do exercício da oposição é justamente a discussão sobre o melhor rumo para o país", afirma a cientista política Lúcia Hipólito. Na Inglaterra, onde três partidos (liberal, conservador e trabalhista) disputam freqüentemente o poder, a divisão é nítida até na disposição das bancadas no Congresso. Quando um político decide trocar de legenda, ele é obrigado a atravessar o salão do Parlamento, sob os olhares – e, não raro, as vaias – de seus colegas, até chegar ao novo assento. No Brasil, encarou-se sem escândalo nem perplexidade o fato de o presidente convidar Orestes Quércia para compor sua chapa – como se os dois partidos tivessem desde sempre compartilhado bandeiras e Lula nunca tivesse chamado o cacique peemedebista de "ladrão" (veja a reportagem).

Além da fragilidade partidária, um fator mais sutil contribui muitas vezes para jogar água na fervura da crise: a influência de determinadas relações pessoais, que, muitas vezes, transcendem – e mesmo atropelam – as disposições partidárias. Os exemplos podem envolver relações do tipo parlamentar/empresário suspeito ou parlamentar/autoridade do governo sob suspeita. No caso mais recente, ficaram evidentes laços que unem o banqueiro Daniel Dantas a políticos. Dantas foi liberado de explicar à CPI como e por que montou um time de espiões para levantar contas bancárias no exterior de autoridades e políticos. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, foi poupado de explicar-se sobre o seu envolvimento na tentativa de acobertamento da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa por causa das boas relações que mantém com o senador baiano Antonio Carlos Magalhães (PFL).

Situações desse tipo enfraquecem e desautorizam a oposição. Acima dos interesses pessoais, partidários e eleitorais, existe uma fronteira que separa o legítimo do imoral. Por mais de uma vez, o governo ultrapassou essa linha divisória – e acabou impune graças a um pacto de não-agressão que a oposição se achou no direito de firmar com ele, sem a chancela da sociedade. São "tempos estranhos" esses, como disse o ministro Marco Aurélio Mello ao tomar posse na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, no início deste mês. O ministro, ao lado do procurador-geral Antonio Fernando de Souza, tem sido uma das poucas vozes a denunciar as maquinações da quadrilha do mensalão, com uma bravura que tem faltado aos líderes oposicionistas. Em um discurso que vai ficar para a história como um marco de lucidez e coragem, Mello afirmou que o Brasil se tornou o país do faz-de-conta. "Faz de conta que não se produziu o maior dos escândalos nacionais e que os culpados de nada sabiam. Faz de conta que não foram usadas as mais descaradas falcatruas para desviar milhões de reais. Faz de conta que tais tipos de abuso não continuam se reproduzindo à plena luz, num desafio cínico à supremacia da lei." Pensando bem, um país assim só poderia mesmo ter a oposição que tem. Uma oposição de faz-de-conta que está ajudando Lula a rir por último.

 

 

"AS PESSOAS SE SENTEM IMPOTENTES"

De setembro de 2005 até agora, a porcentagem de brasileiros que acompanham as notícias sobre a crise política caiu de 79% para 60%, segundo pesquisas do instituto Sensus. O historiador Boris Fausto, professor do departamento de ciência política da Universidade de São Paulo, falou a VEJA sobre as razões dessa queda de interesse.  

 

Claudio Rossi
Boris Fausto: o cansaço não vem dos escândalos, mas da impunidade

AS PESSOAS SE CANSARAM DOS ESCÂNDALOS?
Não propriamente dos escândalos. Elas se cansaram da quase-ausência de punição dos envolvidos. Em um primeiro momento, acompanharam de perto as investigações com a expectativa de que, desta vez, a corrupção seria levada a sério. Mas, quando começaram a ver que isso não acontecia, perderam interesse e o escândalo se banalizou.  

QUANDO TERIA TIDO INÍCIO ESSA SEGUNDA FASE?
Quando Roberto Jefferson trouxe à tona uma parte da teia da corrupção, eletrizou as pessoas que, com razão, acreditaram no que ele dizia. Quando José Dirceu foi investigado e cassado, houve a sensação de que um "peixe grande" tinha sido apanhado. Mas aí começaram a aparecer as absolvições no plenário da Câmara – fruto do toma-lá-dá-cá entre o governo e setores da oposição para que determinados nomes não fossem envolvidos.  

HÁ OUTRAS RAZÕES PARA ESSE CANSAÇO?
Houve também a intervenção do Supremo Tribunal Federal para facilitar a preservação de investigados, às vezes com base em princípios legais, às vezes de acordo com afinidades pessoais e opções partidárias de alguns de seus integrantes. Tudo isso aumentou o descrédito nas instituições e nos políticos.  

QUAIS AS CONSEQÜÊNCIAS DESSE DESCRÉDITO?
As pessoas se sentem impotentes e se afastam da política. O distanciamento entre parlamentares, governantes e a população sempre foi uma característica do sistema político brasileiro. É comum que o eleitor nem se lembre em quem votou na última eleição. Essa sucessão de escândalos, sem que haja apuração e punição eficazes, aumenta ainda mais esse abismo. E isso gera um círculo vicioso: quanto mais a sociedade se afasta da política, mais os políticos se sentem livres para fazer o que bem entendem. Nos Estados Unidos, a ligação dos eleitores com seus representantes costuma ser mais próxima. Muitos chamam os parlamentares de "meu senador", "meu deputado" e os apóiam ou fazem pressão sobre eles conforme o caso. Além disso, lá, mentir é um comportamento passível de ser enquadrado como crime de perjúrio. Aqui, mente-se com a maior desfaçatez.

 
 
 
 
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