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Brasil Oposição
de faz-de-conta Enquanto o governo finge
que não sabia do mensalão e de outras maracutaias, seus
adversários fingem que investigam  Marcelo
Carneiro e Camila Pereira
A crise do mensalão, que já
dura um ano, trouxe à tona cenas inesquecíveis: petistas flagrados
com dólares na cueca e com Land Rover na garagem, muitas mãos na
cumbuca do valerioduto, marqueteiro com depósitos do PT em paraísos
fiscais, ex-ministro qualificado em documento da Justiça como "chefe da
quadrilha", filho de presidente da República beneficiado com milhões
de reais de uma empresa de telefonia e por aí vai. O Brasil nunca viu uma
seqüência tão grande de escândalos nem uma oposição
com tão pouco apetite para investigá-los. Mesmo entre líderes
dos dois principais partidos adversários do governo PSDB e PFL
é consenso que a oposição, em momentos decisivos da crise,
não esteve à altura do seu papel. Pior: em algumas oportunidades,
a força antagônica que deveria ser responsável por fiscalizar
o governo optou por poupá-lo e a seus dirigentes. Incluídos, aí,
o próprio presidente Lula e seus parentes enrolados em negócios
mal explicados. A falta de traquejo
do PSDB e do PFL na arte de não ser governo contribuiu para essa inércia.
Enquanto o PT passou os últimos vinte anos na oposição, PSDB
e PFL viveram com muito mais intensidade a experiência de ser situação
como titulares ou sócios do poder. Mesmo no breve mandarinato de
Fernando Collor, em que oficialmente não era partido do governo, o PSDB
chegou quase a indicar ministros. O resultado foi que o PT desenvolveu uma "tecnologia"
que a atual oposição não domina. Um exemplo: nas últimas
duas décadas, o partido de José Dirceu o "chefe da quadrilha",
segundo o procurador-geral Antonio Fernando de Souza criou uma rede de
informações responsável pelo desempenho eficiente de seus
parlamentares nas CPIs passadas. Formada por sindicalistas, servidores públicos
locados em postos estratégicos do governo e técnicos do Congresso
simpatizantes da sigla, essa rede permitia que parlamentares petistas se apresentassem
às comissões parlamentares de inquérito munidos de documentos
decisivos como análises de quebra de sigilo bancário e fiscal dos
acusados. Bem diferente do desempenho de tucanos e pefelistas, que passaram as
últimas CPIs alternando o figurino de barata tonta com demonstrações
inócuas de retórica. "A oposição de agora não
nos pede ajuda e acaba se perdendo com o volume de informações que
chega às suas mãos. Muita coisa nem sequer é analisada",
diz um técnico que trabalhou na CPI do Mensalão, aquela que nem
relatório final teve. Lindomar
Cruz/ABR
 | José
Paulo Lacerda/AE
 | A
CORAGEM QUE FALTOU O procurador Antonio Fernando
(à esq.) e o ministro Marco Aurélio: contra as forças
do mensalão |
Outra
razão para a inércia da oposição reside numa mistura
de oportunismo e medo. Ao preferir delegar à imprensa e ao Ministério
Público a tarefa de investigar as denúncias, a oposição
pretendia surfar na onda dos escândalos, sem, no entanto, se submeter ao
risco de aproximar-se demais do centro da crise. "Não quiseram sujar as
próprias mãos. Com isso, deixaram o interesse público em
segundo plano", diz o filósofo Roberto Romano, da Unicamp. Um encontro
entre líderes tucanos e pefelistas em agosto de 2005, dois meses após
a eclosão das denúncias do mensalão, mostra que a oposição,
desde o início, nunca esteve muito preocupada com a apuração
das maracutaias petistas. Na reunião, o ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso defendeu a tese de que o PSDB não deveria assumir a linha de frente
dos ataques ao governo. O receio era que o partido repetisse, no escândalo
do mensalão, o que foi considerado pelos tucanos um erro do PT no caso
Collor. Na visão do ex-presidente, a agressividade dos parlamentares petistas
na CPI que investigou as atividades do ex-tesoureiro PC Farias foi interpretada
pela opinião pública como radicalismo. Prova disso seria o resultado
da eleição de 1994, a primeira após o furacão Collor,
quando o desempenho do PT ficou abaixo da votação dos moderados
tucanos. Para além do oportunismo,
do medo e da incompetência, a oposição, ao longo da crise,
foi-se acovardando devido a um acordo espúrio com o PT. Ele pode ser resumido
assim: "Não investigue os meus que eu não investigo os seus". Ou
seja, optou-se por preservar o governo para não virar alvo de acusações
semelhantes. Um episódio em especial resume esse comportamento. Ele ocorreu
em agosto do ano passado, logo depois que o marqueteiro Duda Mendonça prestou
seu depoimento-bomba à CPI dos Correios aquele em que confessava
ter recebido, pelo caixa dois do PT e em depósitos no exterior, 10,5 milhões
de reais por serviços de campanha, incluindo a presidencial. Quatro dias
depois do depoimento, a oposição convocou uma reunião apenas
para dizer que, apesar da gravidade das denúncias, não pediria o
impeachment de Lula, como chegou a ser cogitado. As razões da decisão?
A equivocadíssima convicção de que àquela altura o
candidato Lula já estava morto para a reeleição e o medo
de que a história respingasse também neles próprios. Conta
uma liderança pefelista: "Como antes de atender os petistas Duda foi marqueteiro
de vários políticos, considerou-se melhor não ir fundo nesse
assunto". Uma situação parecida havia surgido anteriormente. Em
julho, soube-se que o senador tucano Eduardo Azeredo e o deputado federal pelo
PFL Roberto Brant, ambos de Minas Gerais, já haviam tido suas campanhas
financiadas com recursos de Marcos Valério no tempo em que o carequinha
não trabalhava exclusivamente para o PT. A revelação foi
decisiva para desinflar os ânimos oposicionistas.
O comportamento da oposição se deve ainda, em parte, à estrutura
política brasileira, em que a identidade partidária é, no
geral, uma ficção, e as legendas ou não têm projetos
claros de governo ou se limitam a gravitar em torno dos interesses de suas lideranças.
"Com isso, o debate de idéias fica em segundo plano. É uma pena,
pois um dos princípios do exercício da oposição é
justamente a discussão sobre o melhor rumo para o país", afirma
a cientista política Lúcia Hipólito. Na Inglaterra, onde
três partidos (liberal, conservador e trabalhista) disputam freqüentemente
o poder, a divisão é nítida até na disposição
das bancadas no Congresso. Quando um político decide trocar de legenda,
ele é obrigado a atravessar o salão do Parlamento, sob os olhares
e, não raro, as vaias de seus colegas, até chegar
ao novo assento. No Brasil, encarou-se sem escândalo nem perplexidade o
fato de o presidente convidar Orestes Quércia para compor sua chapa
como se os dois partidos tivessem desde sempre compartilhado bandeiras e Lula
nunca tivesse chamado o cacique peemedebista de "ladrão" (veja
a reportagem). Além
da fragilidade partidária, um fator mais sutil contribui muitas vezes para
jogar água na fervura da crise: a influência de determinadas relações
pessoais, que, muitas vezes, transcendem e mesmo atropelam as disposições
partidárias. Os exemplos podem envolver relações do tipo
parlamentar/empresário suspeito ou parlamentar/autoridade do governo sob
suspeita. No caso mais recente, ficaram evidentes laços que unem o banqueiro
Daniel Dantas a políticos. Dantas foi liberado de explicar à CPI
como e por que montou um time de espiões para levantar contas bancárias
no exterior de autoridades e políticos. O ministro da Justiça, Márcio
Thomaz Bastos, foi poupado de explicar-se sobre o seu envolvimento na tentativa
de acobertamento da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa por causa das
boas relações que mantém com o senador baiano Antonio Carlos
Magalhães (PFL). Situações
desse tipo enfraquecem e desautorizam a oposição. Acima dos interesses
pessoais, partidários e eleitorais, existe uma fronteira que separa o legítimo
do imoral. Por mais de uma vez, o governo ultrapassou essa linha divisória
e acabou impune graças a um pacto de não-agressão
que a oposição se achou no direito de firmar com ele, sem a chancela
da sociedade. São "tempos estranhos" esses, como disse o ministro Marco
Aurélio Mello ao tomar posse na presidência do Tribunal Superior
Eleitoral, no início deste mês. O ministro, ao lado do procurador-geral
Antonio Fernando de Souza, tem sido uma das poucas vozes a denunciar as maquinações
da quadrilha do mensalão, com uma bravura que tem faltado aos líderes
oposicionistas. Em um discurso que vai ficar para a história como um marco
de lucidez e coragem, Mello afirmou que o Brasil se tornou o país do faz-de-conta.
"Faz de conta que não se produziu o maior dos escândalos nacionais
e que os culpados de nada sabiam. Faz de conta que não foram usadas as
mais descaradas falcatruas para desviar milhões de reais. Faz de conta
que tais tipos de abuso não continuam se reproduzindo à plena luz,
num desafio cínico à supremacia da lei." Pensando bem, um país
assim só poderia mesmo ter a oposição que tem. Uma oposição
de faz-de-conta que está ajudando Lula a rir por último. 
"AS PESSOAS SE SENTEM IMPOTENTES"
De setembro de 2005 até agora, a porcentagem de
brasileiros que acompanham as notícias sobre a crise política caiu
de 79% para 60%, segundo pesquisas do instituto Sensus. O historiador Boris Fausto,
professor do departamento de ciência política da Universidade de
São Paulo, falou a VEJA sobre as razões dessa queda de interesse.
Claudio
Rossi
 | | Boris
Fausto: o cansaço não vem dos escândalos, mas da impunidade |
AS PESSOAS SE CANSARAM DOS ESCÂNDALOS? Não
propriamente dos escândalos. Elas se cansaram da quase-ausência de
punição dos envolvidos. Em um primeiro momento, acompanharam de
perto as investigações com a expectativa de que, desta vez, a corrupção
seria levada a sério. Mas, quando começaram a ver que isso não
acontecia, perderam interesse e o escândalo se banalizou.
QUANDO TERIA TIDO INÍCIO ESSA SEGUNDA FASE?
Quando Roberto Jefferson trouxe à tona uma parte da teia da corrupção,
eletrizou as pessoas que, com razão, acreditaram no que ele dizia. Quando
José Dirceu foi investigado e cassado, houve a sensação de
que um "peixe grande" tinha sido apanhado. Mas aí começaram a aparecer
as absolvições no plenário da Câmara fruto do
toma-lá-dá-cá entre o governo e setores da oposição
para que determinados nomes não fossem envolvidos.
HÁ OUTRAS RAZÕES PARA ESSE CANSAÇO?
Houve também a intervenção do Supremo Tribunal Federal para
facilitar a preservação de investigados, às vezes com base
em princípios legais, às vezes de acordo com afinidades pessoais
e opções partidárias de alguns de seus integrantes. Tudo
isso aumentou o descrédito nas instituições e nos políticos.
QUAIS AS CONSEQÜÊNCIAS
DESSE DESCRÉDITO? As pessoas se sentem impotentes e se afastam
da política. O distanciamento entre parlamentares, governantes e a população
sempre foi uma característica do sistema político brasileiro. É
comum que o eleitor nem se lembre em quem votou na última eleição.
Essa sucessão de escândalos, sem que haja apuração
e punição eficazes, aumenta ainda mais esse abismo. E isso gera
um círculo vicioso: quanto mais a sociedade se afasta da política,
mais os políticos se sentem livres para fazer o que bem entendem. Nos Estados
Unidos, a ligação dos eleitores com seus representantes costuma
ser mais próxima. Muitos chamam os parlamentares de "meu senador", "meu
deputado" e os apóiam ou fazem pressão sobre eles conforme o caso.
Além disso, lá, mentir é um comportamento passível
de ser enquadrado como crime de perjúrio. Aqui, mente-se com a maior desfaçatez.
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