Edição 1959 . 7 de junho de 2006

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Coitado do Lula, é dependente de ignorância!

UM ATLETA NO
PAÍS DO FUTEBOL

O Meyer era o umbigo do mundo. A Rua Isolina vinha do centro "sofisticado" do bairro (dois lados, dois jardins, três cinemas e a mitológica Confeitaria Japão) e terminava num estábulo – é o que chamo civilização. Nossa casa tinha quatro quartos 7 X 4, imaginem isso nas medidas da infância. Em volta cajazeiros, mangueiras, parreiras, figueiras, a floresta amazônica.

E, já órfão de pai, me vejo nadando num valão formado pelas águas da chuva que desciam dos morros. E pegando rãs, sem medo ou nojo. Como para São Francisco eram nossas irmãs, sorellas ranas. Esse início atlético foi cortado quando minha mãe também morreu e eu e meus três irmãos viramos lúmpen. Fomos à luta. Vida bem mais difícil do que a de Lula. Passei mais dias de fome do que ele – mas muito mais alegre. Jamais me queixei do semi-árido. Única frustração: não poder ser atleta.

Mas, com catorze anos, morando sozinho numa pensão no centro do Rio, retomei meu nado.

No verão, o dia amanhecendo às 5, da janela do meu quarto pulava sobre um pedaço de morro, remanescente do Castelo, e corria até o obelisco onde o mar batia. Ali "aprimorei" meu nado. E, com meu companheiro de vida, Péricles Maranhão, o do Amigo da Onça, enfrentava as ressacas do Flamengo.

A sinuca (que eu nem pensava que era esporte) era inevitável. Joguei no PCB (não era o Partido Comunista Brasileiro, era o Palácio Clube Bilhares, Cinelândia). E junto com meu irmão, Hélio, no Salão Indiana, na Lapa, enfrentávamos a barra-pesada local. Hélio, um gênio no esporte (?), perdia até a bola 5, dobrava a aposta e ganhava (arriscando a 7, jogando a 5, jogando a 7, arriscando a 7, jogando a 6, jogando a 7).

Aos 20 anos, já morando na Avenida Atlântica – ainda com mais casas que edifícios –, aprendi a dirigir, numa época em que podíamos fingir de corredores no Trampolim do Diabo. E, na praia diária, ainda sem hunos nem jurunas, praticávamos nossos esportes radicais: jacaré, peteca e saltos-mortais (sobre a arrebentação, claro).

Glorioso momento em que, com mais dois ou três amigos, entre eles Carlos Niemeyer, comandante de aviação, criador do Canal 100, inventamos o frescobol. Naquele mesmo pedaço que tinha visto jogar Heleno de Freitas e tornou mítico Neném Prancha. O frescobol vinha ao encontro da minha convicção de que o esporte é onde existe menos espírito esportivo. E a minha negação da hipócrita premissa do Barão de Coubertin: "O importante não é vencer, é competir". Eu gritava, dando mais uma raquetada: "O importante é nem competir!".

Depois fui para Ipanema, então uma aldeia branca, com seu Arpoador, onde duas vezes estive para morrer. O que é que eu fui fazer na Praia do Diabo, com meu nado aprendido na lama, não sei. Nem sabia Joachim, meu amigo alemão, que me salvou.

Mas o gosto do esporte não morreu. Aulas de ginástica com o pesado Jaime Ferreira e com o refinado Conde de Karol Nowina, remanescente das lutas livres populares no Rio da época, o tênis que eu jogava no Leme com o futuro prefeito Marcos Tamoyo, e boxe, com Armandinho Vieira, campeão peso leve, num ringue de quintal. Com o rosto protegido, naturalmente.

Quando a polícia começou a perseguir frescobolistas, comecei a correr em volta da lagoa e na praia, na areia. Fazia questão de correr 1 quilômetro em quatro minutos. Só o primeiro.

Mas quem me ajudou no meu maior feito esportivo foi Freddy (Frederico Chateaubriand, o verdadeiro criador da revista O Cruzeiro), amigo fraterno a vida toda, que me levou à pesca do atum em New Foundland, Canadá. Em local paradisíaco nosso time de seis foi disputar com 32 países. Mas nesse ano, no maior pesqueiro de atum do mundo, o peixe, que chega a pesar 400 quilos, em três dias de pesca, apareceu apenas com um (um!) exemplar de 35 quilos, pescado pela Argentina. A autogozação foi geral. E os organizadores fizeram dezenas de taças de latão com a inscrição Vice-Campeão Mundial e distribuíram para todos os concorrentes. Sou vice-campeão mundial da pesca do atum sem jamais ter pescado uma sardinha.

Por que falo tudo isso? Para me gabar? Também. Mas, sobretudo, para pedir desculpa a meus compatriotas. Nunca chutei uma bola de futebol.


 
 
 
 
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