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Coitado do Lula, é dependente
de ignorância! |
UM ATLETA NO
PAÍS DO FUTEBOL
O Meyer era o umbigo do mundo.
A Rua Isolina vinha do centro "sofisticado" do bairro (dois lados,
dois jardins, três cinemas e a mitológica Confeitaria
Japão) e terminava num estábulo é
o que chamo civilização. Nossa casa tinha quatro quartos
7 X 4, imaginem isso nas medidas da infância. Em volta cajazeiros,
mangueiras, parreiras, figueiras, a floresta amazônica.
E, já órfão
de pai, me vejo nadando num valão formado pelas águas
da chuva que desciam dos morros. E pegando rãs, sem medo
ou nojo. Como para São Francisco eram nossas irmãs,
sorellas ranas. Esse início atlético foi cortado
quando minha mãe também morreu e eu e meus três
irmãos viramos lúmpen. Fomos à luta.
Vida bem mais difícil do que a de Lula. Passei mais dias
de fome do que ele mas muito mais alegre. Jamais me queixei
do semi-árido. Única frustração: não
poder ser atleta.
Mas, com catorze anos, morando
sozinho numa pensão no centro do Rio, retomei meu nado.
No verão, o dia amanhecendo
às 5, da janela do meu quarto pulava sobre um pedaço
de morro, remanescente do Castelo, e corria até o
obelisco onde o mar batia. Ali "aprimorei" meu nado. E, com meu
companheiro de vida, Péricles Maranhão, o do Amigo
da Onça, enfrentava as ressacas do Flamengo.
A sinuca (que eu nem pensava
que era esporte) era inevitável. Joguei no PCB (não
era o Partido Comunista Brasileiro, era o Palácio Clube
Bilhares, Cinelândia). E junto com meu irmão, Hélio,
no Salão Indiana, na Lapa, enfrentávamos a
barra-pesada local. Hélio, um gênio no esporte (?),
perdia até a bola 5, dobrava a aposta e ganhava (arriscando
a 7, jogando a 5, jogando a 7, arriscando a
7, jogando a 6, jogando a 7).
Aos 20 anos, já morando
na Avenida Atlântica ainda com mais casas que edifícios
, aprendi a dirigir, numa época em que podíamos
fingir de corredores no Trampolim do Diabo. E, na praia diária,
ainda sem hunos nem jurunas, praticávamos nossos esportes
radicais: jacaré, peteca e saltos-mortais (sobre a
arrebentação, claro).
Glorioso momento em que, com
mais dois ou três amigos, entre eles Carlos Niemeyer, comandante
de aviação, criador do Canal 100, inventamos
o frescobol. Naquele mesmo pedaço que tinha visto
jogar Heleno de Freitas e tornou mítico Neném Prancha.
O frescobol vinha ao encontro da minha convicção de
que o esporte é onde existe menos espírito esportivo.
E a minha negação da hipócrita premissa do
Barão de Coubertin: "O importante não é vencer,
é competir". Eu gritava, dando mais uma raquetada: "O importante
é nem competir!".
Depois fui para Ipanema, então
uma aldeia branca, com seu Arpoador, onde duas vezes estive para
morrer. O que é que eu fui fazer na Praia do Diabo, com meu
nado aprendido na lama, não sei. Nem sabia Joachim, meu amigo
alemão, que me salvou.
Mas o gosto do esporte não
morreu. Aulas de ginástica com o pesado Jaime Ferreira e
com o refinado Conde de Karol Nowina, remanescente das lutas livres
populares no Rio da época, o tênis que eu jogava no
Leme com o futuro prefeito Marcos Tamoyo, e boxe, com Armandinho
Vieira, campeão peso leve, num ringue de quintal. Com o rosto
protegido, naturalmente.
Quando a polícia começou
a perseguir frescobolistas, comecei a correr em volta da lagoa e
na praia, na areia. Fazia questão de correr 1 quilômetro
em quatro minutos. Só o primeiro.
Mas quem me ajudou no meu maior
feito esportivo foi Freddy (Frederico Chateaubriand, o verdadeiro
criador da revista O Cruzeiro), amigo fraterno a vida toda,
que me levou à pesca do atum em New Foundland, Canadá.
Em local paradisíaco nosso time de seis foi disputar com
32 países. Mas nesse ano, no maior pesqueiro de atum do mundo,
o peixe, que chega a pesar 400 quilos, em três dias de pesca,
apareceu apenas com um (um!) exemplar de 35 quilos, pescado pela
Argentina. A autogozação foi geral. E os organizadores
fizeram dezenas de taças de latão com a inscrição
Vice-Campeão Mundial e distribuíram para todos
os concorrentes. Sou vice-campeão mundial da pesca do atum
sem jamais ter pescado uma sardinha.
Por que falo tudo isso? Para
me gabar? Também. Mas, sobretudo, para pedir desculpa a meus
compatriotas. Nunca chutei uma bola de futebol.
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