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Entrevista: Geraldo
Alckmin
"Lula é cara-de-pau"
O candidato tucano ataca o presidente,
admite "falha parcial" na sua campanha
e diz que os petistas estão "de salto 15"

Thaís Oyama
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Lailson Santos

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"Sinto que o povo está indignado.
É uma coisa ainda silenciosa, mas que vai explodir
na campanha" |
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O candidato do PSDB à Presidência
da República orgulha-se de ser um homem simples. Prefere
um fim de semana em seu sítio em Pindamonhangaba (cidade
no interior de São Paulo, onde nasceu) a uma temporada na
Europa, carrega a própria maleta nas viagens e cultiva hábitos
também simplíssimos de lazer: apreciador de best-sellers
(o último livro que leu foi Quando Nietzsche Chorou),
trocou recentemente as palavras cruzadas pelo sudoku, espécie
de quebra-cabeça numérico com o qual se entretém,
sistematicamente, todas as noites antes de dormir. Geraldo Alckmin,
53 anos, é também um otimista. Afirma que a campanha
ainda não começou e que os petistas estão comemorando
cedo demais os bons índices do presidente Lula nas pesquisas.
Em entrevista a VEJA dada a bordo do avião do presidente
do PSDB, senador Tasso Jereissati , Alckmin disse que, em
caso de vitória, será duro com os sem-terra, acabará
com a "besteira" da diplomacia Sul-Sul e não participará
de acordos visando a proteger de investigação aliados
ou parentes: "Comigo, não tem acordo".
Veja Desde o
lançamento de sua pré-candidatura, a distância
entre o senhor e o presidente Lula nas pesquisas aumentou de 16
para 21 pontos porcentuais. A que atribui isso?
Alckmin As pessoas se impressionam muito com pesquisa.
Pela série histórica, a situação não
mudou. Estou tranqüilo: treino é treino, jogo é
jogo. Jogo é 15 de agosto, que é quando começa
o horário eleitoral.
Veja Treinos
também servem para identificar falhas. Quais o senhor detectou
até agora na sua campanha?
Alckmin A sintonia do time, eu diria que foi uma dificuldade.
Mas é porque esta é uma fase de acomodação
interna. Na hora em que começar a campanha, toda a energia
da equipe vai se concentrar nela.
Veja Essa teria
sido a única falha?
Alckmin Houve desafios. Mas falhas...
Veja Posso lembrar
algumas que vêm sendo comentadas?
Alckmin Claro.
Veja A aposta
inicial no Nordeste, onde Lula tem 60%, por exemplo. Um investimento
no Sul e Sudeste, Minas Gerais em particular, não teria sido
mais proveitoso?
Alckmin Isso foi uma falha parcial. Esses números
do Lula no Nordeste são extremamente frágeis. Durarão
o tempo que a informação demorar para chegar. Mas
eu entendo que distribuir melhor as viagens é correto. Foi
uma falha parcial.
Veja Outra falha
apontada com freqüência: a opção por um
discurso genérico em detrimento de outro, focado na crise
moral e ética que o país viveu no último ano.
Essa não deveria ter sido desde o início a tônica
da sua campanha?
Alckmin Isso vai acontecer. Mas eu sou cauteloso.
Política é convencimento. É ganhar confiança.
É muito pouco eu ser o anti-Lula. Quero apresentar um projeto
para o país centrado no crescimento. Claro que ao longo da
campanha vai haver reparos. Agora, eu nunca vi ninguém ganhar
eleição falando mal do outro.
Veja Não
me refiro a uma questão apenas estratégica, mas de
princípios. O senhor acha possível postular o cargo
de presidente da República sem abordar a crise ética
do país?
Alckmin Mas isso nós temos falado. Entendo
que a população já está consciente.
Eu ando nas ruas e sinto que o povo está indignado. Quando
chegar a campanha eleitoral, isso vai explodir. Acho que nós
vamos ter nessa campanha uma quantidade de trabalho voluntário
impressionante. Eu sinto isso. É uma coisa ainda silenciosa,
mas que vai explodir. A questão dos princípios e dos
valores é essencial. Mesmo porque a lambança foi geral,
não foi um caso isolado. Para onde você olha, há
desvio de dinheiro público. Então, essa vai ser a
campanha dos princípios e dos valores. É que ela ainda
não começou.
Veja Também
se ouve dizer que sua campanha padece de amadorismo, que mais parece
uma campanha para prefeito do que para presidente.
Alckmin Quando concorri ao governo de São
Paulo, foi a mesma coisa. Diziam que a campanha era pobre, que não
tinha equipe, material. Esse é o meu jeito e eu não
vou mudar. A minha campanha de deputado foi feita por mim e pela
Lu (sua mulher, Lu Alckmin). Viajamos num Fiat 147 que ela
dirigia porque eu não agüentava de cansaço. Os
vícios de governo começam nas campanhas. Não
é possível que não tenhamos aprendido nada
com mensalão, valerioduto, caixa dois. Avião de carreira
cansa um pouco mais, mas por que gastar sem necessidade?
Veja Mas, depois
do dia 5 de julho (início oficial da campanha), isso
não vai mudar?
Alckmin Vamos continuar com o mínimo necessário.
Para ir a Brasília ou Rio de Janeiro, por exemplo, por que
não usar avião de carreira? O pessoal fica estressado,
ansioso. Eu dou risada. Outro dia, fui à Bahia. Estavam me
esperando no aeroporto o ACM, o Paulo Souto, o Rodolpho Tourinho,
o ACM Neto e o José Carlos Aleluia. O vôo atrasou e
eu dei um chá-de-cadeira neles de duas horas! E não
foi só isso. Quando me acompanharam no embarque de volta,
o vôo estava novamente atrasado. Aí, eu apertei a mão
do ACM e disse: "Bom, vamos nos despedir por aqui porque o embarque
vai demorar". Ele: "Geraldo, candidato não fica sozinho em
aeroporto". E ficaram todos lá, firmes, tomando mais chá-de-cadeira!
Veja O senhor
tem sido visto freqüentemente sozinho em aeroportos.
Alckmin Mas eu não ligo para isso. Quando você
anda com um séquito, afasta as pessoas, fica isolado.
Veja O senhor
não teme que esse tipo de economia prejudique sua campanha?
Alckmin Bobagem. Outro dia, tinha de ir a Teresina.
Saí de São Paulo às 10 da noite e cheguei a
Salvador às 2 da manhã. A conexão para Fortaleza
só iria sair em duas horas. O que eu fiz? Fiquei tomando
café, dando autógrafos, tirando fotografia com as
pessoas. Eu adoro isso. Cheguei a Fortaleza às 4h45 e o avião
do Tasso já estava me esperando lá, piloto a postos,
tudo certo. Antes das 6 da manhã, eu estava em Teresina.
Veja Demorou
oito horas, portanto.
Alckmin É. Mais ou menos isso.
Veja O presidente
Lula tem sido, até agora, um adversário honesto?
Alckmin O governo Lula e o PT são abusados.
Toda essa publicidade, AeroLula para cá e para lá...
O abuso é flagrante. Mas eu acredito que nós vamos
ter uma participação muito firme do Poder Judiciário
nessas eleições para coibir isso. E, depois, quando
começar a campanha, fica proibida a publicidade. O tempo
tem de ser igual e, aí, você sai do monólogo
para o debate.
Veja No mês
passado, a Bolívia tomou a Petrobras e invadiu as instalações
da empresa com seu Exército. Como o senhor teria reagido
ao episódio se fosse presidente?
Alckmin Eu teria, de cara, feito uma reprovação
duríssima à atitude da Bolívia. O governo Lula
foi submisso e dúbio. Colocou interesses ideológicos
à frente do interesse nacional. Reprovação
imediata. Não aceito rompimento de contrato. Isso é
ruim para as pessoas, porque quem vai acabar pagando a conta será
o povo, já que o que eles querem é aumentar o preço
do gás. É ruim para a América Latina, porque
cria uma insegurança jurídica que espanta novos investimentos.
Veja Em 2005,
descobriu-se que a empresa do filho do presidente Lula, Lulinha,
recebeu um investimento de 5,2 milhões de reais da Telemar,
que tem dinheiro público em seu capital. O que o senhor teria
feito no lugar do presidente?
Alckmin Numa república, todos estão
sujeitos à lei. Outro dia, eu ouvi de alguém: "Olha,
não se fala da esposa do fulano". Para mim, não. Comigo,
não tem acordo. Tem de investigar, investigar todo mundo.
Veja No caso
de Lulinha, não se trata propriamente de uma ilegalidade,
mas de um problema ético.
Alckmin Da mesma forma que o governo do PT não
faz uma separação nítida entre partido e governo
aparelharam o Estado, criaram doze ministérios para
acomodar petistas derrotados em eleições passadas
, ele também não separa o público do
privado. Eu não posso dizer o que faria nessa situação,
porque acho que essa situação não chegaria
a ter acontecido comigo.
Veja Sua mulher,
Lu Alckmin, aceitou vestidos doados por um estilista. O que o senhor
achou disso?
Alckmin A Maria Lúcia é a melhor parte
da minha família. Eu fui um pai mais ausente do que presente.
Então, ela foi pai e mãe dos nossos filhos. Depois,
trabalha comigo desde que nós nos casamos, há 27 anos.
Faz agenda, a parte burocrática. No governo do estado, sempre
trabalhou voluntariamente. Nunca foi nomeada para nada e nunca recebeu
um centavo. Nesse caso dos vestidos, ela ganhou, sim. Usou e doou
a entidades o que ajudou muita gente. Mas, mesmo tendo ajudado
entidades e mesmo não tendo causado ônus para o estado,
considero que houve um erro. Como, para mim, vida pública
tem de ser absolutamente transparente, acho que nós não
temos de reclamar da cobrança. Essa é a lógica
do espírito republicano, tem de ser assim.
Veja O que o
senhor disse a ela quando surgiu a notícia?
Alckmin Quando fui prefeito, tinha um jornal que vez
ou outra me hostilizava. Meu pai um dia me viu um pouco chateado
e falou: "Lembre-se do que dizia Santo Agostinho: prefiro os que
me criticam, porque me corrigem, aos que me adulam, porque me corrompem".
Então, se a crítica é correta, corrija. Foi
isso o que eu disse a ela.
Veja O MST promoveu,
no primeiro trimestre deste ano, o maior número de invasões
dos últimos seis anos. Como o senhor lidaria com o movimento,
na Presidência?
Alckmin Esse é um caso típico de leniência
do presidente Lula. A reforma agrária não anda e,
ao mesmo tempo, você tem invasão de propriedades com
setores do governo justificando a invasão. Outro dia, o presidente
Lula foi inaugurar as Casas Bahia, em São Bernardo do Campo.
Eu achei até engraçado. Porque aquele terreno onde
estão as Casas Bahia foi invadido pelo MST em 2003. O advogado
dos invasores era o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, e o PT inteiro
foi lá apoiar a invasão, que resultou, inclusive,
na morte de um fotógrafo. Mais tarde, nós reintegramos
o terreno, sem nenhum incidente, e fez-se um investimento no local
que gerou 1 100 empregos. Em abril, o Lula foi lá inaugurar!
Se dependesse do PT, aquilo seria um acampamento até hoje.
Quer dizer, é uma enorme de uma, me perdoe a deselegância,
cara-de-pau da parte dele.
Veja Como o
senhor lidaria com as invasões?
Alckmin Não existe solução mágica.
O país tem de crescer, tem de fazer reformas, tem de gerar
empregos...
Veja Mas, enquanto
o país não cresce, o que o senhor faria com os sem-terra?
Alckmin Nós vamos trabalhar primeiro para fazer
a reforma agrária. Agora, invasão, não.
Veja Para quem
invadir, o que acontece?
Alckmin Invadiu, vai desinvadir. A lei é para
todos, e invadir propriedade alheia é crime.
Veja O PT tem
priorizado, na política externa, o que chama de relação
Sul-Sul, o comércio com países pobres. O que o senhor
acha dessa opção?
Alckmin Eu acho uma besteira. É uma visão
ideológica totalmente ultrapassada. Não há
razão para você diminuir o mundo para as nossas empresas.
Cada milhão de dólares que você exporta gera
60.000, 70.000 empregos no Brasil. Nós precisamos ter uma
política externa muito mais ambiciosa, precisamos conquistar
mercado e acelerar os acordos comerciais bilaterais. Num cenário
internacional tão bom, é inconcebível que o
governo aja de maneira quase covarde.
Veja Um assessor
seu contou que, diariamente, o senhor extrai de um livrinho frases
para nortear seu dia.
Alckmin Eu vario muito de livro. Andava com um que
se chamava 30 Dias com Mahatma Gandhi. Tinha uma folha para
cada dia do mês, cada uma com duas reflexões: uma para
ler de manhã e outra para encerrar o dia. Minha irmã,
todos os anos, me manda a Folhinha Salesiana, do Sagrado Coração
de Maria. Você pendura na parede, destaca todo dia uma página
e põe no bolso. Tem sempre uma frase bíblica e outra
humanista para provocar a reflexão.
Veja Haviam
dito que o livro que o senhor usava era Caminho (de Josemaría
Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei).
Alckmin Esse eu tenho também, ganhei do meu
pai. Mas ultimamente não tenho lido, não.
Veja Por que
o senhor acredita que irá para o segundo turno com Lula?
Alckmin O presidente Lula esteve em todas as eleições
para presidente nos últimos vinte anos vai disputar
agora sua quinta eleição. Ele tem um enorme recall
(fixação do nome na memória dos entrevistados
devido à intensa exposição anterior). Só
que é recall, não é intenção
de voto. Tem petistas por aí de salto 15, criando uma expectativa
grande. Psicologicamente, Lula irá para o segundo turno derrotado.
Podem ter certeza. O embate começará no dia 5 de julho.
E eu começarei esse dia às 5 da manhã.
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