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André
Petry
Desfaça-se a luz
"No julgamento de Suzane, chamam
atenção a rapidez e a prontidão com
que a Justiça age para vedar os olhos
da sociedade e impedir a passagem
da luz por suas frestas"
O juiz Alberto Anderson Filho
resolveu autorizar a transmissão ao vivo do julgamento de
Suzane von Richthofen, ré confessa do assassinato dos pais.
A decisão, num radical exemplo de abertura e transparência
para os padrões da Justiça brasileira, pretendia dar
ampla divulgação a um julgamento público, mas
não durou mais do que um dia. Um desembargador, usando portaria
dos tempos da ditadura militar, que proíbe a entrada de "máquinas
de filmagem" nos tribunais, desautorizou a transmissão ao
vivo. Permitiu que a televisão exiba imagens apenas do início
e do fim do julgamento. Por que será que a transparência
parece ser um desconforto permanente para alguns magistrados?
A decisão de exibir ao
vivo o julgamento de Suzane não é uma medida pacífica,
com a qual todos concordam. Existem suspeitas de que a presença
da televisão possa exercer pressão indevida sobre
jurados ou mesmo inibir testemunhas ou, na era dos reality
shows, desinibi-las demais. Existem, por outro lado, opiniões
sólidas indicando que a sociedade tem o direito de conhecer
e acompanhar um julgamento que não corre sob sigilo judicial,
com a vantagem de que sua divulgação ajudaria a informar
os cidadãos sobre os bastidores de um poder ainda hoje tão
hermético.
Mas o que chama atenção
no caso do julgamento de Suzane é a rapidez, a celeridade,
a prontidão com que a Justiça age quando se trata
de vedar os olhos da sociedade e impedir a passagem de luz por suas
frestas. Por quê? Por que essa reação atávica
a negar-se à luz, ocultar-se às sombras e sempre achar
que a publicidade de seus atos banaliza o crime e vulgariza a Justiça?
Por quê? Por que fechar-se em copas justamente quando a sociedade
está farta de tanta impunidade?
Agora mesmo, o ministro Joaquim
Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, mandou colocar no site da
corte os 37 volumes do mensalão. Era outro exemplo de abertura
e transparência, já que qualquer cidadão poderia
entrar na internet e ler o que lhe interessasse. Não durou
mais do que uma hora. Com rapidez, celeridade e prontidão,
as informações foram retiradas do ar sob a alegação
de que, antes, era preciso que o plenário do STF se manifestasse.
E o que o plenário decidiu? Que todos podem ter acesso às
informações, mas mediante senha que o tribunal fornecerá
e só a quem provar "justa causa" para seu interesse.
Ou seja: tudo à meia-luz.
A denúncia do procurador-geral
contra os quarenta mensaleiros está disponível na
íntegra no site do Ministério Público (www.pgr.mpf.gov.br/pgr/asscom/mensalao.pdf).
Os três volumes do relatório da CPI dos Correios, que
descrevem o esquema e seus protagonistas, também estão
na internet (www.senado.gov.br/sf/atividade/comissoes/
cpi/relatoriofinalcorreios.asp). Por que a Justiça
resiste a agir com a mesma transparência?
O Brasil ainda levará
amargos anos para construir a Justiça que deseja e para romper
o ciclo infernal de criminosos impunes, mas uma coisa as autoridades
poderiam compreender desde já: a transparência no Judiciário
é uma forma de reduzir a sensação de impunidade.
A opção pelas sombras só ajuda a percepção
de que há alguma coisa a esconder.
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