Um problema federal
"Para estruturar o federalismo
brasileiro,
aprendizado político constante que faz os
vários Brasis virarem o Brasil, será preciso
um grande esforço de sistematização"
Ilustração Ale Setti
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Dos fatores constitutivos da nacionalidade que nos ficaram
nestes 500 anos de História existem dois de que não
se pode abrir mão: a língua nacional e o federalismo.
Desta língua esteio dos vários falares
que compõem o nosso idioma há ainda
muito o que dizer. Sobretudo agora, quando é anunciada
a edição do Dicionário Geral da
Língua Portuguesa, de Antônio Houaiss.
Publicado neste ano no Brasil e no próximo ano em
Portugal, este dicionário será o primeiro
a abranger todas as linguagens das comunidades lusófonas
e contará com 280 000 verbetes. Organismo vivo em
perpétua mutação, a língua nacional
necessita periodicamente de um esforço gigantesco
de sistematização, como o que empreendeu mestre
Houaiss, falecido sem ter tido a alegria de ver sua obra
pronta nas livrarias.
Para estruturar o federalismo brasileiro, aprendizado
político constante que faz os vários Brasis
virarem o Brasil, também será preciso um grande
esforço de sistematização. Geopolítica,
guerra fiscal, política partidária e eleitoral,
grandes cidades e pequenos Estados, tudo isso e muito mais
remetem ao nosso federalismo, que sofreu transformações
brutais no decurso das últimas décadas. O
tema é de atualidade em outras regiões do
mundo. Recentemente, realizou-se em Brasília uma
conferência internacional comparando as experiências
respectivas do Canadá e do Brasil. Entretanto, foi
pouco notada em nosso país a proposta de Joschka
Fischer, ministro de Relações Exteriores da
Alemanha. Como se sabe, no último dia 12 de maio,
o ministro alemão defendeu a transformação
da União Européia numa verdadeira federação,
dotada de um governo único e de um Parlamento bicameral
representando os cidadãos e os Estados membros. Discutida
em todas as capitais ocidentais, a proposta alemã,
que modificará radicalmente as relações
de força internacionais se for levada a cabo, teve
rala repercussão no Brasil (uma rápida pesquisa
via internet nos arquivos dos principais jornais paulistas
deixa a desagradável impressão de que essa
declaração histórica pode nem ter sido
noticiada pela imprensa brasileira!).
Atualmente o Planalto discute a regulamentação
do artigo 23 da Constituição, tratando da
competência de cada esfera de governo. Também
estão em pauta nos debates os artigos 25 e 43, que
prevêem atribuições complementares para
os Estados e governo federal nas microrregiões, como
o Polígono das Secas, integrado por 1,2 mil municípios
nordestinos, ou o Vale do Ribeira (São Paulo). Outras
discussões, envolvendo vários ministérios,
incluindo o da Defesa, apontam a necessidade de criar um
novo território federal na Amazônia, o território
do Rio Negro.
Contudo, fica a impressão de que o complicador
mais sério da questão federalista e
da política brasileira no médio prazo
permanece meio encoberto. Trata-se, com efeito, das conseqüências
do reeleitoralismo no âmbito municipal. Pela primeira
vez, os prefeitos dos 5.507 municípios
brasileiros vão estar habilitados a candidatar-se
a mais quatro anos de mandato nas próximas eleições
de outubro. Já dá para perceber que a Justiça
Eleitoral estará atopetada de recursos contra o uso
da máquina administrativa. Cientistas políticos
e especialistas de direito eleitoral alertam sobre os diversos
tipos de crime eleitoral que podem ser praticados pelos
detentores dos executivos municipais candidatos à
reeleição. Desde logo, fica patente que a
Justiça Eleitoral não dispõe de meios
de controlar a lisura dessa miríade de escrutínios
espalhados pelo país. Sem a necessária vigilância
dos partidos políticos, dos candidatos adversários
e dos próprios eleitores, se estabelecerá
na raiz do sistema político uma cultura generalizada
da fraude e da picaretagem. Eterno pretexto para as manobras
antidemocráticas de todos os golpistas e autoritários
brasileiros.
Luiz Felipe de Alencastro
é historiador (lfa@workmail.com)