Tira o dinheiro do bolso,
doutor Yunes
O patrono do prefeito Pitta
é generoso com
os amigos e consigo próprio, mas não tanto
com as crianças
O doutor Jorge Yunes tem muito dinheiro. Hoje o Brasil
todo sabe disso. Ou, pelo menos, uma vez que ele é
figura de atuação mais local que nacional,
São Paulo inteiro sabe disso. Yunes, para quem não
está lembrado, é o patrocinador do prefeito
Celso Pitta. O homem que, segundo ele próprio informa,
contribuía com boladas mensais de 20.000
a 25.000 reais, a título
de "empréstimo" este é o nome oficial da
operação , a seu protegido, perfazendo um
total confessado de 800.000 reais
transferidos para o bolso do prefeito. É também
o indireto causador da desgraça de Pitta. Os tais
empréstimos, tidos por suspeitos, estão na
raiz da decisão judicial de afastá-lo do cargo.
Mas o que singulariza Yunes não é só
ter dinheiro. Nem o fato de usá-lo com largueza,
proporcionando-se o que de melhor o dinheiro pode dar
uma casa suntuosa, uma esplendorosa coleção
de arte. O que o singulariza, segundo se depreende de revelações
e, mais que isso, demonstrações encenadas
pelo próprio Yunes, é um certo prazer sensorial
no trato com o dinheiro o dinheiro em si, as notas. Os
desembolsos em favor de Pitta, contou ele, eram ou são
efetuados em dinheiro vivo. Yunes diz que gosta de guardar
dinheiro em casa. Numa conversa com jornalistas, para mostrar
como o dinheiro lhe é farto, e como aprecia tê-lo
sempre consigo, a alturas tantas começou a tirar
maços de notas dos bolsos eram bolos de notas
de 50 jogados para cá e para lá. Assim como
malabaristas exibem sua destreza equilibrando pratos no
nariz, e jogadores de futebol fazendo embaixadas, Yunes
optou por demonstrar a condição de milionário
de forma literal fazendo jorrar dinheiro dos bolsos,
como água escapando de cano furado.
Yunes não é pão-duro. Muito pelo
contrário, empresta dinheiro, patrocina viagens e
dá presentes com o desprendimento do sultão
de Brunei. Mas há algo que o aproxima do Tio Patinhas.
Desde esse famoso personagem, entre cujos hábitos
está o de banhar-se numa piscina de moedas, sentindo
o cheiro delas, fruindo-as na pele e até, se isso
fosse possível, lambuzando-se com elas, nunca se
viu alguém com gosto físico pelo dinheiro
tão forte forte a ponto de não prescindir
de tê-lo bem abundante nos bolsos, bem aconchegado,
junto ao corpo como uma amante, agradável como carícia.
E daí? Daí nada, por enquanto. Se Yunes
cometeu algum ilícito, a Justiça o dirá.
Quanto ao gosto fet... íamos dizer fetichista, mas
vá lá um desconto quanto ao gosto literal
pelo dinheiro, pode ser encarado como excentricidade de
milionário. Assim como há os que não
andam com dinheiro algum, este tem a excentricidade de andar
com muito. O problema sim, existe um problema é
que o dinheiro que lhe sobra no paletó e nas calças
talvez esteja faltando em outro lugar. Nomeadamente, nas
duas editoras de sua propriedade, o Instituto Brasileiro
de Edições Pedagógicas (Ibep) e a Companhia
Editora Nacional, ambas especializadas em livros didáticos.
Seria falta de investimento, já que o patrão
prefere reter o dinheiro no bolso? Talvez. O fato é
que, em oposição ao brilho de sua vida pessoal,
feita de luxo e riqueza, o desempenho das editoras acumula
vexame sobre vexame.
Nas avaliações de livros didáticos
realizadas pelo Ministério da Educação,
as editoras de Yunes vêm primando pela insuficiência.
Dos 39 livros apresentados em 1997, 31 foram considerados
"não recomendados" e oito entraram na coluna dos
"excluídos", aqueles que não têm remédio.
Nenhum, nem um escasso título, foi considerado "recomendado
com distinção", "recomendado" ou "recomendado
com ressalvas", as outras categorias possíveis. Em
1998, o vexame se repetiu. Outra vez foram apresentados
39 títulos 38 viraram "não recomendados"
e um foi excluído. E em 1999 foi a ruína.
Dos 28 títulos apresentados, quatro saíram
"recomendados com ressalvas" e 24 85% do total excluídos.
Yunes, nesse campo, até parece o Madureira no campeonato
carioca, ou o Íbis, o time pernambucano que se intitula
"o pior do mundo": só entra para apanhar. Um de seus
livros de ciências diz que "as doenças sexualmente
transmissíveis se propagam durante o ato sexual ou
outra forma qualquer de contato físico". Outro traça
uma descrição do processo digestivo da qual
se conclui, segundo o avaliador do MEC, que "as fezes circulam
pelo sangue e dele são retiradas pelo intestino grosso,
antes de serem evacuadas". Um livro de geografia ensina
que vieram para o Brasil "indústrias de países
estrangeiros, como Europa, América e Japão"
(países!) e que "países como a África"
(países!) "têm uma escassez gravíssima
de alimentos".
Na avaliação deste ano, o Ibep e a Nacional
vieram com munição redobrada. Apresentaram
69 livros e conseguiram milagre três
"recomendações com distinção".
Outros seis foram considerados "recomendados" e dezenove
"recomendados com ressalvas". O grosso, no entanto
41 , foram excluídos. Yunes, tão generoso
ao investir nos amigos, não mostra o mesmo ardor
com o investimento nas crianças. Tira o dinheiro
do bolso, doutor Yunes.