Edição 1 652 -7/6/2000

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Tira o dinheiro do bolso,
doutor Yunes

O patrono do prefeito Pitta é generoso com
os amigos e consigo próprio, mas não tanto
com as crianças

O doutor Jorge Yunes tem muito dinheiro. Hoje o Brasil todo sabe disso. Ou, pelo menos, uma vez que ele é figura de atuação mais local que nacional, São Paulo inteiro sabe disso. Yunes, para quem não está lembrado, é o patrocinador do prefeito Celso Pitta. O homem que, segundo ele próprio informa, contribuía com boladas mensais de 20.000 a 25.000 reais, a título de "empréstimo" – este é o nome oficial da operação –, a seu protegido, perfazendo um total confessado de 800.000 reais transferidos para o bolso do prefeito. É também o indireto causador da desgraça de Pitta. Os tais empréstimos, tidos por suspeitos, estão na raiz da decisão judicial de afastá-lo do cargo.

Mas o que singulariza Yunes não é só ter dinheiro. Nem o fato de usá-lo com largueza, proporcionando-se o que de melhor o dinheiro pode dar – uma casa suntuosa, uma esplendorosa coleção de arte. O que o singulariza, segundo se depreende de revelações e, mais que isso, demonstrações encenadas pelo próprio Yunes, é um certo prazer sensorial no trato com o dinheiro – o dinheiro em si, as notas. Os desembolsos em favor de Pitta, contou ele, eram – ou são – efetuados em dinheiro vivo. Yunes diz que gosta de guardar dinheiro em casa. Numa conversa com jornalistas, para mostrar como o dinheiro lhe é farto, e como aprecia tê-lo sempre consigo, a alturas tantas começou a tirar maços de notas dos bolsos – eram bolos de notas de 50 jogados para cá e para lá. Assim como malabaristas exibem sua destreza equilibrando pratos no nariz, e jogadores de futebol fazendo embaixadas, Yunes optou por demonstrar a condição de milionário de forma literal – fazendo jorrar dinheiro dos bolsos, como água escapando de cano furado.

Yunes não é pão-duro. Muito pelo contrário, empresta dinheiro, patrocina viagens e dá presentes com o desprendimento do sultão de Brunei. Mas há algo que o aproxima do Tio Patinhas. Desde esse famoso personagem, entre cujos hábitos está o de banhar-se numa piscina de moedas, sentindo o cheiro delas, fruindo-as na pele e até, se isso fosse possível, lambuzando-se com elas, nunca se viu alguém com gosto físico pelo dinheiro tão forte – forte a ponto de não prescindir de tê-lo bem abundante nos bolsos, bem aconchegado, junto ao corpo como uma amante, agradável como carícia.

E daí? Daí nada, por enquanto. Se Yunes cometeu algum ilícito, a Justiça o dirá. Quanto ao gosto fet... íamos dizer fetichista, mas vá lá um desconto – quanto ao gosto literal pelo dinheiro, pode ser encarado como excentricidade de milionário. Assim como há os que não andam com dinheiro algum, este tem a excentricidade de andar com muito. O problema – sim, existe um problema – é que o dinheiro que lhe sobra no paletó e nas calças talvez esteja faltando em outro lugar. Nomeadamente, nas duas editoras de sua propriedade, o Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas (Ibep) e a Companhia Editora Nacional, ambas especializadas em livros didáticos. Seria falta de investimento, já que o patrão prefere reter o dinheiro no bolso? Talvez. O fato é que, em oposição ao brilho de sua vida pessoal, feita de luxo e riqueza, o desempenho das editoras acumula vexame sobre vexame.

Nas avaliações de livros didáticos realizadas pelo Ministério da Educação, as editoras de Yunes vêm primando pela insuficiência. Dos 39 livros apresentados em 1997, 31 foram considerados "não recomendados" e oito entraram na coluna dos "excluídos", aqueles que não têm remédio. Nenhum, nem um escasso título, foi considerado "recomendado com distinção", "recomendado" ou "recomendado com ressalvas", as outras categorias possíveis. Em 1998, o vexame se repetiu. Outra vez foram apresentados 39 títulos – 38 viraram "não recomendados" e um foi excluído. E em 1999 foi a ruína. Dos 28 títulos apresentados, quatro saíram "recomendados com ressalvas" e 24 – 85% do total – excluídos. Yunes, nesse campo, até parece o Madureira no campeonato carioca, ou o Íbis, o time pernambucano que se intitula "o pior do mundo": só entra para apanhar. Um de seus livros de ciências diz que "as doenças sexualmente transmissíveis se propagam durante o ato sexual ou outra forma qualquer de contato físico". Outro traça uma descrição do processo digestivo da qual se conclui, segundo o avaliador do MEC, que "as fezes circulam pelo sangue e dele são retiradas pelo intestino grosso, antes de serem evacuadas". Um livro de geografia ensina que vieram para o Brasil "indústrias de países estrangeiros, como Europa, América e Japão" (países!) e que "países como a África" (países!) "têm uma escassez gravíssima de alimentos".

Na avaliação deste ano, o Ibep e a Nacional vieram com munição redobrada. Apresentaram 69 livros e conseguiram – milagre – três "recomendações com distinção". Outros seis foram considerados "recomendados" e dezenove "recomendados com ressalvas". O grosso, no entanto – 41 –, foram excluídos. Yunes, tão generoso ao investir nos amigos, não mostra o mesmo ardor com o investimento nas crianças. Tira o dinheiro do bolso, doutor Yunes.