Beibe, ai lóvi iú
Banidas da MPB por duas décadas,
versões voltam a fazer sucesso
Sérgio Martins
As
versões estão de volta. Duas das campeãs
atuais das paradas de sucessos são traduções
de músicas estrangeiras. Deixaria Tudo, do
cantor Leonardo, é na verdade do ídolo romântico
porto-riquenho Chayanne. Nada Me Faz Esquecer, estourada
nas vozes de Pepê & Neném, é uma
adaptação de Wild World, do veteraníssimo
Cat Stevens. A dupla Sandy & Junior, que já vendeu
10 milhões de cópias de nove CDs, tem sua
carreira calcada em versões. Eles são especialistas
na "obra" da canadense Celine Dion. Estouraram nacionalmente
cantando em português o tema do filme Titanic,
My Heart Will Go On. O disco do ano passado, Quatro
Estações, era puxado pela música
Imortal, tradução de Immortallity.
Os produtores musicais gostam de incluir versões
nos discos dos artistas porque elas são uma aposta
praticamente certa. "É mais fácil o ouvinte
se sentir atraído por uma melodia que já conhece
do que por uma música completamente nova", diz Décio
Cruz, diretor artístico da editora Warner Chapell.
Durante duas décadas as versões rarearam
na música brasileira. Para a politizada MPB dos anos
70, eram sinônimo de "capitulação cultural".
O rock nacional da década seguinte copiou tudo das
bandas americanas e inglesas arranjos, coreografias,
vestuário , mas seus compositores faziam questão
de criar as próprias letras. As versões ressurgiram
timidamente no final dos anos 80, pelas mãos de produtores
como Cláudio Rabello. Em cima da melodia da obscura
canção romântica The Power of Love,
ele criou a letra de O Amor e o Poder, maior sucesso
da cantora brega Rosana (o refrão é inesquecível:
Como uma deusaaaaaaaaaa/ Você me mantém).
Rabello pegou gosto pela coisa e continuou no ramo.
O maior hit de sua carreira foi Então É
Natal, adaptação de Happy Xmas,
de John Lennon, que puxou o CD natalino de Simone em 1995.
Fotos João Santos/Rodrigo
Lopes
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Fotos João
Santos/Rodrigo Lopes
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Pepê & Neném
e Sandy & Junior: traduções ao pé
da letra, tão ruins quanto os originais
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Fazer versão, no entanto, não dá
camisa a ninguém. Na maior parte dos casos, a editora
estrangeira só libera a música se o criador
da letra em português abrir mão dos direitos
autorais. Isso aconteceu com Cláudio Rabello em Então
É Natal. "Fiquei só com a honra de ser
parceiro de John Lennon", brinca. Em geral, os autores são
também produtores musicais, e ganham por esse trabalho.
Fazem-se versões na música brasileira desde
os tempos de Orlando Silva, que cantava Begin the Beguine,
de Cole Porter, com letra de Haroldo Barbosa. No passado,
o versionista não costumava ter muito compromisso
com a canção original. Hoje em dia é
diferente. As músicas cantadas por Leonardo, Sandy
& Junior e Pepê & Neném são
traduções praticamente literais. Isso não
significa que o resultado final seja bom. Existe música
ruim em qualquer lugar do mundo e Deixaria Tudo
e Imortal estão, com certeza, à altura
dos originais de Chayanne e Celine Dion.