Ele é um gênio
Edward Norton surpreende outra
vez em Tenha Fé
Isabela Boscov
Jake e Brian são inseparáveis, mas têm
de pôr sua amizade à prova quando surge na
parada uma moça que encanta aos dois. Vista dessa
maneira, a trama de Tenha Fé (Keeping
the Faith, Estados Unidos, 2000), que estréia
nesta sexta-feira no país, parece batida. A não
ser por alguns detalhes: Jake é rabino, Brian é
padre. Moderninhos, ambos são capazes de lotar seus
templos com fiéis que freqüentam os cultos como
se fossem a um show. Anna, a jovem pela qual os dois arrastam
a asa, também não é uma heroína
convencional: embora seja uma astuta mulher de negócios,
ela não tem aquela dureza que costuma marcar esse
gênero de personagem. Nem sequer há brigas
entre o inusitado triângulo amoroso. Todas as arestas
são aparadas na base da conversa, em diálogos
velozes e espirituosos. Tenha Fé é
a estréia na direção do ator Edward
Norton, um craque na arte de reverter expectativas. Despretensioso,
ele equilibra bem questões sérias, como o
significado pessoal da fé, com temas leves caso
da hilariante seqüência de encontros desastrados
que as mães da congregação armam para
o rabino solteirão.
Tenha Fé vale sobretudo pelas atuações.
Ben Stiller, de Quem Vai Ficar com Mary?, é
um piadista de primeira no papel do rabino, e Jenna Elfman,
do seriado Dharma & Greg, convence como aquele
tipo de mulher que tem sempre uma resposta na ponta da língua.
Ainda assim, Norton sobressai como o dedicado padre Brian,
o exato oposto do viciado em violência que viveu em
Clube da Luta. Norton é mesmo um grande intérprete.
Talvez seja o único exemplo de ator que conseguiu
papéis importantes em duas produções
de respeito (Todos Dizem Eu Te Amo, de Woody Allen,
e O Povo Contra Larry Flynt, de Milos Forman), antes
mesmo que seu primeiro filme tivesse estreado nos cinemas.
Seus testes para As Duas Faces de um Crime, em 1996,
foram tão eletrizantes que circularam por toda Hollywood.
A escalação para As Duas Faces de um
Crime, aliás, é uma dessas histórias
que viraram folclore. Depois de perder Leonardo DiCaprio
e testar mais de 2 000 candidatos para o papel de um rapaz
caipira, gago e tímido que é acusado de assassinar
um bispo, os produtores do filme já não sabiam
o que fazer. Aí surgiu um sujeito magrinho, com sotaque
de capiau, e arrasou. Disse que vinha do Estado jeca do
Kentucky e ganhou a vaga. Era Norton, que na verdade nasceu
na aristocrática cidade de Boston e se formou em
história na Universidade Yale. Norton foi indicado
ao Oscar pelo trabalho e depois disputou o prêmio
de novo por A Outra História Americana, em
que interpretava um skinhead neonazista. Aos 30 anos, pode
incluir-se com tranqüilidade entre os melhores atores
do momento, ao lado de Kevin Spacey, Sean Penn, Russell
Crowe e Nicolas Cage. Agora se revela um cineasta promissor.
Quer mais? Bem, ele namora Salma Hayek.