Edição 1 652 -7/6/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Mágico do Fantástico vem ao Brasil
Danielle Winits mostra os seios na novela das 7
Linha Direta enfrenta crise
28 Dias, com Sandra Bullock
Tenha Fé, com Edward Norton
A onda das versões
O centenário de Ismael Nery
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Feita para vídeo

A tela de cinema é grande demais para
o módico carisma de Sandra Bullock

Isabela Boscov

Sandra Bullock, ninguém discute, é uma estrela do cinema americano. Mas o que a torna tão especial? Sandra não é bonita ou sensual como Sharon Stone, por exemplo. No quesito talento, está a anos-luz de uma Meryl Streep. Também não é glamourosa como Angelina Jolie ou caliente como Jennifer Lopez. Daquela frieza provocante de Nicole Kidman ela não mostra nem traço. Ela tem, sim, um sorriso grande e um ar ao mesmo tempo petulante e brincalhão, motivo pelo qual, no início da carreira, foi chamada de "a nova Julia Roberts". Passados seis anos do estouro de Velocidade Máxima, contudo, comprova-se que Sandra está longe de merecer o apelido. Enquanto a Julia original brilha cada vez mais, alimentada por sucesso atrás de sucesso nas bilheterias, sua cópia anda cada vez mais apagada. É, digamos, uma Julia de baixa voltagem.

A prova está em 28 Dias (28 Days, Estados Unidos, 2000), que estreou na sexta-feira em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Sandra interpreta uma festeira compulsiva, dessas que brindam a tudo e sempre exageram na dose. Só ela própria ainda não percebeu que é alcoólatra. Quando arruína a festa de casamento da irmã e enfia o carro num poste, vê-se obrigada a enfrentar o problema: ou se interna numa clínica de reabilitação por quatro semanas ou encara o xadrez. Chega-se, então, ao cerne do filme: a protagonista vai perceber que dependência de substâncias químicas não é sinônimo de charme e nem mesmo a torna especial – se assim fosse, a clínica não estaria lotada de outros viciados. Isso é o que se diz. O que se vê na tela é uma trama esquemática, cuja única meta é promover Sandra. Os outros personagens nem sequer merecem esse nome. São concebidos de forma tão exangue que daria na mesma se os atores fossem substituídos por placas de trânsito com dizeres como "Cuidado: jovem autodestrutiva viciada em heroína", ou "À frente: astro do esporte desestruturado pela fama". Só Sandra tem um papel de fato. Como não consegue sair do seu registro de adorável insolência e não é nenhum pilar da arte interpretativa, todo o edifício desaba junto com ela – só que lentamente, no decorrer de 100 cansativos minutos de projeção.

Ridículo total – É um impasse grave para a carreira de Sandra. A atriz fez fama à custa de enredos que exploravam seu jeito despojado, como Velocidade Máxima e Enquanto Você Dormia. Agora, quase aos 36 anos, ela está deixando de ser engraçadinha. Precisa passar ao patamar seguinte, de mulher atraente com um mínimo de potencial dramático – como fez Julia Roberts. Para Sandra, essa transição não está sendo fácil. Do ridículo total (por Velocidade Máxima 2) ao fracasso completo, ela já enfrentou de tudo nos últimos anos. Seu penúltimo filme, a aventura romântica Gun Shy (que nem foi lançada no Brasil), rendeu a mixaria de 1,6 milhão de dólares nos Estados Unidos. Como Sandra ganha em média 12 milhões de dólares por trabalho, essas cifras a estão tornando um investimento de altíssimo risco, ou uma grande aposta que insiste em não se cumprir.

Não que a atriz não se esforce. Em companhia da irmã mais nova, montou uma produtora chamada Fortis Films para caçar roteiros que convenham à sua personalidade artística. Os resultados vêm sendo cada vez mais decepcionantes. Há dois anos, Sandra conseguiu uma renda razoável, de 62 milhões de dólares, com o tolinho Quando o Amor Acontece, em que contracenava com o aspirante a galã Harry Connick Jr. A partir daí, tudo foi ladeira abaixo com Gun Shy. 28 Dias não é uma produção sua, mas também estacou na marca dos 34 milhões. Persistente, Sandra está bancando mais um projeto, Miss Congeniality (algo como "Senhorita Simpatia"). Apoiada pelo talento do inglês Michael Caine, pretende cativar o público na figura de uma moça malcriada que tem de fingir meiguice para participar de um concurso de beleza. Como se vê, mudam os filmes, mas os papéis de Sandra continuam os mesmos. Pode até ser um bom caminho, desde que se aceite um fato: a atriz não nasceu para o sucesso nas bilheterias, e sim para a popularidade nas videolocadoras. Na tela grande do cinema, seu módico carisma parece ainda menor.