Feita para vídeo
A tela de cinema é grande demais
para
o módico carisma de Sandra Bullock
Isabela Boscov
Sandra Bullock, ninguém discute, é uma estrela
do cinema americano. Mas o que a torna tão especial?
Sandra não é bonita ou sensual como Sharon
Stone, por exemplo. No quesito talento, está a anos-luz
de uma Meryl Streep. Também não é glamourosa
como Angelina Jolie ou caliente como Jennifer Lopez. Daquela
frieza provocante de Nicole Kidman ela não mostra
nem traço. Ela tem, sim, um sorriso grande e um ar
ao mesmo tempo petulante e brincalhão, motivo pelo
qual, no início da carreira, foi chamada de "a nova
Julia Roberts". Passados seis anos do estouro de Velocidade
Máxima, contudo, comprova-se que Sandra está
longe de merecer o apelido. Enquanto a Julia original brilha
cada vez mais, alimentada por sucesso atrás de sucesso
nas bilheterias, sua cópia anda cada vez mais apagada.
É, digamos, uma Julia de baixa voltagem.
A prova está em 28 Dias (28 Days,
Estados Unidos, 2000), que estreou na sexta-feira em São
Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Sandra interpreta uma festeira
compulsiva, dessas que brindam a tudo e sempre exageram
na dose. Só ela própria ainda não percebeu
que é alcoólatra. Quando arruína a
festa de casamento da irmã e enfia o carro num poste,
vê-se obrigada a enfrentar o problema: ou se interna
numa clínica de reabilitação por quatro
semanas ou encara o xadrez. Chega-se, então, ao cerne
do filme: a protagonista vai perceber que dependência
de substâncias químicas não é
sinônimo de charme e nem mesmo a torna especial
se assim fosse, a clínica não estaria lotada
de outros viciados. Isso é o que se diz. O que se
vê na tela é uma trama esquemática,
cuja única meta é promover Sandra. Os outros
personagens nem sequer merecem esse nome. São concebidos
de forma tão exangue que daria na mesma se os atores
fossem substituídos por placas de trânsito
com dizeres como "Cuidado: jovem autodestrutiva viciada
em heroína", ou "À frente: astro do esporte
desestruturado pela fama". Só Sandra tem um papel
de fato. Como não consegue sair do seu registro de
adorável insolência e não é nenhum
pilar da arte interpretativa, todo o edifício desaba
junto com ela só que lentamente, no decorrer de
100 cansativos minutos de projeção.
Ridículo total É um impasse grave
para a carreira de Sandra. A atriz fez fama à custa
de enredos que exploravam seu jeito despojado, como Velocidade
Máxima e Enquanto Você Dormia. Agora,
quase aos 36 anos, ela está deixando de ser engraçadinha.
Precisa passar ao patamar seguinte, de mulher atraente com
um mínimo de potencial dramático como fez
Julia Roberts. Para Sandra, essa transição
não está sendo fácil. Do ridículo
total (por Velocidade Máxima 2) ao fracasso
completo, ela já enfrentou de tudo nos últimos
anos. Seu penúltimo filme, a aventura romântica
Gun Shy (que nem foi lançada no Brasil), rendeu
a mixaria de 1,6 milhão de dólares nos Estados
Unidos. Como Sandra ganha em média 12 milhões
de dólares por trabalho, essas cifras a estão
tornando um investimento de altíssimo risco, ou uma
grande aposta que insiste em não se cumprir.
Não que a atriz não se esforce. Em companhia
da irmã mais nova, montou uma produtora chamada Fortis
Films para caçar roteiros que convenham à
sua personalidade artística. Os resultados vêm
sendo cada vez mais decepcionantes. Há dois anos,
Sandra conseguiu uma renda razoável, de 62 milhões
de dólares, com o tolinho Quando o Amor Acontece,
em que contracenava com o aspirante a galã Harry
Connick Jr. A partir daí, tudo foi ladeira abaixo
com Gun Shy. 28 Dias não é uma produção
sua, mas também estacou na marca dos 34 milhões.
Persistente, Sandra está bancando mais um projeto,
Miss Congeniality (algo como "Senhorita Simpatia").
Apoiada pelo talento do inglês Michael Caine, pretende
cativar o público na figura de uma moça malcriada
que tem de fingir meiguice para participar de um concurso
de beleza. Como se vê, mudam os filmes, mas os papéis
de Sandra continuam os mesmos. Pode até ser um bom
caminho, desde que se aceite um fato: a atriz não
nasceu para o sucesso nas bilheterias, e sim para a popularidade
nas videolocadoras. Na tela grande do cinema, seu módico
carisma parece ainda menor.