Ciganos
Os enjeitados
Espalhados por toda a Europa, os ciganos
tentam escapar da perseguição e da miséria
Cristiano Dias
O poeta francês Charles Baudelaire se referia a
eles como uma "tribo profética com olhar ardente".
O ciganismo romântico, eternizado em personagens sedutores
como Carmen, da ópera de Georges Bizet, é
coisa do passado. A realidade desse povo se aproxima mais
do drama vivido por minorias excluídas, sem pátria
e sem estima. Especialmente na Europa, onde vivem mais de
85% dos 10 milhões de ciganos do mundo, a vida se
resume a pedir esmola, apanhar da polícia e esperar
por um ataque de skinheads, aqueles baderneiros de cabeça
raspada e idéias fascistóides. A situação
mais crítica é na Europa Oriental, que abriga
quase três quartos da população cigana
do continente. A transição do comunismo para
a democracia com economia de mercado evidenciou um fenômeno
que ficava meio escondido nos países que viviam sob
sistemas totalitários. Com o maior grau de liberdade,
emergiu com mais nitidez a discriminação contra
os ciganos. "Aqui, são muito comuns a violência
policial e os ataques com motivação racial",
afirmou Claude Cahn, diretor do Centro de Direitos do Cigano
Europeu, da Hungria.
A situação desfavorável está
provocando uma nova onda migratória que leva ciganos
dos países do Leste Europeu a procurar asilo político
no lado rico do continente. Mas são mal recebidos
na Europa Ocidental, sob a alegação de que
fogem por razões econômicas e não políticas.
Na realidade, tentam escapar da miséria e da discriminação.
O ex-primeiro-ministro da Eslováquia Vladimir Meciar
os chamava de "retardados". Metade das crianças ciganas
do país freqüenta escolas especiais para deficientes
mentais. Em novembro, o prefeito da cidade de Usti, na República
Checa, mandou cercar com um muro dois blocos de um conjunto
habitacional de ciganos, alegando que seus moradores faziam
muita sujeira e muito barulho. Uma pesquisa revelou que
39% dos checos julgam necessário o uso da força
para contê-los. Diante da perseguição,
20% da população cigana checa já deixou
o país.
Milhares de famílias também fazem fila para
deixar a Romênia, país com 2,5 milhões
de ciganos, a maior concentração mundial.
Lá, a violência contra eles corre por conta
da própria polícia. Prisões arbitrárias,
espancamentos e extorsões viraram rotina entre as
comunidades ciganas no interior do país. Na vizinha
Hungria, a polícia faz vista grossa para casos de
assassinatos com motivação racial. Na Iugoslávia,
para fugir da perseguição, muitos adotam nomes
muçulmanos e sobrenomes ortodoxos. "O medo da morte
faz com que muitos neguem suas origens para as autoridades",
diz Cahn.
AP
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Reuters
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Sobras da guerra: cigana foge da
perseguição dos albaneses em Kosovo
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Muro isola prédios
ciganos na República Checa |
Os ciganos migraram da península indiana para a
Europa há mais de 1.000
anos. Espalharam-se pelo continente europeu, mas não
tiveram boa vida. Até meados do século XIX
eram escravizados. Devido à imigração,
deixaram de ser um povo homogêneo. A maior parte fala
o romani, mas a língua se dividiu em vários
dialetos. Originalmente, os ciganos são nômades,
mas a necessidade e o contato com outras culturas vêm
provocando uma tendência à sedentarização.
Eles não têm deus próprio, nem sacerdotes,
nem cultos originais. Acreditam em duas forças espirituais
contrapostas, uma do bem (Del) e outra do mal (Beng), crenças
assimiladas do zoroastrismo, adquiridas na época
em que atravessaram a Pérsia. As tradições
também foram se diferenciando, mas alguns rituais,
como o do casamento, permaneceram. Assim como em várias
regiões da Índia, as meninas ciganas que vivem
na Europa continuam se submetendo a casamentos arranjados
pelos pais. Cultivando laços familiares fortíssimos,
os ciganos colocam os filhos para ajudá-los a conseguir
o sustento, em atividades como a esmola e a leitura de mãos.
Ainda hoje, a mendicância é, ao lado do artesanato,
sua principal fonte de renda.
Detestados e perseguidos pelos nazistas, os ciganos sofreram
uma aniquilação sistemática durante
a II Guerra Mundial. Calcula-se que o número de mortos
chegue a 1 milhão. A maioria das vítimas nem
sequer entrou em um campo de concentração,
já que, para poupar os nazistas do trabalho com transporte
e câmara de gás, autoridades cúmplices
dos alemães no Leste Europeu se encarregavam de executá-las
antes. Embora tenham tido o mesmo destino dos 6 milhões
de judeus do holocausto, os ciganos nunca foram alvo de
desagravos ou receberam qualquer indenização
de guerra. Em 1986, o romeno Elie Wiesel, ao receber o Prêmio
Nobel da Paz, pediu perdão ao povo cigano por "nunca
terem ouvido sua história". A história cigana
continua calada. Até hoje, os membros dessa etnia
peculiar de "negros europeus", como são chamados,
formam uma espécie de nação fantasma
no interior do mais civilizado continente do planeta.