Edição 1 652 -7/6/2000

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Ciganos

Os enjeitados

Espalhados por toda a Europa, os ciganos
tentam escapar da perseguição e da miséria

Cristiano Dias

O poeta francês Charles Baudelaire se referia a eles como uma "tribo profética com olhar ardente". O ciganismo romântico, eternizado em personagens sedutores como Carmen, da ópera de Georges Bizet, é coisa do passado. A realidade desse povo se aproxima mais do drama vivido por minorias excluídas, sem pátria e sem estima. Especialmente na Europa, onde vivem mais de 85% dos 10 milhões de ciganos do mundo, a vida se resume a pedir esmola, apanhar da polícia e esperar por um ataque de skinheads, aqueles baderneiros de cabeça raspada e idéias fascistóides. A situação mais crítica é na Europa Oriental, que abriga quase três quartos da população cigana do continente. A transição do comunismo para a democracia com economia de mercado evidenciou um fenômeno que ficava meio escondido nos países que viviam sob sistemas totalitários. Com o maior grau de liberdade, emergiu com mais nitidez a discriminação contra os ciganos. "Aqui, são muito comuns a violência policial e os ataques com motivação racial", afirmou Claude Cahn, diretor do Centro de Direitos do Cigano Europeu, da Hungria.


A situação desfavorável está provocando uma nova onda migratória que leva ciganos dos países do Leste Europeu a procurar asilo político no lado rico do continente. Mas são mal recebidos na Europa Ocidental, sob a alegação de que fogem por razões econômicas e não políticas. Na realidade, tentam escapar da miséria e da discriminação. O ex-primeiro-ministro da Eslováquia Vladimir Meciar os chamava de "retardados". Metade das crianças ciganas do país freqüenta escolas especiais para deficientes mentais. Em novembro, o prefeito da cidade de Usti, na República Checa, mandou cercar com um muro dois blocos de um conjunto habitacional de ciganos, alegando que seus moradores faziam muita sujeira e muito barulho. Uma pesquisa revelou que 39% dos checos julgam necessário o uso da força para contê-los. Diante da perseguição, 20% da população cigana checa já deixou o país.

Milhares de famílias também fazem fila para deixar a Romênia, país com 2,5 milhões de ciganos, a maior concentração mundial. Lá, a violência contra eles corre por conta da própria polícia. Prisões arbitrárias, espancamentos e extorsões viraram rotina entre as comunidades ciganas no interior do país. Na vizinha Hungria, a polícia faz vista grossa para casos de assassinatos com motivação racial. Na Iugoslávia, para fugir da perseguição, muitos adotam nomes muçulmanos e sobrenomes ortodoxos. "O medo da morte faz com que muitos neguem suas origens para as autoridades", diz Cahn.


AP
Reuters

Sobras da guerra: cigana foge da perseguição dos albaneses em Kosovo

Muro isola prédios ciganos na República Checa

Os ciganos migraram da península indiana para a Europa há mais de 1.000 anos. Espalharam-se pelo continente europeu, mas não tiveram boa vida. Até meados do século XIX eram escravizados. Devido à imigração, deixaram de ser um povo homogêneo. A maior parte fala o romani, mas a língua se dividiu em vários dialetos. Originalmente, os ciganos são nômades, mas a necessidade e o contato com outras culturas vêm provocando uma tendência à sedentarização. Eles não têm deus próprio, nem sacerdotes, nem cultos originais. Acreditam em duas forças espirituais contrapostas, uma do bem (Del) e outra do mal (Beng), crenças assimiladas do zoroastrismo, adquiridas na época em que atravessaram a Pérsia. As tradições também foram se diferenciando, mas alguns rituais, como o do casamento, permaneceram. Assim como em várias regiões da Índia, as meninas ciganas que vivem na Europa continuam se submetendo a casamentos arranjados pelos pais. Cultivando laços familiares fortíssimos, os ciganos colocam os filhos para ajudá-los a conseguir o sustento, em atividades como a esmola e a leitura de mãos. Ainda hoje, a mendicância é, ao lado do artesanato, sua principal fonte de renda.

Detestados e perseguidos pelos nazistas, os ciganos sofreram uma aniquilação sistemática durante a II Guerra Mundial. Calcula-se que o número de mortos chegue a 1 milhão. A maioria das vítimas nem sequer entrou em um campo de concentração, já que, para poupar os nazistas do trabalho com transporte e câmara de gás, autoridades cúmplices dos alemães no Leste Europeu se encarregavam de executá-las antes. Embora tenham tido o mesmo destino dos 6 milhões de judeus do holocausto, os ciganos nunca foram alvo de desagravos ou receberam qualquer indenização de guerra. Em 1986, o romeno Elie Wiesel, ao receber o Prêmio Nobel da Paz, pediu perdão ao povo cigano por "nunca terem ouvido sua história". A história cigana continua calada. Até hoje, os membros dessa etnia peculiar de "negros europeus", como são chamados, formam uma espécie de nação fantasma no interior do mais civilizado continente do planeta.