Argentina
Facão no salário
Numa América conturbada política
e economicamente, o governo argentino corta a renda dos
aposentados e dos funcionários públicos
Eliana Giannella Simonetti
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Reuters |
AFP
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| Cenas
da Argentina na semana passada: manifestação
contra o pacote e notícia de que Antonito, filho
do presidente De la Rúa, está em Miami,
com a cantora Shakira |
Na seqüência dos ajustes que vem fazendo há
mais de dez anos para estabilizar a economia, a Argentina
apelou na semana passada para o mais chocante pacote já
editado no país. Três exemplos das medidas:
Corte no salário dos funcionários públicos,
entre 12% e 15%.
Aposentados com menos de 50 anos de idade receberão
a metade da pensão e os que têm entre 50 e
60 anos sofrerão um corte de 33% nos rendimentos.
Corte no orçamento das universidades públicas
da ordem de 15 milhões de dólares.
Conhecem-se muitos casos de países que pararam
de conceder reajustes salariais a funcionários para
evitar aumento de gastos públicos. São raríssimos
os exemplos, no mundo, de governos que diminuem o salário
de seus servidores. Mais raros ainda são os que ousam
tocar no dinheirinho dos aposentados. O governo argentino
ousou e o povo que luta para livrar-se do pesadelo da hiperinflação
e reingressar no nobre clube dos países equilibrados
descobriu que seu sofrimento ainda está longe de
terminar.
Do ponto de vista econômico, a Argentina está
numa camisa-de-força. Tem a moeda, o peso, atrelada
ao dólar e quase 70% das dívidas públicas
e privadas contratadas na moeda americana. Se o peso for
desvalorizado, as famílias, as empresas e o governo
quebram. Possui um parque industrial que ainda não
teve tempo para se modernizar. Os produtos que exporta estão
com o preço em queda. E com tudo isso, como o país
cresce pouco, a arrecadação de impostos do
governo está encolhendo e não é suficiente
para manter a máquina estatal funcionando. Então,
os argentinos, que já passaram por mais de uma dezena
de pacotes e cortes nas despesas públicas, estão
tendo de assimilar mais esse choque (veja
as medidas do pacote no quadro). "É um sacrifício
necessário para manter a estabilidade", diz o economista-chefe
para as Américas do banco holandês ING Barings,
Arturo Porzecanski.
O estrago não fica por aí. Há também
uma questão moral incomodando os argentinos. Depois
de agüentar por dois mandatos as costeletas, as brigas
familiares e a fanfarronice de Carlos Menem, a Argentina
elegeu Fernando de la Rúa para substituí-lo.
De la Rúa é um político mais conservador,
pelo menos no que diz respeito ao comportamento em público.
Se ainda está muito longe de emular Menem nesse terreno,
o novo presidente tem um filho que promete não fazer
feio. Na semana passada, a imprensa local divulgou fotos
de Antonito abraçado à cantora colombiana
Shakira, em trajes de banho, numa praia de Miami. Anunciava-se
o namoro dos pombinhos. Antonito, segundo se divulgou, alugara
um apartamento no balneário americano e não
ficou bem claro quem pagou a conta das férias, já
que o rapaz, de 26 anos, nunca trabalhou. "Estou tremendamente
indignado com o fato de a publicidade do namoro de meu filho
ter coincidido com o anúncio dos cortes no Orçamento
do governo", disse De la Rúa.
Os argentinos formam um dos países mais ricos da
América do Sul. Têm terras férteis,
população com alto grau de escolaridade, uma
cultura rara no Cone Sul. Foram enfraquecidos por anos de
populismo, de ditadura militar e de guerra, mas saíram
na dianteira dos vizinhos quando chegou o momento de fazer
reformas políticas, econômicas e institucionais.
Imagine-se que, até os anos 50, um funcionário
público podia deixar seu posto de herança
para um filho! Pois é, hoje os argentinos têm
um setor de telecomunicações desenvolvido
e uma das legislações trabalhistas mais modernas
da região. Praticamente todas as suas empresas estatais
foram privatizadas. Precisam de tempo para voltar a crescer.
E é justamente isso o que está faltando. Ninguém
agüenta mais esperar que o esforço de recuperação
dê resultados práticos. A Argentina vem fazendo
sacrifícios pesados em nome da estabilização
econômica e da retomada do crescimento. Mas a coisa
na foz do Rio da Prata parece estar patinando como nunca.
| AFP |
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Manifestação
no centro de Quito,
no Equador: greve de
professores, crise política e
economia dolarizada
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Acompanhar o trançado de pernas do tango argentino,
hoje em dia, virou uma obrigação de todo sul-americano
preocupado com o futuro. Seria recomendável até
que se organizasse uma torcida de apoio ao time de futebol
portenho Boca Juniors na Taça Libertadores da América.
"Nesta altura dos acontecimentos, até a vitória
num campeonato pode servir para dar mais fôlego aos
argentinos", diz o ex-ministro Mailson da Nóbrega.
"Uma crise na Argentina teria o poder de contaminar toda
a região."
AP
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Ricardo Lagos, o presidente
do Chile: esquerda julga Pinochet contra a direita
e os militares
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O caso argentino é um convite para observar o que
vem ocorrendo nos outros
países da América do Sul. Na aparência,
estão todos entrando, como em outras fases da História,
numa onda orquestrada em cuja espuma se misturariam crise
econômica, endurecimento político, pobreza.
De fato, há crises por todos os lados. Mas, analisadas
ao microscópio, cada uma tem formato, origem e conseqüências
diferentes. A raiz dos problemas argentinos está
na economia pouco competitiva. A do Paraguai, na absoluta
falta de economia e de instituições (inclusive
Justiça, polícia, legislação).
O Paraguai, aparentemente, só não é
uma ditadura porque depende do acordo comercial do Mercosul
para sobreviver. E os sócios do Mercosul estão
obrigados a manter o regime democrático. Na Colômbia,
a convivência com a guerrilha e as drogas acabou minando
a estabilidade econômica. E, no caso da Venezuela,
o rompimento de um balanço político de décadas,
coincidindo com a queda no preço internacional do
petróleo, levou ao poder um megalomaníaco,
Hugo Chávez. Cerca de dez dias atrás ele adiou
eleições que poderiam regularizar a situação
política do país.

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Houve um tempo em que era possível dizer que existia
um paradigma sul-americano. Começou com a colonização,
passou pela independência, depois entrou no populismo
(de esquerda ou de direita, conforme o caso) nas décadas
de 50 e 60. Daí todos desembocaram em ditaduras militares.
O processo de redemocratização ainda é
jovem. E os países da América do Sul, engatinhando,
saíram do cercadinho, sem escalas, para a economia
globalizada. Era de esperar que tivessem problemas. Mas,
considerando as dimensões da confusão em que
se meteram, até que se vêm dando muito bem.
A Argentina deve crescer 3% neste ano, com inflação
zero. Com todas as dificuldades recentes, tem 26 bilhões
de dólares em reservas internacionais, o que corresponde
a quatro meses de exportação. Uma boa taxa.
O déficit geral, de transações correntes,
corresponde a 1% do PIB, melhor do que o Brasil, que espera
manter seu déficit em 4% do PIB no ano 2000. Fazem
feio mesmo, na região, dois países. O Equador,
que marcou 60% de inflação no ano passado,
com uma recessão de 7%, e teve a economia dolarizada
por decreto. E a Venezuela, com 15% de seus trabalhadores
desempregados, cuja economia encolheu 7% com a inflação
de quase 20% no ano passado.
AP

Manifestação na Venezuela,
de apoio à oposição: eleições
adiadas |
Os economistas que acompanham de perto o desempenho dos
países latino-americanos já concluíram
que, por uma questão de tamanho, de escala e de potencial,
o Brasil é a locomotiva da economia sul-americana.
Se o Brasil cresce, a região tende a crescer também.
Se pára, aumenta para todos o risco de ter uma síncope.
"As obras de infra-estrutura que estão sendo construídas
nas fronteiras brasileiras, como os gasodutos, podem promover
uma integração de fato entre os países.
E um intercâmbio maior levará ao crescimento
econômico", diz Renato Baumann, professor de economia
internacional na Universidade de Brasília e economista
da Cepal, uma instituição especializada em
estudar os problemas econômicos, políticos
e sociais da América Latina. Alguém poderia
dizer que essa locomotiva está meio lerda. Mas os
sinais do momento são promissores. O Brasil cresceu
3% no primeiro trimestre deste ano. E isso com juros altos.
Quer dizer, dá até para ser um pouco otimista.
Com reportagem de
Raul Juste Lores