Edição 1 652 -7/6/2000

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Argentina

Facão no salário

Numa América conturbada política e economicamente, o governo argentino corta a renda dos aposentados e dos funcionários públicos

Eliana Giannella Simonetti

 
  Reuters
AFP
Cenas da Argentina na semana passada: manifestação contra o pacote e notícia de que Antonito, filho do presidente De la Rúa, está em Miami, com a cantora Shakira

Na seqüência dos ajustes que vem fazendo há mais de dez anos para estabilizar a economia, a Argentina apelou na semana passada para o mais chocante pacote já editado no país. Três exemplos das medidas:

 

Corte no salário dos funcionários públicos, entre 12% e 15%.

Aposentados com menos de 50 anos de idade receberão a metade da pensão e os que têm entre 50 e 60 anos sofrerão um corte de 33% nos rendimentos.

Corte no orçamento das universidades públicas da ordem de 15 milhões de dólares.

Conhecem-se muitos casos de países que pararam de conceder reajustes salariais a funcionários para evitar aumento de gastos públicos. São raríssimos os exemplos, no mundo, de governos que diminuem o salário de seus servidores. Mais raros ainda são os que ousam tocar no dinheirinho dos aposentados. O governo argentino ousou e o povo que luta para livrar-se do pesadelo da hiperinflação e reingressar no nobre clube dos países equilibrados descobriu que seu sofrimento ainda está longe de terminar.

Do ponto de vista econômico, a Argentina está numa camisa-de-força. Tem a moeda, o peso, atrelada ao dólar e quase 70% das dívidas públicas e privadas contratadas na moeda americana. Se o peso for desvalorizado, as famílias, as empresas e o governo quebram. Possui um parque industrial que ainda não teve tempo para se modernizar. Os produtos que exporta estão com o preço em queda. E com tudo isso, como o país cresce pouco, a arrecadação de impostos do governo está encolhendo e não é suficiente para manter a máquina estatal funcionando. Então, os argentinos, que já passaram por mais de uma dezena de pacotes e cortes nas despesas públicas, estão tendo de assimilar mais esse choque (veja as medidas do pacote no quadro). "É um sacrifício necessário para manter a estabilidade", diz o economista-chefe para as Américas do banco holandês ING Barings, Arturo Porzecanski.

O estrago não fica por aí. Há também uma questão moral incomodando os argentinos. Depois de agüentar por dois mandatos as costeletas, as brigas familiares e a fanfarronice de Carlos Menem, a Argentina elegeu Fernando de la Rúa para substituí-lo. De la Rúa é um político mais conservador, pelo menos no que diz respeito ao comportamento em público. Se ainda está muito longe de emular Menem nesse terreno, o novo presidente tem um filho que promete não fazer feio. Na semana passada, a imprensa local divulgou fotos de Antonito abraçado à cantora colombiana Shakira, em trajes de banho, numa praia de Miami. Anunciava-se o namoro dos pombinhos. Antonito, segundo se divulgou, alugara um apartamento no balneário americano – e não ficou bem claro quem pagou a conta das férias, já que o rapaz, de 26 anos, nunca trabalhou. "Estou tremendamente indignado com o fato de a publicidade do namoro de meu filho ter coincidido com o anúncio dos cortes no Orçamento do governo", disse De la Rúa.

Os argentinos formam um dos países mais ricos da América do Sul. Têm terras férteis, população com alto grau de escolaridade, uma cultura rara no Cone Sul. Foram enfraquecidos por anos de populismo, de ditadura militar e de guerra, mas saíram na dianteira dos vizinhos quando chegou o momento de fazer reformas políticas, econômicas e institucionais. Imagine-se que, até os anos 50, um funcionário público podia deixar seu posto de herança para um filho! Pois é, hoje os argentinos têm um setor de telecomunicações desenvolvido e uma das legislações trabalhistas mais modernas da região. Praticamente todas as suas empresas estatais foram privatizadas. Precisam de tempo para voltar a crescer. E é justamente isso o que está faltando. Ninguém agüenta mais esperar que o esforço de recuperação dê resultados práticos. A Argentina vem fazendo sacrifícios pesados em nome da estabilização econômica e da retomada do crescimento. Mas a coisa na foz do Rio da Prata parece estar patinando como nunca.

 
AFP

Manifestação no centro de Quito, no Equador: greve de professores, crise política e economia dolarizada

Acompanhar o trançado de pernas do tango argentino, hoje em dia, virou uma obrigação de todo sul-americano preocupado com o futuro. Seria recomendável até que se organizasse uma torcida de apoio ao time de futebol portenho Boca Juniors na Taça Libertadores da América. "Nesta altura dos acontecimentos, até a vitória num campeonato pode servir para dar mais fôlego aos argentinos", diz o ex-ministro Mailson da Nóbrega. "Uma crise na Argentina teria o poder de contaminar toda a região."

 
AP

Ricardo Lagos, o presidente do Chile: esquerda julga Pinochet contra a direita e os militares

O caso argentino é um convite para observar o que vem ocorrendo nos outros países da América do Sul. Na aparência, estão todos entrando, como em outras fases da História, numa onda orquestrada em cuja espuma se misturariam crise econômica, endurecimento político, pobreza. De fato, há crises por todos os lados. Mas, analisadas ao microscópio, cada uma tem formato, origem e conseqüências diferentes. A raiz dos problemas argentinos está na economia pouco competitiva. A do Paraguai, na absoluta falta de economia e de instituições (inclusive Justiça, polícia, legislação). O Paraguai, aparentemente, só não é uma ditadura porque depende do acordo comercial do Mercosul para sobreviver. E os sócios do Mercosul estão obrigados a manter o regime democrático. Na Colômbia, a convivência com a guerrilha e as drogas acabou minando a estabilidade econômica. E, no caso da Venezuela, o rompimento de um balanço político de décadas, coincidindo com a queda no preço internacional do petróleo, levou ao poder um megalomaníaco, Hugo Chávez. Cerca de dez dias atrás ele adiou eleições que poderiam regularizar a situação política do país.


Houve um tempo em que era possível dizer que existia um paradigma sul-americano. Começou com a colonização, passou pela independência, depois entrou no populismo (de esquerda ou de direita, conforme o caso) nas décadas de 50 e 60. Daí todos desembocaram em ditaduras militares. O processo de redemocratização ainda é jovem. E os países da América do Sul, engatinhando, saíram do cercadinho, sem escalas, para a economia globalizada. Era de esperar que tivessem problemas. Mas, considerando as dimensões da confusão em que se meteram, até que se vêm dando muito bem. A Argentina deve crescer 3% neste ano, com inflação zero. Com todas as dificuldades recentes, tem 26 bilhões de dólares em reservas internacionais, o que corresponde a quatro meses de exportação. Uma boa taxa. O déficit geral, de transações correntes, corresponde a 1% do PIB, melhor do que o Brasil, que espera manter seu déficit em 4% do PIB no ano 2000. Fazem feio mesmo, na região, dois países. O Equador, que marcou 60% de inflação no ano passado, com uma recessão de 7%, e teve a economia dolarizada por decreto. E a Venezuela, com 15% de seus trabalhadores desempregados, cuja economia encolheu 7% com a inflação de quase 20% no ano passado.

 
AP

Manifestação na Venezuela, de apoio à oposição: eleições adiadas

Os economistas que acompanham de perto o desempenho dos países latino-americanos já concluíram que, por uma questão de tamanho, de escala e de potencial, o Brasil é a locomotiva da economia sul-americana. Se o Brasil cresce, a região tende a crescer também. Se pára, aumenta para todos o risco de ter uma síncope. "As obras de infra-estrutura que estão sendo construídas nas fronteiras brasileiras, como os gasodutos, podem promover uma integração de fato entre os países. E um intercâmbio maior levará ao crescimento econômico", diz Renato Baumann, professor de economia internacional na Universidade de Brasília e economista da Cepal, uma instituição especializada em estudar os problemas econômicos, políticos e sociais da América Latina. Alguém poderia dizer que essa locomotiva está meio lerda. Mas os sinais do momento são promissores. O Brasil cresceu 3% no primeiro trimestre deste ano. E isso com juros altos. Quer dizer, dá até para ser um pouco otimista.

Com reportagem de Raul Juste Lores