São
Paulo
A tática do soco
Arruaceiros agridem novamente o governador
Mário Covas durante protesto em São Paulo
Daniela Pinheiro
Inácio Teixeira
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| O tumulto: o governador é
prensado por policiais e manifestantes |
Há muito tempo não se viam rancor e falta
de respeito reunidos com tanta intensidade numa manifestação
de protesto. Na última quinta-feira, o governador
de São Paulo, Mário Covas, dispensou a segurança
da tropa de choque da Polícia Militar para atravessar
um acampamento montado por professores em greve. Seu objetivo
era entrar no prédio da Secretaria da Educação,
cujo acesso estava bloqueado pelos grevistas. Covas deixou
o local com um galo na testa, um corte no lábio superior
e a fama aumentada de homem turrão que não
vacila em se lançar a uma aventura perigosa. Do lado
dos professores, o saldo foi ainda pior. O que antes era
visto como um movimento legítimo de reivindicação
salarial passou a ser interpretado como pretexto para arruaças.
A confusão foi feia. Com o braço estendido
no peito do governador, um manifestante barrou-lhe o caminho.
De queixo erguido, Covas forçou o passo. Começaram
a voar cadeiras de plástico, pedras, latas, garrafas
e laranjas. O governador conseguiu entrar no prédio
e, depois de ficar lá dentro alguns minutos, refez
o percurso entre os grevistas. De repente, um objeto acertou
Covas pouco acima do olho direito. Outro lhe feriu a boca.
Só então a polícia interveio, lançando
bombas de efeito moral.
Minoria radical O episódio teve péssima
repercussão. O presidente Fernando Henrique Cardoso
chamou os manifestantes de "fascistas". A candidata do PT
à prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy,
disse que agressões "não levam a nada". E
até o ex-prefeito Paulo Maluf, adversário
número 1 de Covas, declarou que "o governador merece
ser respeitado". No dia seguinte, Covas convocou a imprensa
para rever as cenas da pancadaria e acusou o PT de incitar
os ânimos. Exibiu um vídeo em que o presidente
nacional do PT, deputado José Dirceu, dizia que as
autoridades deveriam "apanhar na rua e nas urnas". As declarações
de Dirceu, segundo o governador, criaram o clima para que
episódios como os da semana passada acontecessem.
"São uns baderneiros", afirmou.
AE
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| Na saída da manifestação,
escoltado por assessores: "São um bando de neofascistas"
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Incidentes dessa natureza têm-se repetido com freqüência
preocupante em todo o país. Pela segunda vez em duas
semanas, o ministro José Serra levou uma ovada na
última sexta-feira, durante uma visita a Belo Horizonte.
Algumas dessas manifestações se devem a uma
insatisfação real por parte da população
em relação ao desemprego e aos baixos salários.
O radicalismo e as cenas de violência, no entanto,
são coisa de uma minoria radical. Entre os professores,
a turma que agrediu Covas em São Paulo é conhecida
pela truculência. É um grupo que se reúne
em torno de três microssiglas políticas: Coletivo
Socialista, Liga Operária Internacionalista e Tendência
por um Partido Operário. Fundadas na década
de 80, essas siglas jamais conseguiram eleger um único
vereador, deputado ou mesmo líder sindical. Na última
vez em que disputaram uma eleição para a associação
dos professores, a Apeoesp, essa dissidência ficou
com apenas 5% dos votos. Um dos líderes dos agressores,
o professor Antonio Justino, conhecido como "To-nhão",
é ex-vice-prefeito de Diadema pelo PT. Foi expulso
do partido porque invadiu o gabinete do prefeito com um
grupo de sem-teto. Já esteve preso três vezes.
Outro fator que contribui para a repetição
de cenas como a da semana passada é o despreparo
da polícia para enfrentar manifestações
de rua. A tropa de choque não tem equipamento adequado
nem treinamento para desempenhar a tarefa. O resultado são
episódios lamentáveis, como o ocorrido no
Paraná algumas semanas atrás, em que um sem-terra
foi morto por disparo da polícia. Protestos de rua
ocorrem em qualquer lugar do mundo e, quando são
enfrentados por policiais bem preparados, raramente há
feridos mortos, então, nem pensar. Em Paris, há
quase cinco manifestações por dia. Lá,
o bom treinamento manda que, em caso de conflito, o policial
vá para a rua certo de que tem o controle da situação.
No caso de São Paulo, para complicar, Covas anda
contribuindo para esquentar os ânimos. Duas semanas
atrás já havia sido atingido na cabeça
por uma bandeira durante manifestação no ABC
paulista. No dia seguinte, em outra solenidade, reagiu diante
de mais um protesto. "Vocês vão ter de me engolir",
gritou para os manifestantes. Chamou o grupo de piqueteiros
de "panacas" e fez caretas. Covas também insiste
em andar pela rua sem um esquema de segurança adequado.
É evidente que, para uma pessoa com a reputação
ilibada do governador, ser xingado de "ladrão" e
"safado" bate fundo no orgulho. Mas, apesar dos 70 anos
de idade, Covas precisa aprender a conter a cólera.
O que está em jogo é a figura de uma autoridade
que 9,8 milhões de eleitores escolheram para governá-los
na última eleição. É essa a
questão que tem de ser levada em conta nos confrontos
entre ele e arruaceiros no meio da rua.
Reinaldo Marques/DGABC
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| Mascarini, o professor que atingiu
Covas com bandeirada em protesto no ABC paulista |