A minha São Paulo
Pepe Casals
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Enquanto os paulistanos comemoravam o afastamento do prefeito
Celso Pitta, acusado de corrupção pela própria
mulher, eu me ocupava de questões muito mais sérias,
igualmente relativas a São Paulo. A caminhonete da
distribuidora de gás, por exemplo. Existe problema
maior do que esse? Diariamente, por volta das 9 da manhã,
a caminhonete passa diante do flat em que estou hospedado,
acordando-me com uma irritante versão eletrônica
de Pour Elise, de Beethoven. A melodia fica o dia
inteiro na minha cabeça, martelando-me, impedindo-me
de raciocinar. É um obstáculo insuperável.
Sempre que me ocorre uma pequena idéia, lá
vem Beethoven para atrapalhar. Imagino que eu não
seja o único a sofrer com isso. A caminhonete da
distribuidora de gás certamente afeta outras pessoas,
diminuindo a capacidade de trabalho da população
e provocando milhões e milhões de dólares
de prejuízo. Aliás, tenho uma dúvida:
como é que a terceira cidade do mundo ainda funciona
na base do bujão de gás?
Outra implicância minha é com a esteira rolante
do Aeroporto de Cumbica. Ela foi projetada de tal maneira
que, de cada dez malas, uma é necessariamente arremessada
ao chão. Dá para confiar num país desses?
Se eu fosse um investidor estrangeiro e, ao desembarcar
no Brasil, visse uma esteira rolante como a do Aeroporto
de Cumbica, jamais cogitaria enterrar meu dinheiro por aqui.
Voltaria correndo para casa. Ou então iria para Buenos
Aires. Os argentinos, que são bem mais espertos do
que nós, venderam uma parte de seu principal aeroporto
para uma empresa italiana. O preço foi tão
exorbitante que a empresa italiana está passando
por graves dificuldades. Até abriram uma sindicância
para averiguar os gastos. Nós, por outro lado, preferimos
deixar os aeroportos nas mãos dos militares, os mesmos
que projetaram a esteira rolante de Cumbica. Como disse
o presidente Fernando Henrique Cardoso, os militares servem
apenas para matar, não para administrar aeroportos
ou projetar esteiras rolantes.
Também me incomodam, em São Paulo, os cachorros
com agasalhos. Basta a temperatura descer 2 ou 3 graus que
os pobres coitados logo são cobertos com agasalhos
de lã, em geral de padrão escocês. E
o que dizer dos canteiros de plantas da Avenida Paulista?
Para cada arbusto seco, há seis placas de propaganda
da empresa encarregada de cuidar do canteiro. E os edifícios
com nomes pomposos como o do meu flat, Place de la Concorde?
Quem teve uma excelente idéia a esse respeito foram
os arquitetos Isay Weinfeld e Marcio Kogan. Eles estão
preparando uma exposição intitulada Grandes
Contribuições da Arquitetura Brasileira à
Arquitetura Universal. Vão implantar jóias
da nossa arquitetura nas paisagens que as inspiraram, como
os espigões em estilo mediterrâneo de São
Paulo, que serão inseridos graficamente em Mikonos.
Quanto ao edifício Place de la Concorde, seria curioso
vê-lo no meio da verdadeira Place de la Concorde,
em Paris. Daria um belo efeito. Minha única sugestão
seria levar junto a esteira rolante de Cumbica e a caminhonete
da distribuidora de gás.