Edição 1 652 -7/6/2000

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A minha São Paulo

Pepe Casals


Enquanto os paulistanos comemoravam o afastamento do prefeito Celso Pitta, acusado de corrupção pela própria mulher, eu me ocupava de questões muito mais sérias, igualmente relativas a São Paulo. A caminhonete da distribuidora de gás, por exemplo. Existe problema maior do que esse? Diariamente, por volta das 9 da manhã, a caminhonete passa diante do flat em que estou hospedado, acordando-me com uma irritante versão eletrônica de Pour Elise, de Beethoven. A melodia fica o dia inteiro na minha cabeça, martelando-me, impedindo-me de raciocinar. É um obstáculo insuperável. Sempre que me ocorre uma pequena idéia, lá vem Beethoven para atrapalhar. Imagino que eu não seja o único a sofrer com isso. A caminhonete da distribuidora de gás certamente afeta outras pessoas, diminuindo a capacidade de trabalho da população e provocando milhões e milhões de dólares de prejuízo. Aliás, tenho uma dúvida: como é que a terceira cidade do mundo ainda funciona na base do bujão de gás?

Outra implicância minha é com a esteira rolante do Aeroporto de Cumbica. Ela foi projetada de tal maneira que, de cada dez malas, uma é necessariamente arremessada ao chão. Dá para confiar num país desses? Se eu fosse um investidor estrangeiro e, ao desembarcar no Brasil, visse uma esteira rolante como a do Aeroporto de Cumbica, jamais cogitaria enterrar meu dinheiro por aqui. Voltaria correndo para casa. Ou então iria para Buenos Aires. Os argentinos, que são bem mais espertos do que nós, venderam uma parte de seu principal aeroporto para uma empresa italiana. O preço foi tão exorbitante que a empresa italiana está passando por graves dificuldades. Até abriram uma sindicância para averiguar os gastos. Nós, por outro lado, preferimos deixar os aeroportos nas mãos dos militares, os mesmos que projetaram a esteira rolante de Cumbica. Como disse o presidente Fernando Henrique Cardoso, os militares servem apenas para matar, não para administrar aeroportos ou projetar esteiras rolantes.

Também me incomodam, em São Paulo, os cachorros com agasalhos. Basta a temperatura descer 2 ou 3 graus que os pobres coitados logo são cobertos com agasalhos de lã, em geral de padrão escocês. E o que dizer dos canteiros de plantas da Avenida Paulista? Para cada arbusto seco, há seis placas de propaganda da empresa encarregada de cuidar do canteiro. E os edifícios com nomes pomposos como o do meu flat, Place de la Concorde? Quem teve uma excelente idéia a esse respeito foram os arquitetos Isay Weinfeld e Marcio Kogan. Eles estão preparando uma exposição intitulada Grandes Contribuições da Arquitetura Brasileira à Arquitetura Universal. Vão implantar jóias da nossa arquitetura nas paisagens que as inspiraram, como os espigões em estilo mediterrâneo de São Paulo, que serão inseridos graficamente em Mikonos. Quanto ao edifício Place de la Concorde, seria curioso vê-lo no meio da verdadeira Place de la Concorde, em Paris. Daria um belo efeito. Minha única sugestão seria levar junto a esteira rolante de Cumbica e a caminhonete da distribuidora de gás.