A droga corrompe
O secretário antidrogas americano
diz
que a cocaína é uma ameaça para a
saúde das pessoas e das instituições
Rogério Wassermann
O secretário assistente Rand "Randy" Beers é
o braço direito da secretária de Estado Madeleine
Albright na luta contra as drogas. Aos 58 anos, casado e
pai de dois filhos, ele está no Departamento de Estado
há trinta anos, sempre atuando em áreas explosivas.
Já trabalhou no Conselho de Segurança Nacional
e assessorou a Casa Branca em temas espinhosos, como a prevenção
do terrorismo. O combate ao narcotráfico, que comanda
desde 1998, é de longe o maior desafio de sua carreira.
Nesta semana, Beers desembarca em Brasília para expor
ao governo brasileiro detalhes do programa de ajuda à
Colômbia no combate tanto ao narcotráfico como
a suas conexões com a guerrilha comunista. Os americanos
planejam gastar 1,6 bilhão de dólares nos
próximos dois anos, fornecendo desde treinamento
aos policiais colombianos até armas e helicópteros
militares. Os ingredientes são de alto risco, pois
a última coisa que Washington deseja é envolver
soldados americanos numa guerra de guerrilhas no exterior.
O secretário assistente conhece o assunto de perto,
pois lutou como fuzileiro naval na Guerra do Vietnã.
De Washington, Beers falou a VEJA.
Veja O senhor acredita que o Brasil esteja
a ponto de se transformar numa nova Colômbia no que
diz respeito ao narcotráfico?
Rand Beers A combinação de fatores
na Colômbia é um caso único. Mas o Brasil
precisa estar atento ao potencial de cultivo da coca na
região amazônica. A possibilidade de crescimento
do narcotráfico dentro do Brasil e a acumulação
da riqueza ligada a esse comércio representam uma
ameaça ao corpo político brasileiro. Quando
o consumo ganha as ruas das cidades, ele traz o crime, a
violência e a corrupção e pode minar
o tecido social. Essa é a principal ameaça
à sociedade brasileira.
Veja Foi por falta de ação policial
que o Brasil se transformou num corredor para a droga destinada
à Europa?
Beers O Brasil está fazendo o mesmo
tipo de esforço que outros países têm
feito. Não acho que esteja desenvolvendo um mau trabalho.
Todos que lidam com o combate às drogas, inclusive
os Estados Unidos, tiveram sucesso em alguns pontos e fracassos
em outros. Parte da droga que chega aos Estados Unidos segue
em direção ao Canadá e à Europa
e parte é consumida dentro do país. Nada disso
é muito animador, mas estamos sempre tentando melhorar.
Veja A CPI do Narcotráfico encontrou
ligações entre figuras públicas e traficantes.
Um país com narcotráfico está mais
sujeito à corrupção?
Beers Temos de nos preocupar com a capacidade
que os narcotraficantes possuem de criar uma rede de suporte
para suas operações ilegais, com a habilidade
que têm de corromper a sociedade. A droga representa
uma ameaça tanto ao indivíduo, já que
pode afetar sua saúde, como à sociedade, pelo
potencial do dinheiro do tráfico em corromper indivíduos
e instituições. Além de prejudicar
quem consome a droga, o narcotráfico mina as instituições,
corrompe o sistema político e atinge toda a sociedade.
Veja Antes de cobrar que os países
produtores combatam o narcotráfico, os Estados Unidos,
que têm o principal mercado consumidor de drogas,
não deveriam tentar resolver o assunto dentro de
casa?
Beers Se você observar as estatísticas
de consumo de drogas, verá que o consumo de cocaína
nos Estados Unidos baixou 50% de seu nível mais alto,
em 1979, e permaneceu estável nos últimos
dez anos. Enquanto isso, o consumo na América Latina
e na Europa cresceu. Foram esses mercados que contribuíram
para aumentar a demanda da droga no mundo, não o
mercado americano. Mas essa é uma questão
global, que não deve ser colocada como uma disputa
entre nações produtoras e nações
consumidoras. Nós somos todos consumidores, e algumas
nações são também produtoras.
De cada 3 dólares que os Estados Unidos aplicam no
controle das drogas, 1 vai para reduzir o consumo. A redução
da demanda está em primeiro plano em nossa estratégia
de combate às drogas.
Veja A maior dificuldade em exportar para
os Estados Unidos não acabou provocando o aumento
do consumo de drogas na Colômbia?
Beers O consumo de cocaína está
aumentando não apenas na Colômbia, mas no Brasil,
na Venezuela, em toda a América do Sul e também
na Europa. Isso significa que a produção de
coca na região andina está se tornando um
problema mais grave para um número cada vez maior
de países.
Veja O que é necessário para
reduzir as plantações de coca na Colômbia?
Beers Os camponeses cultivam a coca para ganhar
dinheiro e alimentar a família. Temos de convencê-los
de que correm riscos exercendo uma atividade ilegal e oferecer
a eles a possibilidade de desenvolver lavouras alternativas.
A coca rende mais que qualquer outra coisa que possam plantar,
mas é uma atividade de risco e talvez não
seja o ouro que parece ser. Ao governo cabe encaminhá-los
para outra atividade econômica viável.
Veja E por que os governos não fazem
isso?
Beers Esta não é uma tarefa fácil.
Na Bolívia e no Peru, a coca é plantada em
áreas remotas, mas os traficantes se encarregam de
ir buscá-la. Fazer as culturas alternativas chegar
ao mercado é um problemão, porque as pessoas
não vão viajar centenas de quilômetros
para comprar banana, café ou laranja. O programa
de substituição de culturas deve conter medidas
econômicas e sociais que convençam os agricultores
de que o novo negócio é viável e seguro.
Veja O governo tem de subsidiar essas atividades
permanentemente?
Beers O Estado tem de prover serviços
de apoio até que as novas culturas se tornem auto-sustentáveis.
A ajuda não pode durar para sempre, evidentemente.
Existem hoje na Bolívia empresas e cooperativas agrícolas
em antigas áreas de plantação de coca
ganhando dinheiro sem receber subsídios. Lógico
que isso não acontece de uma hora para a outra. O
processo na Bolívia tornou-se sustentável
depois de dez anos.
Veja O que impede que as plantações
de coca erradicadas de uma área migrem para outras
regiões?
Beers Isso ocorre com a maconha e a papoula,
mas não com a coca, que é cultivada exclusivamente
na região andina. À medida que controlamos
essa região, diminuímos as alternativas geográficas
para seu cultivo. Outro aspecto importante é que
ninguém planta coca hoje para ter um retorno amanhã.
A maconha e a papoula, o camponês planta hoje e colhe
noventa dias depois. A maturação da coca dura
de um ano e meio a três anos e depois da colheita
é preciso esperar mais doze meses até que
possa ser transformada em pasta. Para se iniciar no ramo,
o agricultor tem de contar com uma boa assistência.
Veja O crescimento do cultivo da papoula na
Colômbia não é uma forma de os traficantes
evitarem o controle mais efetivo que existe sobre o cultivo
da coca?
Beers Com a papoula os traficantes colombianos
encontraram uma oportunidade de ampliar suas atividades.
As propriedades da heroína e da cocaína são
diferentes, e os consumidores também são diferentes,
apesar de alguns usarem as duas em conjunto. Creio que os
traficantes de cocaína decidiram competir pelo mercado
da heroína com os traficantes mexicanos ou asiáticos
porque se encontraram num ambiente relativamente livre de
controle.
Veja Por que os Estados Unidos incluíram
o combate às guerrilhas comunistas no pacote de ajuda
à Colômbia?
Beers Os guerrilheiros ganham em torno de 100
milhões de dólares por ano com a cobrança
de taxas de proteção aos plantadores de coca
e aos traficantes que processam a droga em laboratórios
na região. Enquanto continuarem com isso, o governo
colombiano vai combatê-los, e nós vamos ajudá-lo.
O governo está empenhado em encontrar uma solução
política para as guerrilhas, e nós apoiamos
essa posição. Mas enquanto os guerrilheiros
atuarem como narcotraficantes serão tratados como
criminosos.
Veja Se a guerrilha ameaçar o governo
de Bogotá, os Estados Unidos vão enviar tropas?
Beers O problema é da Colômbia e
dos colombianos. Os Estados Unidos não estão
preparados para enviar forças de combate à
Colômbia, e o governo colombiano já disse categoricamente
que não quer forças de combate americanas
no país. Daremos treinamento e assistência,
mas não colocaremos de maneira nenhuma pessoas no
campo de batalha.
Veja No ano passado um avião militar
dos Estados Unidos caiu numa região controlada pela
guerrilha, matando cinco militares americanos. Isso não
significa que os americanos já estão envolvidos
na guerra?
Beers Aeronaves americanas têm sido usadas
pelo governo da Colômbia para missões de combate
aos narcóticos. Não posso discutir os detalhes
operacionais daquela missão, mas asseguro que eles
não estavam combatendo as guerrilhas. Seu foco era
o tráfico de drogas.
Veja O fato de o cultivo de coca e a produção
de cocaína na Colômbia terem crescido não
é um sinal de que a política de combate ao
narcotráfico fracassou?
Beers Os colombianos melhoraram a qualidade das
plantações, aumentaram a freqüência
das colheitas e a eficiência dos laboratórios
de processamento da droga. Ainda assim, o aumento no total
de hectares plantados na Colômbia não foi tão
significativo quanto o decréscimo da coca no Peru
e na Bolívia, países onde a produtividade
é três vezes maior. Com base nesses dados,
nós recalculamos o potencial de produção
de cocaína colombiana, de 165 toneladas, em 1998,
para 435 toneladas, no ano passado. O crescimento real da
produção colombiana foi de 20% e a produção
total na região sofreu uma queda de 7% em 1999 e
19% desde 1996. A produção de cocaína
está hoje no nível mais baixo desde 1987,
graças ao sucesso dos programas de erradicação
na Bolívia e no Peru.
Veja A política de certificação
antinarcóticos, em que os Estados Unidos julgam e
punem o comportamento dos países em relação
ao narcotráfico, não significa ingerência
em assuntos internos de outras nações?
Beers Por lei, temos de fazer uma avaliação
da atitude de cada país em relação
ao narcotráfico. Não exigimos que o país
elimine o tráfico num curto espaço de tempo,
mas avaliamos o empenho de cada um nesse sentido. O que
esperamos é um esforço de cooperação.
Se todos fizermos isso de maneira integrada, o certificado
torna-se irrelevante.
Veja Esse mecanismo não é uma
maneira abusiva de impor a concepção americana
de combate às drogas aos outros países?
Beers O mecanismo nasceu da preocupação
do Congresso dos Estados Unidos, há quinze anos,
de que o governo americano não estivesse atento ao
problema da droga no mundo. Por isso, os deputados aprovaram
uma lei exigindo que o governo apontasse os países
envolvidos na produção e no tráfico
de drogas e determinasse seu grau de cooperação
no combate ao narcotráfico. Esse processo é
um significativo avanço no sentido de mostrar que
o problema mundial da droga também nos diz respeito
e que devemos trabalhar em conjunto para resolvê-lo.
Veja O general Rosso Serrano, diretor-geral
da Polícia Nacional da Colômbia, disse que
a máfia russa está atuando na Colômbia
e também no Brasil. A presença dos russos
agrava a situação?
Beers O narcotráfico é uma atividade
muito lucrativa e por isso o crime organizado ao redor do
mundo sempre se dedicou a ele. Com as organizações
criminosas da Rússia, que têm o mercado interno
para abastecer, não é diferente. A demanda
russa começou com o comércio de heroína
e foi incrementada a partir da intervenção
no Afeganistão. Após o fim do comunismo, esses
grupos ficaram mais à vontade para atuar na Rússia
e em outros países da Europa.
Veja Qual é sua opinião sobre
as experiências de descriminação do
consumo de drogas, como a da Holanda?
Beers Os holandeses adotaram uma postura mais
leve em relação a algumas drogas, mas eles
não as legalizaram. A posse e a venda de pequenas
quantidades de maconha são legais, mas a produção
de maconha e a venda em larga escala continuam proibidas.
A cocaína e a heroína também são
ilegais. A maior tolerância em relação
à maconha fez aumentar o número de pessoas
sofrendo com o uso abusivo da Cannabis e deu aos
traficantes a oportunidade de produzir e vender drogas mais
perigosas, incluindo variações mais fortes
de maconha. Esse é um claro exemplo de que a postura
mais leve em relação às drogas não
funciona. O que produz os melhores resultados é uma
ação equilibrada entre erradicação,
proibição, aplicação das leis
antidrogas, processo contra traficantes e esforços
para redução da demanda.
Veja Com o combate às drogas tradicionais,
não é natural que haja uma pressão
maior na produção e no consumo das sintéticas?
Beers Quanto mais sucesso conseguirmos no
controle das drogas cultiváveis, maior será
a preocupação com as sintéticas. O
general Barry McCaffrey (diretor da Agência de
Política Nacional de Controle de Drogas) e eu
acreditamos que as drogas sintéticas representam
a onda futura de narcóticos. A produção
é bem mais simples, não há necessidade
de grandes operações de transporte e é
mais fácil esconder.
Veja O combate às drogas sintéticas
exigirá um esforço maior?
Beers Inicialmente pode ser que sim. Por isso
devemos continuar a luta pela redução da demanda.
Devemos impedir também que os fármacos ilegais
cheguem ao mercado, descobrindo sua composição
química e controlando seus precursores, que muitas
vezes são substâncias utilizadas em atividades
lícitas.