Edição 1 652 -7/6/2000

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A droga corrompe

O secretário antidrogas americano diz
que a cocaína é uma ameaça para a
saúde das pessoas e das instituições

Rogério Wassermann

O secretário assistente Rand "Randy" Beers é o braço direito da secretária de Estado Madeleine Albright na luta contra as drogas. Aos 58 anos, casado e pai de dois filhos, ele está no Departamento de Estado há trinta anos, sempre atuando em áreas explosivas. Já trabalhou no Conselho de Segurança Nacional e assessorou a Casa Branca em temas espinhosos, como a prevenção do terrorismo. O combate ao narcotráfico, que comanda desde 1998, é de longe o maior desafio de sua carreira. Nesta semana, Beers desembarca em Brasília para expor ao governo brasileiro detalhes do programa de ajuda à Colômbia no combate tanto ao narcotráfico como a suas conexões com a guerrilha comunista. Os americanos planejam gastar 1,6 bilhão de dólares nos próximos dois anos, fornecendo desde treinamento aos policiais colombianos até armas e helicópteros militares. Os ingredientes são de alto risco, pois a última coisa que Washington deseja é envolver soldados americanos numa guerra de guerrilhas no exterior. O secretário assistente conhece o assunto de perto, pois lutou como fuzileiro naval na Guerra do Vietnã. De Washington, Beers falou a VEJA.

Veja – O senhor acredita que o Brasil esteja a ponto de se transformar numa nova Colômbia no que diz respeito ao narcotráfico?
Rand Beers
– A combinação de fatores na Colômbia é um caso único. Mas o Brasil precisa estar atento ao potencial de cultivo da coca na região amazônica. A possibilidade de crescimento do narcotráfico dentro do Brasil e a acumulação da riqueza ligada a esse comércio representam uma ameaça ao corpo político brasileiro. Quando o consumo ganha as ruas das cidades, ele traz o crime, a violência e a corrupção e pode minar o tecido social. Essa é a principal ameaça à sociedade brasileira.

Veja – Foi por falta de ação policial que o Brasil se transformou num corredor para a droga destinada à Europa?
Beers
– O Brasil está fazendo o mesmo tipo de esforço que outros países têm feito. Não acho que esteja desenvolvendo um mau trabalho. Todos que lidam com o combate às drogas, inclusive os Estados Unidos, tiveram sucesso em alguns pontos e fracassos em outros. Parte da droga que chega aos Estados Unidos segue em direção ao Canadá e à Europa e parte é consumida dentro do país. Nada disso é muito animador, mas estamos sempre tentando melhorar.

Veja – A CPI do Narcotráfico encontrou ligações entre figuras públicas e traficantes. Um país com narcotráfico está mais sujeito à corrupção?
Beers
– Temos de nos preocupar com a capacidade que os narcotraficantes possuem de criar uma rede de suporte para suas operações ilegais, com a habilidade que têm de corromper a sociedade. A droga representa uma ameaça tanto ao indivíduo, já que pode afetar sua saúde, como à sociedade, pelo potencial do dinheiro do tráfico em corromper indivíduos e instituições. Além de prejudicar quem consome a droga, o narcotráfico mina as instituições, corrompe o sistema político e atinge toda a sociedade.

Veja – Antes de cobrar que os países produtores combatam o narcotráfico, os Estados Unidos, que têm o principal mercado consumidor de drogas, não deveriam tentar resolver o assunto dentro de casa?
Beers
– Se você observar as estatísticas de consumo de drogas, verá que o consumo de cocaína nos Estados Unidos baixou 50% de seu nível mais alto, em 1979, e permaneceu estável nos últimos dez anos. Enquanto isso, o consumo na América Latina e na Europa cresceu. Foram esses mercados que contribuíram para aumentar a demanda da droga no mundo, não o mercado americano. Mas essa é uma questão global, que não deve ser colocada como uma disputa entre nações produtoras e nações consumidoras. Nós somos todos consumidores, e algumas nações são também produtoras. De cada 3 dólares que os Estados Unidos aplicam no controle das drogas, 1 vai para reduzir o consumo. A redução da demanda está em primeiro plano em nossa estratégia de combate às drogas.

Veja – A maior dificuldade em exportar para os Estados Unidos não acabou provocando o aumento do consumo de drogas na Colômbia?
Beers
– O consumo de cocaína está aumentando não apenas na Colômbia, mas no Brasil, na Venezuela, em toda a América do Sul e também na Europa. Isso significa que a produção de coca na região andina está se tornando um problema mais grave para um número cada vez maior de países.

Veja – O que é necessário para reduzir as plantações de coca na Colômbia?
Beers
– Os camponeses cultivam a coca para ganhar dinheiro e alimentar a família. Temos de convencê-los de que correm riscos exercendo uma atividade ilegal e oferecer a eles a possibilidade de desenvolver lavouras alternativas. A coca rende mais que qualquer outra coisa que possam plantar, mas é uma atividade de risco e talvez não seja o ouro que parece ser. Ao governo cabe encaminhá-los para outra atividade econômica viável.

Veja – E por que os governos não fazem isso?
Beers
– Esta não é uma tarefa fácil. Na Bolívia e no Peru, a coca é plantada em áreas remotas, mas os traficantes se encarregam de ir buscá-la. Fazer as culturas alternativas chegar ao mercado é um problemão, porque as pessoas não vão viajar centenas de quilômetros para comprar banana, café ou laranja. O programa de substituição de culturas deve conter medidas econômicas e sociais que convençam os agricultores de que o novo negócio é viável e seguro.

Veja – O governo tem de subsidiar essas atividades permanentemente?
Beers
– O Estado tem de prover serviços de apoio até que as novas culturas se tornem auto-sustentáveis. A ajuda não pode durar para sempre, evidentemente. Existem hoje na Bolívia empresas e cooperativas agrícolas em antigas áreas de plantação de coca ganhando dinheiro sem receber subsídios. Lógico que isso não acontece de uma hora para a outra. O processo na Bolívia tornou-se sustentável depois de dez anos.

Veja – O que impede que as plantações de coca erradicadas de uma área migrem para outras regiões?
Beers
– Isso ocorre com a maconha e a papoula, mas não com a coca, que é cultivada exclusivamente na região andina. À medida que controlamos essa região, diminuímos as alternativas geográficas para seu cultivo. Outro aspecto importante é que ninguém planta coca hoje para ter um retorno amanhã. A maconha e a papoula, o camponês planta hoje e colhe noventa dias depois. A maturação da coca dura de um ano e meio a três anos e depois da colheita é preciso esperar mais doze meses até que possa ser transformada em pasta. Para se iniciar no ramo, o agricultor tem de contar com uma boa assistência.

Veja – O crescimento do cultivo da papoula na Colômbia não é uma forma de os traficantes evitarem o controle mais efetivo que existe sobre o cultivo da coca?
Beers
– Com a papoula os traficantes colombianos encontraram uma oportunidade de ampliar suas atividades. As propriedades da heroína e da cocaína são diferentes, e os consumidores também são diferentes, apesar de alguns usarem as duas em conjunto. Creio que os traficantes de cocaína decidiram competir pelo mercado da heroína com os traficantes mexicanos ou asiáticos porque se encontraram num ambiente relativamente livre de controle.

Veja – Por que os Estados Unidos incluíram o combate às guerrilhas comunistas no pacote de ajuda à Colômbia?
Beers –
Os guerrilheiros ganham em torno de 100 milhões de dólares por ano com a cobrança de taxas de proteção aos plantadores de coca e aos traficantes que processam a droga em laboratórios na região. Enquanto continuarem com isso, o governo colombiano vai combatê-los, e nós vamos ajudá-lo. O governo está empenhado em encontrar uma solução política para as guerrilhas, e nós apoiamos essa posição. Mas enquanto os guerrilheiros atuarem como narcotraficantes serão tratados como criminosos.

Veja – Se a guerrilha ameaçar o governo de Bogotá, os Estados Unidos vão enviar tropas?
Beers
– O problema é da Colômbia e dos colombianos. Os Estados Unidos não estão preparados para enviar forças de combate à Colômbia, e o governo colombiano já disse categoricamente que não quer forças de combate americanas no país. Daremos treinamento e assistência, mas não colocaremos de maneira nenhuma pessoas no campo de batalha.

Veja – No ano passado um avião militar dos Estados Unidos caiu numa região controlada pela guerrilha, matando cinco militares americanos. Isso não significa que os americanos já estão envolvidos na guerra?
Beers
– Aeronaves americanas têm sido usadas pelo governo da Colômbia para missões de combate aos narcóticos. Não posso discutir os detalhes operacionais daquela missão, mas asseguro que eles não estavam combatendo as guerrilhas. Seu foco era o tráfico de drogas.

Veja – O fato de o cultivo de coca e a produção de cocaína na Colômbia terem crescido não é um sinal de que a política de combate ao narcotráfico fracassou?
Beers
– Os colombianos melhoraram a qualidade das plantações, aumentaram a freqüência das colheitas e a eficiência dos laboratórios de processamento da droga. Ainda assim, o aumento no total de hectares plantados na Colômbia não foi tão significativo quanto o decréscimo da coca no Peru e na Bolívia, países onde a produtividade é três vezes maior. Com base nesses dados, nós recalculamos o potencial de produção de cocaína colombiana, de 165 toneladas, em 1998, para 435 toneladas, no ano passado. O crescimento real da produção colombiana foi de 20% e a produção total na região sofreu uma queda de 7% em 1999 e 19% desde 1996. A produção de cocaína está hoje no nível mais baixo desde 1987, graças ao sucesso dos programas de erradicação na Bolívia e no Peru.

Veja – A política de certificação antinarcóticos, em que os Estados Unidos julgam e punem o comportamento dos países em relação ao narcotráfico, não significa ingerência em assuntos internos de outras nações?
Beers
– Por lei, temos de fazer uma avaliação da atitude de cada país em relação ao narcotráfico. Não exigimos que o país elimine o tráfico num curto espaço de tempo, mas avaliamos o empenho de cada um nesse sentido. O que esperamos é um esforço de cooperação. Se todos fizermos isso de maneira integrada, o certificado torna-se irrelevante.

Veja – Esse mecanismo não é uma maneira abusiva de impor a concepção americana de combate às drogas aos outros países?
Beers
– O mecanismo nasceu da preocupação do Congresso dos Estados Unidos, há quinze anos, de que o governo americano não estivesse atento ao problema da droga no mundo. Por isso, os deputados aprovaram uma lei exigindo que o governo apontasse os países envolvidos na produção e no tráfico de drogas e determinasse seu grau de cooperação no combate ao narcotráfico. Esse processo é um significativo avanço no sentido de mostrar que o problema mundial da droga também nos diz respeito e que devemos trabalhar em conjunto para resolvê-lo.

Veja – O general Rosso Serrano, diretor-geral da Polícia Nacional da Colômbia, disse que a máfia russa está atuando na Colômbia e também no Brasil. A presença dos russos agrava a situação?
Beers
– O narcotráfico é uma atividade muito lucrativa e por isso o crime organizado ao redor do mundo sempre se dedicou a ele. Com as organizações criminosas da Rússia, que têm o mercado interno para abastecer, não é diferente. A demanda russa começou com o comércio de heroína e foi incrementada a partir da intervenção no Afeganistão. Após o fim do comunismo, esses grupos ficaram mais à vontade para atuar na Rússia e em outros países da Europa.

Veja – Qual é sua opinião sobre as experiências de descriminação do consumo de drogas, como a da Holanda?
Beers
– Os holandeses adotaram uma postura mais leve em relação a algumas drogas, mas eles não as legalizaram. A posse e a venda de pequenas quantidades de maconha são legais, mas a produção de maconha e a venda em larga escala continuam proibidas. A cocaína e a heroína também são ilegais. A maior tolerância em relação à maconha fez aumentar o número de pessoas sofrendo com o uso abusivo da Cannabis e deu aos traficantes a oportunidade de produzir e vender drogas mais perigosas, incluindo variações mais fortes de maconha. Esse é um claro exemplo de que a postura mais leve em relação às drogas não funciona. O que produz os melhores resultados é uma ação equilibrada entre erradicação, proibição, aplicação das leis antidrogas, processo contra traficantes e esforços para redução da demanda.

Veja – Com o combate às drogas tradicionais, não é natural que haja uma pressão maior na produção e no consumo das sintéticas?
Beers
– Quanto mais sucesso conseguirmos no controle das drogas cultiváveis, maior será a preocupação com as sintéticas. O general Barry McCaffrey (diretor da Agência de Política Nacional de Controle de Drogas) e eu acreditamos que as drogas sintéticas representam a onda futura de narcóticos. A produção é bem mais simples, não há necessidade de grandes operações de transporte e é mais fácil esconder.

Veja – O combate às drogas sintéticas exigirá um esforço maior?
Beers
– Inicialmente pode ser que sim. Por isso devemos continuar a luta pela redução da demanda. Devemos impedir também que os fármacos ilegais cheguem ao mercado, descobrindo sua composição química e controlando seus precursores, que muitas vezes são substâncias utilizadas em atividades lícitas.