A patrulha e "o social"
"O país
amadureceu e aprendeu a apreciar
raciocínios econômicos
que fazem sentido e
profissionalismo na gestão
da coisa pública"
Ilustração Ale Setti
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Não há juramento de formatura, qualquer que
seja a profissão, em que não se diga que o conhecimento
ali entregue, geralmente na forma simbólica de um canudo
de papel em branco, será usado "pelo social". Houve
época em que as formaturas eram menos festivas pois
eram menores as frestas pelas quais se podia expressar contrariedade.
Em nossos dias, o politicamente correto das formaturas se
tornou inofensivo, embora sirva como ritual de iniciação
para uma maldição vitalícia a ser enfrentada
por todos os bacharéis: a patrulha.
A patrulha atacará, num primeiro flanco, a pretensão
do bacharel de possuir alguma sabedoria que não possa
ser adquirida na "escola da vida". Afinal este é
o país da improvisação e do amadorismo.
O economista então, esse pobre coitado que milita
numa área onde todos têm opinião, convive
desde o nascimento com a acusação de que seu
saber não tem nada de especial.
De outro lado, pela esquerda, os formandos serão
lembrados de que o diploma deve estar a serviço da
transformação social. Portanto, você,
leitor distraído, que é engenheiro químico,
artista gráfico, dentista, dona-de-casa, administrador
de empresas ou diretor do Banco Central, vai ter sempre
de explicar quais foram suas ações, dentro
de sua profissão, no sentido de reduzir as vergonhosas
desigualdades sociais do Brasil. É claro que sempre
podemos fazer alguma coisa fora da nossa prática
profissional, mas a maior parte das pessoas não dispõe
do tempo e do desprendimento e tem no restrito universo
do próprio trabalho o único espaço
para mudar o mundo.
As formaturas, no fundo, trazem uma mensagem sutil: a
menos que sua profissão seja a caridade, a única
forma de redenção é a militância
política, e muitos dirão que apenas as modalidades
revolucionárias contam.
Mas existem muitos enganos, especialmente no mundo político,
quanto à natureza do verdadeiro trabalho "pelo social".
A Nova República, por exemplo, estabeleceu um lema
simples para as finanças públicas: "Tudo pelo
social". E justamente em função dessa regra
produzimos a Constituição de 1988, a hiperinflação
e, pior que tudo, uma escolha de Sofia na eleição
de 1989. Devíamos, portanto, ter aprendido a lição,
o que, infelizmente, não é o caso. A patrulha
que confunde "o social" com a irresponsabilidade fiscal
está mais viva do que nunca.
Os economistas do governo são vítimas contumazes,
pois são eles os chatos a dizer que qualquer dinheiro
público gasto além da receita vai gerar imposto
sobre o pobre (inflação) ou sobre as futuras
gerações e classes produtivas (dívida
pública). E, a despeito de obedecerem estritamente
a seus juramentos e também aos manuais de sua disciplina,
suas ações sempre parecerão prejudicar
"o social".
Que fique muito claro que o problema social brasileiro
é nosso maior desafio, e que a responsabilidade é
de todos nós. Isso posto, todavia, a pergunta é
como exatamente devem comportar-se as autoridades econômicas
preocupadas com "o social". Pessoalmente sempre achei que
a melhor coisa que o Banco Central pode fazer pela cidadania
é defender a moeda. Mas tem gente que acha que fabricar
papel pintado à vontade para gastar "no social" é
uma prática não apenas legítima como
necessária para resgatar a dívida social.
É a tese do "pouquinho de inflação",
muito popular mas raramente defendida abertamente.
Hoje em dia, os economistas já conseguem atacar
essa tese perguntando que sentido pode haver em elevar a
despesa "no social" financiada por um imposto sobre o pobre
(a inflação) para, em seguida, devolver o
dinheiro a outro pobre, quem sabe o mesmo, com a intermediação
de uma relação de clientela, possivelmente
numa emenda ao Orçamento, e deduzidos os custos da
burocracia?
Felizmente, o país amadureceu e aprendeu a apreciar
raciocínios econômicos que fazem sentido e
profissionalismo na gestão da coisa pública.
E cada vez menos se deixa enganar pelas patrulhas.