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Edição 2059

7 de maio de 2008
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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Um drama americano

A trombada entre Obama e o pastor de sua igreja
joga luz sobre a singularidade da política dos EUA

A candidatura de Barack Obama propunha-se a superar a divisão entre negros e brancos na sociedade americana. Acabou trazendo a dicotomia negros/brancos para o coração da campanha presidencial. Propunha-se a reconciliar e unir. Ameaça exacerbar e desunir. No centro de tais desvios de rota, com potencial para destruir as pretensões do primeiro negro com chance de chegar à Presidência dos Estados Unidos, encontra-se o hoje famoso pastor Jeremiah Wright, antigo mestre e guia espiritual do candidato, e tão próximo dele que celebrou seu casamento e batizou-lhe os filhos. Eis uma história que, ao opor o pastor à sua ovelha, o mestre ao aluno, a figura paternal à figura filial, exibe um conflito de tons shakespearianos. Eis também uma história exemplar dessa singularidade americana que é a centralidade da religião na vida social e política do país.

Na semana passada, a relação Wright-Obama chegou ao ponto de ruptura. Numa entrevista em Washington, o pastor reiterou pontos de vista que, do aconchego de sua congregação, haviam escapado para a disputa eleitoral, como a afirmação de que o 11 de Setembro foi um castigo para os malfeitos praticados pelos EUA, ou que, em vez de cantar "Deus abençoe a América", o povo deveria cantar "Deus amaldiçoe a América". Wright é um reverendo à moda dos anos 60, em sua condenação intransigente dos brancos. Quando vídeos de suas pregações começaram a ser contrabandeados para o YouTube e spots na TV, Obama reagiu com grandeza. Num bonito discurso, disse que não podia condenar o reverendo mais do que podia condenar a avó branca que o criou por lhe ter confessado que tinha medo de cruzar com negros na rua. "Eu conheço o homem", disse de Wright. "O homem que encontrei há mais de vinte anos é o homem que ajudou a me introduzir na fé cristã, que me falou da obrigação de amar-nos uns aos outros, de cuidar dos doentes e de socorrer os pobres." Na semana passada Obama não conhecia mais o homem. Depois da entrevista do reverendo, convocou a imprensa para dizer-se indignado e condenar a pregação do pastor como "divisiva e destrutiva".

O atual presidente dos EUA, George W. Bush, inicia as reuniões com uma prece. A candidata Hillary Clinton retrata-se como fiel observante da fé metodista. Contra uma Europa cada vez mais atéia ou indiferente à religião, os EUA são a negação da tese de que, quanto mais prósperos e instruídos os países, menos lugar terá a fé em suas sociedades. Ao mesmo tempo, a religião divide os americanos. A hora mais segregada da vida no país, disse Obama naquele discurso, e repetiu Wright na entrevista, é o domingo de manhã. É hora de ir ao culto religioso, e nisso negros e brancos não se misturam. Já se misturam nas escolas, no trabalho e nos bairros; não na igreja. Na singular sociedade americana, pobre de quem não exibir seu amor a Deus, mas que o faça no lugar certo. Mesmo para um negro tão conciliador como Obama não haveria refúgio senão numa igreja de negros, e as igrejas de negros freqüentemente produzem os Wright.

Obama, mais que outros políticos, tinha razões para proclamar sua fé e exibir seu pastor ao eleitorado. Suspeitava-se que fosse um muçulmano enrustido. Muçulmanos foram seu pai e o padrasto, assim como as escolas que freqüentou na Indonésia, país em que passou parte da infância; se já era difícil ser negro e querer a Presidência, que dizer se fosse negro e muçulmano? O reverendo Wright desempenha papel decisivo na autobiografia que Obama escreveu, Dreams from My Father. O título de um sermão de Wright, The Audacity of Hope, foi repicado no título de outro livro do candidato. O pastor o acompanhou em aparições públicas, no início da carreira. Tais circunstâncias tornam mais dramático o rompimento. O pai de Obama divorciou-se da mãe quando ele tinha 2 anos e até morrer, quando ele tinha 20, foi alguém de quem só teve notícias distantes. O papel que ele atribui a Wright em sua vida está perto do de um pai substituto.

Obama disse que o que mais lhe doeu, na entrevista do pastor, foi a afirmação de que ele, Obama, adotava as posições que adota por cálculo político: "Isso me desrespeita e insulta o que tenho tentado nesta campanha". Wright afirmara que políticos, como Obama, agem sob o comando das sondagens e dos cálculos eleitorais. Já ele próprio, como pastor, obedece a um único comando, o de Deus. Wright é um espiroqueta que já cometeu a sandice de dizer que o governo americano espalhou o vírus da aids para contaminar os negros. Exibe a doença da megalomania e recai no pecado da soberba ao se declarar detentor da verdade contra as falsidades acomodatícias dos políticos. Mas essa sua declaração tem um mérito; ela ressalta o fosso entre o relativismo que rege o mundo da política e o absoluto em torno do qual se estrutura a religião. Misturar as duas coisas dá curto-circuito. A cultura política americana, ao permiti-lo, abre o flanco para acidentes fatais como a trombada entre Obama e seu antigo pastor, guia e pai de reserva.



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