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Edição 2059

7 de maio de 2008
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Livros
Tombo na realidade

Como todos os livros de Nick Hornby, Slam parece
só uma leitura divertida – mas também permite reflexões
insuspeitas sobre os dramas da adolescência


Marcia Tiburi

Mark Mainz/Getty Images
Hornby: personagem dividido entre o skate e a responsabilidade por uma gravidez indesejada
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Trecho do livro


Os livros de Nick Hornby facilmente sugerem um filme. O espectador que viu Um Grande Garoto e Alta Fidelidade no cinema, mas não leu os livros em que são baseados, não chegou a perder muito. O trabalho da linguagem que faz a diferença entre literatura e cinema não é o forte do autor inglês, que escreve como se fizesse roteiros. Essa característica, porém, talvez ajude Hornby, de 51 anos, a se conectar com os leitores mais jovens. No novo Slam (tradução de Paulo Reis; Rocco; 264 páginas; 33 reais), romance protagonizado por um adolescente fã do skate, o escritor continua sua aposta sempre perigosa em uma literatura que parece não ter nada a dizer, mas ao mesmo tempo aborda questões de densidade moral. Nesse limiar é que a obra mostra sua riqueza. Slam é bom de ler, mas também mais que isso.

Na gíria do skate, slam é um tombo. O personagem principal é um garotão filho de jovens pais divorciados. Ele é mais ligado ao skate e aos heróis desse esporte que a qualquer outra coisa. O livro é narrado pelo adolescente, em primeira pessoa. Já com 18 anos, ele olha para trás, para o tempo em que, aos 16 anos, passou por uma espécie de travessia pessoal ao descobrir que sua namorada estava grávida. Ele tinha um interesse relativo no relacionamento com a garota – um interesse que se torna cada vez menor diante da apavorante perspectiva de um filho. A gravidez acidental serve para que o garoto comece a considerar com seriedade o futuro, esse tempo que ninguém conhece.

O que poderia parecer apenas uma comédia ligeira sobre situações das quais ninguém é com segurança o culpado acaba se tornando um livro sobre a queda na responsabilidade. Slam tem um certo elemento de auto-ajuda, mas não cai na moralização estreita. É uma leitura oportuna para adolescentes que não sabem muito bem o que fazer com o sexo e suas conseqüências – sobretudo quando essas conseqüências tomam a forma de um filho, um bebê, que, segundo o jovem narrador de Slam, muitas meninas carregam como se fosse um iPod, uma "parada" nova para exibir por aí. E o livro é bom também para os pais que raramente conversam sobre sexo com os filhos, porque não sabem o que dizer. Como tudo na vida, sexo virou algo entre o tudo e o nada, o mito e o banal. E, como tudo na vida, pode acabar num grande tombo, numa violenta queda no real. Nestes tempos em que a própria adolescência vira um mito, um paradigma de felicidade e consumo, é mesmo bom parar para pensar. Slam ajuda, sem rancor nem amargura, a deixar de vê-la como tempo de felicidade para prestar atenção ao pavor e à solidão dos que sofrem os tombos da idade.

 



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