Os livros de Nick Hornby facilmente sugerem um filme. O espectador
que viu Um Grande Garoto e Alta Fidelidade no
cinema, mas não leu os livros em que são baseados,
não chegou a perder muito. O trabalho da linguagem que
faz a diferença entre literatura e cinema não
é o forte do autor inglês, que escreve como se
fizesse roteiros. Essa característica, porém,
talvez ajude Hornby, de 51 anos, a se conectar com os leitores
mais jovens. No novo Slam (tradução
de Paulo Reis; Rocco; 264 páginas; 33 reais), romance
protagonizado por um adolescente fã do skate, o escritor
continua sua aposta sempre perigosa em uma literatura que parece
não ter nada a dizer, mas ao mesmo tempo aborda questões
de densidade moral. Nesse limiar é que a obra mostra
sua riqueza. Slam é bom de ler, mas também
mais que isso.
Na gíria do skate, slam
é um tombo. O personagem principal é um garotão
filho de jovens pais divorciados. Ele é mais ligado ao
skate e aos heróis desse esporte que a qualquer outra
coisa. O livro é narrado pelo adolescente, em primeira
pessoa. Já com 18 anos, ele olha para trás, para
o tempo em que, aos 16 anos, passou por uma espécie de
travessia pessoal ao descobrir que sua namorada estava grávida.
Ele tinha um interesse relativo no relacionamento com a garota
um interesse que se torna cada vez menor diante da apavorante
perspectiva de um filho. A gravidez acidental serve para que
o garoto comece a considerar com seriedade o futuro, esse tempo
que ninguém conhece.
O
que poderia parecer apenas uma comédia ligeira sobre
situações das quais ninguém é com
segurança o culpado acaba se tornando um livro sobre
a queda na responsabilidade. Slam tem um certo elemento
de auto-ajuda, mas não cai na moralização
estreita. É uma leitura oportuna para adolescentes que
não sabem muito bem o que fazer com o sexo e suas conseqüências
sobretudo quando essas conseqüências tomam
a forma de um filho, um bebê, que, segundo o jovem narrador
de Slam, muitas meninas carregam como se fosse um iPod,
uma "parada" nova para exibir por aí. E o livro
é bom também para os pais que raramente conversam
sobre sexo com os filhos, porque não sabem o que dizer.
Como tudo na vida, sexo virou algo entre o tudo e o nada, o
mito e o banal. E, como tudo na vida, pode acabar num grande
tombo, numa violenta queda no real. Nestes tempos em que a própria
adolescência vira um mito, um paradigma de felicidade
e consumo, é mesmo bom parar para pensar. Slam ajuda,
sem rancor nem amargura, a deixar de vê-la como tempo
de felicidade para prestar atenção ao pavor e
à solidão dos que sofrem os tombos da idade.