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Livros Chega ao
Brasil o delicioso humor de Eu Sou um Gato,
Natsume Soseki é o Machado de Assis japonês. Patrono da literatura moderna daquele país, como Machado por aqui, ele teve sua foto estampada na cédula de 1 000 ienes. Mas a comparação pode ir muito além da fama e do reconhecimento. Pela primeira vez, um dos clássicos de Soseki está saindo no Brasil: Eu Sou um Gato (tradução de Jefferson José Teixeira; Estação Liberdade; 486 páginas; 62 reais). Leia-se o livro em paralelo com Memórias Póstumas de Brás Cubas. Num passe de mágica, o Brasil e o Japão se aproximam: duas nações periféricas, no fim do século XIX e no começo do século XX, às voltas com o problema de importar idéias européias para uso (ou mau uso) nacional. Não atrapalha nem um pouco a comparação o fato de que os dois autores compartilharam do mesmo humor, da mesma melancolia, e da mesma deliciosa veia estilística. Eu Sou um Gato, de 1905, foi a estréia de Soseki na ficção. É provável que ele se imaginasse ao mesmo tempo como o felino-narrador e como o seu pobre amo. Sua infância foi de gato abandonado. Seus pais o entregaram, aos 2 anos, a outro casal, e só o acolheram de volta aos 9 anos. Um sentimento misto de solidão e independência o acompanhou pela vida, refletido em seu pseudônimo literário (Soseki quer dizer "estorvo"). Mas, tanto quanto o professor Kushami, Soseki era um "interi" um intelectual, assombrado pelo influxo da cultura e dos costumes ocidentais sobre o Japão. Soseki nasceu em 1867, meses antes de uma transformação momentosa, a Restauração Meiji, que devolveu o poder à linhagem dos imperadores japoneses e com isso pôs fim a mais de dois séculos de feudalismo e política isolacionista. A abertura para o mundo não se deu sem traumas. Boa parte de Eu Sou um Gato é dedicada a zombar do palavrório sem sentido a respeito de idéias estrangeiras. À medida que o livro se aproxima do final, contudo, Kushami perde um pouco da tolice, ganha um pouco de sabedoria, e reflete de maneira amarga sobre os dilemas japoneses e o sentido de sua própria vida. Como demonstrou há tempos o crítico brasileiro Roberto Schwarz, o tema das idéias emprestadas foi central para Machado de Assis. Ele fez com que Brás Cubas, no entanto, as empregasse de forma cínica. Na juventude, o personagem vai à Europa viver de maneira prática o romantismo, mas só de maneira teórica o liberalismo. Ao estudar, ele se limita a colher "de todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação". Ao montar o seu circo de conceitos e teorias, Brás Cubas escamoteia os seus pecados próprios e os pecados de sua classe social, enriquecida à custa do trabalho escravo. Em Soseki, a preocupação é diferente. Num ensaio de 1911, A Civilização Japonesa Moderna, o escritor descreveu o processo de modernização de seu país como externo e superficial, em vez de interno e orgânico. O perigo, disse ele, era que um povo inteiro se visse levado a um estado de "nevrose". Parte dos temores de Soseki se viu confirmada nas décadas seguintes, quando o Japão abraçou uma forma agressiva de nacionalismo. Em Eu Sou um Gato, contudo, o que esse grande nome da literatura universal exibe é aquele riso largo, apesar de melancólico, que o brasileiro conhece tão bem de Machado de Assis.
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